quarta-feira, 26 de dezembro de 2007

compreende?



Minha vontade permitida proibida se permite se perde diante dos seus olhos e a minha não coragem de conseguir dizer tudo me faz dizer nada, calar-se em vergonhas e palavras soltas

sábado, 15 de dezembro de 2007

para um arcanjo sem volta

Depois da tempestade, de cada um ter seguido seu rumo, segue talvez uma saudade, ou uma talvez vontade-cara-de-pau-tímida de ligar só pra saber como você está. Sobre a saudade, posso dizer que ela não se relaciona ao amor ou à volta, esses, sem volta, sem saudade. O que posso tentar descrever aqui é uma espécie de falta, uma lembrança forte daquela presença e, talvez, uma negação humana de não se acostumar com o silêncio e com a distância de duas pessoas que já foram tão próximas e que, de repente, passaram a habitar vazios distintos. Vem daqui um desejo envergonhado, quase escondido, já que a dor passou e, agora, quem sabe, felicidade, paz, de trocar mais de "duas ou três frases sarcásticas" e de ter um carinho saudável, um pelo outro, outro pelo um, ambos; mesmo depois dos tombos, dos escorregões, das batidas fortes que nos atormentaram por noites e domingos.
Sinto uma vontade inexplicável de perdoar, mesmo sabendo que eu ainda não consigo, de fato, perdoar. Sinto vontade de pedir perdão, mas, também, inútil. Desejo o bem, de verdade. Até mesmo naqueles momentos em que o sarcasmo aparece, entre os amigos, entre os desconhecidos, em certas falas perdidas no meio da noite ou na falta de um assunto melhor. Porque ter raiva também é humano, não é? E errar também, frase quase banal. E também perdoar (e também pedir perdão).
Então talvez agora realmente seja o momento de buscar algum tipo de leveza que me conforte, que me acalme. Tenho mantido o lado esquerdo do peito em silêncio, não em seu nome, não em sua lembrança, mas para que ele se recomponha de forma saudável, tranqüila. E para que assim, depois de refeito, possa se abrir outra vez, sem vergonhas, sem medos, coração aberto para novos mergulhos. O silêncio não deve assustar, é pausa pra respiração.
Como num suspiro, vontade de te agradecer por ter sido meu primeiro tudo. Primeiro amor, primeiro salto, primeiro mergulho, primeiro carinho, primeira vontade, primeira falta, primeira mágoa, primeiro tombo. E por ter vivido primeiros tão bons momentos, ter me feito acreditar no amor e querer entregar pra você todas as coisas que todos os bobocas sentimentais desejam entregar para essa palavra tão cheia–vazia de significados: amor. Meu primeiro: queria pra você todas as alegrias e para mim nenhuma alegria seria maior do que estar com você.
Sei que caminhei até meus descaminhos e de nada me arrependo, nem mesmo de ter tropeçado tanto depois do depois. Se o amor é assim, como já disseram, intangível, talvez precise de silêncios espessos para se recompor. Mas a tal coisa, que já foi tão dita e tão pouco entendida, continuará persistindo até o fim dos dias e, ainda bem, creio ser o amor a cura de todas as coisas.
O amor se transformou, mesmo que se confunda. Virou outro. Metamorfose como de lagarta à borboleta.
Sem falsidades, mando bons fluidos para você. Desejo que seus olhos continuem se alargando por aí e que seu peito não se cale. Nunca.
Sinto falta da sua presença ou talvez, da presença daquele colorido que se dará de outras formas e cores a partir de agora. Desejo o bem, de bem e que, um dia, um dia sim, nos abraçaremos com verdade, com a mesma verdade daquele abraço que um dia nos uniu.

domingo, 25 de novembro de 2007

pra ela

Síncope
Sístole ( Diástole )
Pedaço de tudo, de nada
Paisagem recortada.
Inteira, enorme, miúda
seu nome quer dizer mil.
Bi única, Bi muitas, Bi mais
Inspiração, Transpiração
Ar, ar, ar.
O mergulho vem antes do salto
Expira lento, extenso, transtorna
Transmissão de pensamento
Melodias sem rumo, partitura do coração
Caminhei pra escutar: ir fundo
Me dê mais música pra respirar.

sábado, 3 de novembro de 2007

tentativa número um

- Vamos tentar mais uma vez. Você consegue.
- Eu...
- Isso! ...Você... ?
- E... e..... eu....
- ... você...??
- Eu.. eu..
- ???
- Eu... Eu não consigo.
- Você consegue. Vai.
- Eu...
- Você consegue, você consegue. Um... dois... três... E pluft! Vai.
- ...
- ??
- ... Eu... Eu... Droga!
- Calma, calma... Vamos por partes. Você vai conseguir, eu juro. Não é tão difícil assim.
- Eu... eu.. Eu não consigo.
- Não diga isso. Você consegue. Você sente.
- Eu... eu... eu sinto... eu sinto sim.
- Você sente e você consegue. Vamos devagar.
- Devagar?
- Devagar. Feche os olhos. Feche. Isso, muito bem. Agora pense em uma coisa agradável, tranqüila. Numa coisa que você goste muito.
- ...
- Está pensando?
- ...Eu....
- Você consegue. Fixe seu pensamento. Isso. Agora, transfira essa sensação de tranqüilidade pro que você quer dizer. Você quer dizer, não quer?
- Eu... Eu... eu quero.
- Ótimo, você quer. Você sente, não sente?
- ...Eu sinto.
- Muito bem. Vamos. Respira fundo e diga de uma vez.
- ...Eu... eu... eu...
- Você...?
- ... Eu.... eu... Me desculpe. Eu não consigo.
- Pára com isso! Você consegue! Você sente, não sente?
- Eu... eu sinto... Eu sinto sim. Mas.. desculpa. Eu não consigo dizer. Não consigo.
- Você consegue, vai. 1...2...3...
- Eu... eu.... eu.............................................................................................................
- Pelo amor de Deus! São só três frases. Fecha os olhos e diz. Diz pensando em outra coisa... Já sei! Pense em metáforas! Pense que isso que você vai dizer pode ser uma metáfora!
- Eu... eu... te....
- Isso! Isso! Isso! Você....?
- Eu... te.........................
- Vamos, vamos, vamos! Ta quase! Você... me...???
- Eu.... te.... a....
- Isso, isso, isso... Você... me... 2 letrinhas, 2 letrinhas que faltam...
- Eu.... eu....
- Vamos, você já está quase conseguindo!!!!!!!!! Vamos !!!! Vamos!!!!!!
- Eu... eu...
- ???????
- Eu.... Desculpe.
- Pelo amor de Deus!!!!!!!! Você está quase, está quase...!
- Eu não consigo.
- ( quase chorando ). Você consegue. Você quase conseguiu. E você sente, não sente?
- Eu sinto... Eu sinto sim. Mas me desculpe. Eu não sei dizer. Eu não posso dizer.

sexta-feira, 5 de outubro de 2007

acorde de coeur

Decidi que vou escutar meu coração.
Não daquela maneira que todos costumam dizer, um conselho quase banal e mentiroso da sociedade. Quero escutar a sonoridade exata que venha do meu peito. O tum tum tum no acorde perfeito. A nota que começa e a que termina para que depois comece outra. Meu coração em nota Sol. Qual será seu timbre?
Para ouvir a melodia que meu coração carrega em Si, preciso fechar as janelas do quarto e dos pensamentos e fechar os olhos e parar. Respiro. Paro. Escuto.
Meu coração é quase um poliedro de sons. Notas, acordes, pausas, fermatas. Melodias inúmeras que se misturam. Envolto de um timbre grave, escuro. Por dentro é agudíssimo, soprano, tenor. Meu coração: mistura de Billie Holiday com Gal Costa. Canções de ópera nas bordas. Batidas de pandeiro no fundo. Dorival Caymmi em camadas. Piazzolla de vez em quando. Bjork pra respirar mais fundo. A canção do dia é Gabriela.
Meu coração tem também sons indecifráveis. Alguns estranhos, outros comuns. Em algumas horas do dia ele produz uma batida diferente só pra me enganar. Logo percebo: fingimento. O coração gosta de criar músicas mentirosas.
Meu coração tem um constante tic-tac de ansiedade. Apesar de detestar relógios e datas, o tic-tac espera por alguma coisa que eu não sei bem o que é. Espera ansioso, mentiroso. Não sabe o que quer. Quer muito. Quer demais.
Meu coração precisa de silêncios pra que novas estruturas melódicas se criem. Algumas vezes se cala, finge de mudo. Psiu. Parece endurecer, mas está ali. Forte. Presente. Foi calado que meu coração aprendeu a ouvir. Observa o mundo de longe. Espera quietinho, escuta. Aprendi a escutar os silêncios. Escutei: “quanto mais amo mais calo”. Me calei.
O tic –tac se mistura com os tum tum tums das possíveis batidas. Meu coração não se cansa, não sei bem porquê. Bate feliz, é verdade. E quer muito. Quer demais. Novas melodias, outros silêncios, batidas indecifráveis, acordes dissonantes, tudo ao mesmo tempo. Meu coração atrás de um tic-tac imperfeito.

domingo, 16 de setembro de 2007

tempo forte


Hoje amanhã depois
desde quando?
pausa melódica entre dois
mudos
mútuos
você longe.



Fermata.

quarta-feira, 5 de setembro de 2007

centro-me

Fiquei o dia todo a sua espera.

Quem você é, não sei. O que é também não me interessa. Fiquei a espera Disso: uma sacudida, um espasmo, um barulho incompreensível, uma pausa. Fiquei a espera de uma flecha que atingisse o centro do meu corpo – não o umbigo, que todos imaginam ser o centro do corpo, mas aquela parte que fica logo acima do estômago, logo abaixo do intervalo que existe entre os seios, aquele ponto do corpo que dói quando sentimos angústia. O centro do corpo é aí: no ponto da angústia. Angústia pura: fiquei a espera.
Eu queria uma voz que me acalmasse, uma melodia nova, uma cor de laranja no céu. Queria um instante em que tudo fosse possível – ou impossível. Queria um espanto, uma tosse, uma pontada nos ouvidos, um mergulho no intangível, um riso fantasiado, um escorregão, um salto na penumbra, um sabor novo e comum. Queria um aperto forte nos ombros, desses que erguem a gente para as nuvens. Queria um caminho atravancado que me fizesse mudar de direção, queria tornar a visão tortuosa por lágrimas, pálpebras de neblina. Queria um espirro, um grito ou simplesmente, um silêncio. Um silêncio com presença. Queria assim, simplesmente: algo que me arrebatasse.
Fiquei o dia todo a sua espera.

Espero.
título criativa : mil-ena

sábado, 1 de setembro de 2007

sexta-feira, 17 de agosto de 2007

palavras da andorinha


"Eu me apego ao amor pra compensar todas as outras coisas que sei que não sei fazer. Esse mecanismo que a gente aprende: amenizar as falhas."





sexta-feira, 10 de agosto de 2007

"mil perdões"

Eu estou aqui para te pedir perdão.

Sem moralismos, sem demagogias, sem fingimentos, venho te pedir perdão por tudo isso e um pouco mais, e são tantos issos e tantos mais que tudo parece não caber nessa pequena palavra - palavra tão sonora, tão pesada: Perdão. Palavra pesada que busca leveza. Já disseram por aí que “é preciso ser leve como o pássaro e não como a pluma” e isso talvez signifique que para se alcançar a leveza é necessário uma espécie de vôo para um outro espaço, outro instante, outra ótica. Outra perda? Preciso pedir perdão para me tornar mais leve.
Diante disso tudo e um pouco mais, peço antes de qualquer coisa, perdão por isso: o demais. Os mais velhos sempre me alertaram: “É bom evitar os excessos” e eu, desde menina, cheia de vontades, decidi que seria muito. Sempre muito. E assim fui muita coisa, mergulhei em tudo que queria mergulhar. Mergulhei você.
Você também queria ser muito e nunca conseguiu. Havia em você uma falsa vontade de querer algo, qualquer coisa, e nada. Você nada queria. Assim, talvez por causa disso, resolvi pra mim mesma que viveria tudo quase em dobro, em triplo, para compensar as suas fraquezas em querer.
O desejo perigoso de se lançar fez com que eu me lançasse a você e a tudo. Perdão: foi demais. Queria te ter por inteiro, queria que me tivesses por inteira. Queria que você conseguisse tudo aquilo que pudesse, em algum instante, querer.
Perdão. Você nunca quis nada.
Depois dum mergulho tão fundo você passou a querer menos ainda as coisas. Se já nada queria, passou a negar até isso mesmo: o nada. Perdão. Eu sempre tive essa mania de querer preencher o “nada” com poesia.
Em tudo ou nada, sempre o mesmo, os mais velhos me alertavam: “É bom evitar os excessos. Não se pode doar por inteiro para ninguém”
Preciso pedir pra me tornar mais leve: Perdão.


E agora, um vôo.

quinta-feira, 2 de agosto de 2007

os amantes

Começou num abraço. A partir do gesto, tão simples e tão de repente, fez-se uma virada que logo se seguiu no resto que viria adiante. Ele apareceu pra curar Ela ( e Ela para curar Ele também ). Ela guardava consigo todas as feridas do mundo – feridas de um amor incurável – e Ele guardava os ouvidos, os olhinhos pequenos, os cabelos fartos e os braços. Os braços estendidos. E ali, naquele início que começava pelo colo, Ele quase se esquecia da ferida que também precisava se curar – ferida de um amor. Incurável?
Começaram assim, pelo colo, pelos braços, pela cura de ambos. Cúmplices de uma mesma dor, de um mesmo sentimento intangível, consolavam-se juntos, pouco a pouco. Um no colo do outro, braços entre-laçados, lá estavam os dois a compartilhar feridas abertas. Ele soprava a ferida Dela com uma lentidão que a acalmava. Ela apenas sorria para Ele - e isso era tudo.
Compartilhavam as feridas e assim iam também compartilhando braços, beijos, sonhos, sonos, idéias, olhares, toques, melodias, silêncios. Se entendiam muito bem durante as conversas. Se entendiam melhor ainda nos silêncios.
À medida que iam se entendendo, iam também se adorando, mais e mais. Porém, mesmo um precisando tanto do colo do outro, tanto Ela quanto Ele colocavam ali um limite de envolvimento, uma linha tênue quase-transparente que os impedia de ir muito adiante – ainda não estavam curados. Ambos sabiam que tinham se conhecido apenas para isso mesmo – a cura – e não podiam nem deviam ir muito além. Ele não era pra Ela. Ela não era pra Ele.
Leveza. Tinha ali algo quase melhor do que o amor: cumplicidade, carinho, colo, abraço. E mais: a linha tênue quase-transparente impedia qualquer mergulho. Ele adorava Ela. Ela adorava Ele. E os dois se guardavam no ar, longe do sofrimento. Cúmplices amantes que não podiam se amar.
Se enchiam de abraços: um abraçando a dor do outro, outro curando a ferida de um. Ela só gostava de conversar com Ele. Ele só queria confiar Nela. E os braços de ambos se mantinham fora d´água.
Iam se adorando no calor dos braços entre-laçados e dos sorrisos.
Até que teve um dia.
Choveu. Tempestade. Se entenderam demais. Os abraços se tornaram muito apertados, sufocantes. Um movimento atípico no peito revelava tanto para Ele quanto para Ela a possibilidade de perigo. Insegurança e medo. A linha tênue já não era quase transparente e sim, quase colorida, quase azul. Os sábios dizem o tempo todo: é azul a cor do amor.
Oceano. Justamente à partir daquele ponto começava-se a avistar, cada vez mais de perto: tanta água.
A água inundou. Inundou os ouvidos, os olhinhos pequenos, os cabelos fartos Dele. Inundou o sorriso Dela. Os abraços ala(r)gados se debatiam contra a possibilidade do mergulho. Tarde demais, água demais.
Nunca mais Ele curaria Ela. Nunca mais Ela curaria Ele. O medo de uma outra ferida fez com que cada um seguisse o curso de seu próprio rio e os braços se repartiram, cada um pro seu lado.
Separaram-se em ilhas. Ela, com seu sorriso. Ele, com os olhinhos pequenos demais para enxergar o tamanho do oceano.
Sem os braços dados, às vezes se escutam. Quando alguma ferida ameaça se abrir, Ele acena pra Ela, Ela sorri pra Ele. Se entendem muito bem - melhor ainda nos silêncios.
Cada um segue o curso de seu rio fingindo não se dar conta de tanta água. Mantêm-se secos – cúmplices amantes que não podem se amar.
No entanto, quando estão sozinhos, cada um na sua ilha, param de fingir pro mundo: gotinhas minúsculas escorrem pelos braços de ambos.
Ele com seus olhinhos. Ela com seu sorriso.
Inundados.
Incuráveis.

sexta-feira, 27 de julho de 2007

nostalgia da época em que jamais vivi

"Ocupar espaço:
espantar a caretice:
tomar o lugar:
manter o arco:
os pés no chão:
um dia depois
do outro."



Torquato Neto, coluna "Geléia Geral", Última Hora, terça-feira, 30/11/1971

segunda-feira, 16 de julho de 2007

e sim.

"Andei pensando coisas. O que é raro, dirão os irônicos. Ou "o que foi?" - perguntariam os complacentes. Para estes últimos, quem sabe, escrevo. E repito: andei pensando coisas sobre amor, essa palavra sagrada. O que mais me deteve, do que pensei, era assim: a perda do amor é igual à perda da morte. Só que dói mais. Quando morre alguém que você ama, você se dói inteiro(a)- mas a morte é inevitável, portanto normal. Quando você perde alguém que você ama, e esse amor - essa pessoa - continua vivo(a), há então uma morte anormal. O NUNCA MAIS de não ter quem se ama torna-se tão irremediável quanto não ter NUNCA MAIS quem morreu. E dói mais fundo- porque se poderia ter, já que está vivo(a). Mas não se tem, nem se terá, quando o fim do amor é: NEVER. Pensando nisso, pensei um pouco depois em Boy George: meu-amor-me-abandonou-e-sem-ele-eu-nao-vivo-então-quero-morrer--drogado. Lembrei de John Hincley Jr., apaixonado por Jodie Foster, e que escreveu a ela, em 1981: "Se você não me amar, eu matarei o presidente". E deu um tiro em Ronald Regan. A frase de Hincley é a mais significativa frase de amor do século XX. A atitude de Boy George - se não houver algo de publicitário nisso - é a mais linda atitude de amor do século XX. Penso em Werther, de Goethe. E acho lindo. No século XX não se ama. Ninguém quer ninguém. Amar é out, é babaca, é careta. Embora persistam essas estranhas fronteiras entre paixão e loucura, entre paixão e suicídio. Não compreendo como querer o outro possa tornar-se mais forte do que querer a si próprio. Não compreendo como querer o outro possa pintar como saída de nossa solidão fatal. Mentira: compreendo sim. Mesmo consciente de que nasci sozinho do útero de minha mãe, berrando de pavor para o mundo insano, e que embarcarei sozinho num caixão rumo a sei lá o quê, além do pó. O que ou quem cruzo entre esses dois portos gelados da solidão é mera viagem: véu de maya, ilusão, passatempo. E exigimos o terno do perecível, loucos. Depois, pensei também em Adèle Hugo, filha de Victor Hugo. A Adèle H. de François Truffaut, vivida por Isabelle Adjani. Adèle apaixonou-se por um homem. Ele não a queria. Ela o seguiu aos Estados Unidos, ao Caribe, escrevendo cartas jamais respondidas, rastejando por amor. Enlouqueceu mendigando a atenção dele. Certo dia, em Barbados, esbarraram na rua. Ele a olhou. Ela, louca de amor por ele, não o reconheceu. Ele havia deixado de ser ele: transformara-se em símbolo sem face nem corpo da paixão e da loucura dela. Não era mais ele: ela amava alguém que não existia mais, objetivamente. Existia somente dentro dela. Adèle morreu no hospício, escrevendo cartas (a ele: "É para você, para você que eu escrevo" - dizia Ana C.) numa língua que, até hoje, ninguém conseguiu decifrar.Andei pensando em Adèle H., em Boy George e em John Hincley Jr. Andei pensando nesses extremos da paixão, quando te amo tanto e tão além do meu ego que - se você não me ama: eu enlouqueço, eu me suicido com heroína ou eu mato o presidente. Me veio um fundo desprezo pela minha/nossa dor mediana, pela minha/nossa rejeição amorosa desempenhando papéis tipo sou-forte-seguro-essa-sou-mais-eu. Que imensa miséria o grande amor - depois do não, depois do fim - reduzir-se a duas ou três frases frias ou sarcásticas. Num bar qualquer, numa esquina da vida. Ai que dor: que dor sentida e portuguesa de Fernando Pessoa - muito mais sábio -, que nunca caiu nessas ciladas. Pois como já dizia Drummond, "o amor car(o,a,) colega esse não consola nunca de núncaras". E apesar de tudo eu penso sim, eu digo sim, eu quero Sins."

Pequenas Epifanias. Caio Fernando Abreu.

sexta-feira, 13 de julho de 2007

pierrot

os escafandristas virão explorar sua casa,
seu quarto, sua alma, desvãos





































quarta-feira, 11 de julho de 2007

ruína

“ Um monge descabelado me disse no caminho: `Eu queria construir uma ruína. Embora eu saiba que ruína é uma desconstrução. A minha idéia era de fazer alguma coisa ao jeito de tapera. Alguma coisa que servisse para abrigar o abandono, como as taperas abrigam. Porque o abandono pode não ser apenas um homem debaixo da ponte, mas pode ser também de um gato no beco ou de uma criança presa num cubículo. O abandono pode ser também uma expressão que tenha entrado para o arcaico ou mesmo de uma palavra. Uma palavra que esteja sem ninguém dentro. (O olho do monge estava perto de ser um canto). Continuou: digamos a palavra AMOR. A palavra amor está quase vazia. Não tem gente dentro dela. Queria construir uma ruína para salvar a palavra amor.Talvez ela renascesse das ruínas, como o lírio pode nascer de um monturo.´ E o monge se calou descabelado.”
caminho por manoel de barros

sábado, 30 de junho de 2007

ponto

Como numa caminhada rumo à uma avenida em que, logo a frente, vê-se o cruzamento que interrompe a rua principal, existe aquele momento específico em que avistamos o fim. Mesmo que não se tenha chegado ao ponto final de fato, é possível avistar, com temor e borboletas no peito, um dia tudo vai terminar. O final ou o cruzamento principal não aparecem de repente. Na verdade, eles vêm surgindo como a pontinha de um iceberg e trazem para cada vez mais perto os avisos prévios, os indícios, os sinais, as pistas, as intuições, mas não, não quero ver, não, prefiro fechar os olhos para enxergar claramente e enganar meu coração de que não, não, não. Prefiro acreditar que é interminável. Eterno. In finito. Forever. Não teria sido assim no instante do In ício?
Parece proibido pensar no fim quando se começa uma coisa importante e deliciosa. E é melhor que seja dessa forma, senão talvez não seja possível começar com tanta entrega. Para o mergulho, melhor assim, pensar que sempre se estará começando.
Porém, pouco a pouco, como uma vela que se apaga, como um silêncio saciado das manhãs de domingo, a pontinha do iceberg aparece. Branca. Gelada. Cruel.
Feche os olhos, mude o trajeto, pare no meio da avenida como se assim pudesse também parar os ponteiros corredores dos relógios. Por que é mesmo que as coisas boas terminam? Seríamos fracos demais para impedir tal acontecimento? Ou teríamos simplesmente desistido de tentar?
Silêncio de novo, preciso voltar a caminhar, não adianta mais mudar o trajeto, todos os caminhos dão no mesmo lugar, "todos os caminhos, nenhum caminho, muitos caminhos, nenhum caminho. Nenhum caminho", o fim é o mesmo. Ele se aproxima. E talvez seja necessário. E talvez também não importe se foi desistência ou fraqueza.
Por mais que doa lá no fundo, é preciso saber que, uma vez seguida a caminhada pela avenida, retornar ao início não é mais possível. Vamos nos aproximando, caminho rumo à desordem, ali está o cruzamento: branco, gelado, cruel, presente. Feche os olhos pra enxergar claramente: a vida começa no ponto final.

segunda-feira, 25 de junho de 2007

no instante do sorriso pleno

"Comece por quebrar os espelhos de sua casa, deixe cair os braços, olhe vagamente a parede, esqueça. Cante uma nota só, escute por dentro. Se ouvir ( mas isto acontecerá muito tempo depois ) algo como uma paisagem afundada no medo, com fogueiras entre as pedras, com silhuetas seminuas de cócoras, acho que estará bem encaminhado, e do mesmo modo de se ouvir um rio por onde descem barcos pintados de amarelo e preto, se ouvir um gosto de pão, um tato de dedos, uma sombra de cavalo.


Depois compre cadernos de solfejo e uma casaca e por favor não cante pelo nariz e deixe Schumann em paz."


Julio Cortázar, Histórias de Cronópios e Famas





sábado, 23 de junho de 2007

caia em caio

"Tarde demais, nunca esquecia. E respirava lento, medido, economizando sua quota kármica de prana ao estufar estômago-costelas-pulmões, nessa ordem. Devocional, búdico. Pois se ficara mesmo tarde demais para todas as coisas dos Viventes Inconscientes, como passara a chamar às Pessoas do Outro Lado- apenas para si mesmo, não queria parecer arrogante-, pois se ficara mesmo assim tragicamente tarde, acendia um cigarro culpado e, fodam-se, com toda a arrogância constatava: se era tarde demais, poderia também ser cedo demais, você não acha? perguntava sem fôlego para ninguém."

. . . . . . . . . . . . . . . . . .


“Veio num sonho, certa noite. Ela o amava. Ele a amava também. E ainda que essa coisa, o amor, fosse complicada demais para compreender e detalhar nas maneiras tortuosas como acontece, naquele momento em que acontecia dentro do sonho, era simples. Boa, fácil, assim era. Ela gostava de estar com ele, ele gostava de estar com ela. Isso era tudo.”
Caio Fernando Abreu.

segunda-feira, 18 de junho de 2007

e que bom se admirar


esperava de você apenas uma avenca.

ainda bem, foste mais que uma roseira.

sexta-feira, 15 de junho de 2007

ele vem chegando...

oinc

no mar do coração

já disseram assim: "ponha uma margarida na sua fossa" e isso soa um pouco levemente mórbido. no entanto, também já disseram que a mar-garida é diferente por ter uma pétala cravada no centro, como um coração. e isso é assim uma visão já bem mais bonita, de se afogar num mar- de flores que têm coração. e a vida vai à deriva dessa condução tão amarela que talvez signifique mesmo a forma de todo mundo viver tão apressado e ocupado. mas se é com o coração, tudo bem. tudo tudo bem. tudo verde. e que bom pensar que no futuro a gente não amadurece e sim, na verdade, se esverdeia. vem verde assim, de leve, de vagar, de cor. vou verde assim, furtar-te. amarela-me.

"tem coisa que é doce mas espanca"

"desculpa, digo, mas se eu não tocar você agora vou perder toda a naturalidade, não conseguirei dizer mais nada, não tenho culpa, estou apenas sentindo sem controle, não me entenda mal, não me entenda bem, é só esta vontade quase simples de estender o braço para tocar você, faz tempo demais que estamos aqui parados conversando nesta janela, já dissemos tudo que pode ser dito entre duas pessoas que estão tentando se conhecer, tenho a sensação impressão ilusão de que nos compreendemos, agora só preciso estender o braço e, com a ponta dos meus dedos, tocar você, natural que seja assim: o toque, depois da compreensão que conseguimos, e agora. (...)
Pensei em você. Eram exatamente três da tarde quando pensei em você. Sei porque sacudi a cabeça como se você fosse um tontura dentro dela e olhei o digital no meio da avenida.
(...)
Corre, corre. O número do telefone dissolvendo-se em tinta na palma da mão suada. Ah, no fim destes dias crispados de início de primavera, entre os engarrafamentos de trânsito, as pessoas enlouquecidas e a paranóia à solta pela cidade, no fim destes dias encontrar você que me sorri, que me abre os braços, que me abençoa e passa a mão na minha cara marcada, no que resta de cabelos na minha cabeça confusa, que me olha no olho e me permite mergulhar no fundo quente da curva do teu ombro. Mergulho no cheiro que não defino, você me embala dentro dos seus braços, você cobre com a boca meus ouvidos entupidos de buzinas, versos interrompidos, escapamentos abertos, tilintar de telefones, máquinas de escrever, ruídos telefônicos, britadeiras de concreto, e você me beija e você me aperta e você me leva para Creta, Mikonos, Rodes, Patmos, Delos, e você me aquieta repetindo que está tudo bem, tudo, tudo bem. O telefone toca três vezes. Isto é uma gravação deixe seu nome e telefone depois do bip que eu ligo assim que puder, ok?
(...)
Fala fala fala. Estou muito cansado. Já não identifico nenhuma palavra no que diz. Apenas me deixo embalar pelo ritmo de sua voz, dentro dessa melodia monótona angustiada perplexa repetitiva. Quase três da manhã. Não temos aonde ir, nunca tivemos aonde ir. Um nojo, vezenquando me dá um asco - nojo é culpa, nojo é moral - você se sente sórdido, baby? - eu tenho medo, não quero correr riscos - mas agora só existe um jeito e esse jeito é correr o risco - não é mais possível - vamos parar por aqui - quero acordar cedo, fazer cooper no parque, parar de beber, parar de fumar, parar de sentir - estou muito cansado - não faz assim, não diz assim - é muito pouco - não vai dar certo - anormal, eu tenho medo - medo é culpa, medo é moral - não vê que é isso que eles querem que você sinta? - medo, culpa, vergonha - eu aceito, eu me contento com pouco - eu não aceito nada nem me contento com pouco - eu quero muito, eu quero mais, eu quero tudo.
Eu quero o risco, não digo. (...)"
C.F. Anotações sobre um amor urbano

coisas que curam todos os males:

- cheiro de baunilha

- cortar o cabelo

- apostar consigo mesmo

- massagens nos pés

- ir pro rio de janeiro

- bater papo debaixo do sol

- sambar ( se que canta os males espanta, quem dança nem sabe dos males )


quinta-feira, 14 de junho de 2007

se algum dia precisar da minha vida, tome-a


"Uma estrada é deserta por dois motivos: por abandono ou por desprezo.. Esta que eu ando nela agora é por abandono..." "... Eu sinto mesmo hoje que a estrada é carente de pessoas e de bichos. Emas passavam sempre por ela esvoaçantes. Bandos de aititus a atravessavam para ver o rio do outro lado. Eu estou imaginando que a estrada pensa que eu também sou como ela: uma coisa bem esquecida. Pode ser. Nem cachorro passa mais por nós. Mas eu ensino para ela como se deve comportar na solidão. Eu falo: deixe deixe meu amor, tudo vai acabar. Numa boa: a gente vai desaparecendo igual quando Carlitos vai desaparecendo num fim de uma estrada...Deixe, deixe, meu amor."

Manoel de Barros em Memórias Inventadas

quarta-feira, 13 de junho de 2007

procura-se o ócio

foi no café da manhã o comentário materno: "você corre demais. na sua idade eu gozava mais da vida". engraçado. triste e engraçado. quando foi mesmo que todos nós nos tornamos coelhos da alice? não sei bem. teria o relógio começado a girar mais rápido do que de costume?
sem saber bem em que momento exato atravessei o espelho, virei coelho. e corro. e corro. e corro. coisas demais, pouco tempo demais. sobra pouco tempo pra pensar na vida. pra sentir o cheiro das coisas. pra olhar nos olhos de quem me conta alguma coisa surpreendente ( por falar nisso, há quanto tempo não escuto alguém me contar alguma coisa surpreendente? ). teríamos deixado de ser surpreendentes? teríamos deixado de ser gente?
o problema de se amar o que faz é achar que o trabalho pode ser sempre o seu momento de diversão. pode. mas ainda assim é trabalho. por essas e outras, a campanha do ócio. a campanha pelo nada. pelo olhar pro tempo. pelo passar o tempo. pelo fechar os olhos e sentir cheiros. e só. tudo bem que não dá pra fazer isso sempre, mas sim, a campanha pelo gozar da vida ( pelo menos nos domingos, em algumas noites...). manoeludo já disse uma vez: "se o nada acabar, a poesia acaba". chega de buscar um avalanche de coisas.
no momento, estou na busca pelo vazio.

têm coisas que começam quando terminam



e para isso nada mais do que a cabeça erguida e o coração aberto