domingo, 23 de junho de 2013

de amor e tesouras

(relendo cinemamor. texto meu, de 2009).

Cortava os cabelos todos os dias.
Não porque havia uma necessidade concreta de cortar os cabelos. Também não se tratava de um vício ou uma patologia (pobres cabelos!), nem sequer de uma obsessão. Os cabelos sempre estiveram devidamente arrumados e interessantes, mais do que deveriam.
Cortava os cabelos por causa dele.
Todos os dias acordava, lavava a cabeça, secava fio por fio com a toalha e escorria o dedo pela penugem toda, atrás de algum local que pudesse ser removido. Qualquer coisa serviria: uma imperfeição, uma ponta dupla, um cacho desfeito, uma idéia sem lugar. E assim, com a imperfeição concreta no peito, ia direto ao salão de beleza, se deparava com ele e pedia pros fios serem aparados.
Ele ria inteiro, todos os dias assim. Não se demorava, sempre pontual ele, o grande cabelereiro, e na fatia precisa do Tempo cortava o fio dissidente ou imaginário, justificando sempre a necessidade do cuidado com o couro cabeludo e assumindo a postura de um profissional legítimo.
Ela saía satisfeita e quase magoada de tão satisfeita. Passava o resto do dia preocupada com a possibilidade dos fios acordarem perfeitos no dia seguinte.
Nunca acordaram. E assim, por anos e anos, a rotina era a mesma: acordar, lavar a cabeça, secar com a toalha, escorrer o dedo pela penugem e identificar a falha. Ir até ele. Resolver o problema. Voltar pra casa satisfeita. Preocupar-se com o dia seguinte.
Cortava os cabelos todos os dias. Sabia que essa era a maior demonstração de amor possível ao longo dos tempos. Entregava a cabeça para ele e ele, por sua vez, cortava os excessos.
Tanto tempo se passou que os cabelos foram pouco a pouco se acabando. Até que um dia, o impensável: acordou careca.
Foi um momento tristíssimo da vida. O afeto havia se esgotado na sua completude. Não haviam mais cabelos, nem cabeças, nem encontros. Não haviam imperfeições. Portanto, não havia amor.
Preocupada com o futuro do seu romance resolveu adquirir perucas. Perucas francesas, persas, italianas, caríssimas. O must do must da cabelereira universal. Estilo paixão hollywood.
Logo depois das novas aquisições, resolveu retomar sua rotina. Não conseguiu. A cabeleira hollywoodiana não tinha falhas. Não se encontrou mais com ele. O maior amor do mundo havia terminado pela preocupação com excessos. Fim.
Sonha com ele todas as noites. Nos sonhos, o balançar perfeito de longos cachos dourados. Ele, com as mãos cobertas de tesouras de ouro, ri inteiro.

E ali mesmo amam-se únicos.

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(foto: mariana cabral)

domingo, 2 de junho de 2013

amor

porque eu tinha muito medo antes de te conhecer. e, antes de te conhecer, uma espécie de abismo habitava meu peito, um silêncio fundo, como parecem as patas de um cavalo a pisar firme à beira mar. e antes de te conhecer tudo se fazia sólido demais, rígido demais, vazio demais. e eu ria e ria e ria a zombar sempre do amor, como naquela música em que se canta "hoje eu tenho apenas uma pedra no meu peito", a achar graça das novelas e dos poetas e das baladas, pois tudo parecia distante, absurdo e vazio de sentido. e eis que te conheço e um sentido se faz. um não: muitos. e um entendimento forte - não este entendimento que se faz balançando a cabeça, tipo quando a gente era adolescente nas aulas de matemática - mas um entendimento que não se faz com palavras, mas com algo muito mais potente, mais profundo, mais real, mais interno, mais, mais, mais. entendi o que poderia ser o amor. e digo "poderia" porque gosto da sensação de descoberta permanente, como se o amor fosse mesmo essa coisa toda que não se fecha em um conceito e sempre se procura, mas, com absoluta certeza, quando é, se afirma. e hoje posso afirmar. e gosto mesmo de dizer hoje porque não existe presente maior do que o próprio presente. e é nele que estamos agora. vivos.
e hoje me sinto assim, como uma célula a cada dia mais viva que floresce e quer crescer. você por perto, sim. e respiro inteira, forte. o abismo virou ar. 

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às vezes tenho desejos de nuvem.