sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

frescor

da fresta da janela, frescor. é o verão invadindo o quarto e levando embora o silêncio inaugural. quanto tempo perdido? quanta lágrima? o silêncio foi rompido pela voz. a voz uníssona, o braço amigo, algum espaço novo que se abre: o mundo, de novo o mundo, sempre o mundo. querer amplitude não cabe nas mãos. 
talvez o verão que me invade ainda não saiba que ele traz na voz o meu respiro. ouço a voz e caio na gargalhada. devolveram a minha alegria.

estou sozinha diante da janela por horas a fio. vejo a imensidão refletida pelo vidro. a paisagem voa além da montanha. 

"enquanto houver vida, haverá mudança."

sábado, 24 de dezembro de 2011

pro que virá

"Uma vez mais se constrói
a aérea casa da esperança
nela reluzem alfaias
de sonho e de amor: aliança."


Carlos Drummond de Andrade

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

mas

não saber como agir.
mesmo. 
não saber como agir.
não saber o que te atinge, nem o que te afasta. 
não saber fazer silêncio. não conseguir ficar em silêncio.
gastar palavras e reduzir o que não cabe em palavras.
tentar de todo modo não te perder.
"cuidado ao nomear as coisas, você corre o risco de perdê-las."
não saber como agir.
não saber o que te leva, nem o que te traz.
ser errante, impulsiva, gasta, demodê. 
exagerar, falar demais, viver demais, gostar demais.
o coração pede paz.
não foi por falta de vontade.
tentei.
tentamos.

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

passagem

A passagem
Que me deixem passar - eis o que peço
diante da porta ou diante do caminho.
E que ninguém me siga na passagem.
Não tenho companheiros de viagem
nem quero que ninguém fique ao meu lado.
Para passar, exijo estar sozinho,
somente de mim mesmo acompanhado.
Mas caso me proíbam de passar
por eu ser diferente ou indesejado
mesmo assim eu passarei.
Inventarei a porta e o caminho
e passarei sozinho.


(Ledo Ivo)

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

.

pois haverá de existir um tempo norte construção

horizonte

daqui a pouco, já
(re) começo.
vai levar o que não deu certo
vai lavar o que virá.
nesse tardio tédio, o mar espanha
o mar explode, o mar me arranha.
o rio de janeiro continua sendo.
que venha, aurora.


mansidão

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

bem mais

Foi melhor assim
Se bem que eu nem sei
Se tudo deve ser pensado
Visto como solução

Há tempos eu perdi
Esqueci como nós nos desejávamos
Amávamos um jeito de seguir

Sim
Não foi o tempo
O que era nosso foi embora
E eu nem sei se agora
Sentimos que seremos mais

O tempo de nós dois
Agora que o amor se revelou 
Se desvelou, se permitiu não existir

Duvido que essa dor
Alcançaria toda realidade
Que esmaga essa falta de rancor

Sim
Não foi o tempo
O que era nosso foi embora
E eu nem sei se agora
Sentimos que seremos mais

Nós dois 
E a vida faz
Além do amor
Além do sim
Bem mais que o não
Bem mais
A vida faz

césar lacerda.

motriz

motriz (mo-triz)

adj.
s. f.
  Que ou aquela que faz mover, que imprime movimento motor: força motriz.

sábado, 17 de dezembro de 2011

um brinde à ela

sem precauções

chegou sem fazer alarde
sem prometer nem cumprir
o melhor remédio pra dor é deixar a dor doer
e antes que seja tarde
o peito se cura fazendo graça
fazendo música
a dor passa.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

à subsombra desumana dos linchadores

a mais triste nação
na época mais podre
compõem-se de possíveis
grupos de linchadores.


o cu do mundo. caetano veloso.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

gal e autotune

o mundo invisível de cada um

"tenho certeza de que só me mantenho viva por causa do mundo invisível onde ninguém pode me alcançar para me ferir e posso fingir que a vida faz sentido mesmo quando não faz. ali, quando os zumbis do mundo de fora me acossam com seus dedos sujos de sangue, invento a beleza e me reinvento como possibilidade. alguns olham para dentro e enxergam apenas vísceras. outros, horizonte."

eliane brum

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

pela opressão dos fatos

devo olhar pro céu e então traçar novos rumos. devo transformar. a paisagem ao invés de desfilar desaba sem dó sobre a cama. devo cantarolar em silêncio imaginando a sinfonia dos passarinhos e agradecer o fato deles poderem voar. acendo um cigarro. deixo a cama. e penso. penso sem medida sobre o que haveria de ser e não foi, sobre a terrível opressão dos fatos que apenas revelam a imensa mesquinhez humana. perco o fôlego. volto a pensar. enquanto houver mundo, haverá abuso e haverá poder e haverá desmedida e haverá crueldade e haverá podridão. enquanto houver mundo, haverá mudança e haverá respiro e haverá desejo e haverá seta e haverá luz. e o que é justo ganha corpo hoje ou daqui há mil anos, mas as palavras não se calarão. até na virada da noite, não se calarão. e a cada novo esquecimento, não se calarão. e, diante do espelho, não se calarão. e sempre que precisarem de eco, não se calarão. enquanto houver vida, haverá voz.
tudo dói. tudo é singular. tudo é subitamente violento. mas cada rio sabe o tamanho do seu curso. basta ver. 

é

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

coisas sagradas permanecem

e eis que era um peixe dourado. pequenino, os olhos fulminantes delicados. um peixe pequenino, dourado, frágil, guardado nas minhas mãos que chegaram da rua pra casa. soube acolher o peixe. soube dar-lhe vida. trouxe pra dentro de casa, era noite, o peixe cabia na ponta dos meus dedos. coloquei ele em um pote d´água. cobri o pote de água limpa e ele escapuliu. entrou pelo cano do tanque. consegui puxar a barbatana que sobrava do lado de fora do cano. coloquei ele de novo no pote. eu estava a procura de um aquário, um lugar ideal pro peixe. não conseguia encontrar. tentei fazer do pote a sua casa. coloquei comida. os olhos do peixe eram sempre fulminantes, vivos. eu sabia da importância do peixe. eu sabia que um peixe dourado não se encontra todo dia. voltei a procurar um aquário. encontrei na sala de casa. soube acolher o peixe. coloquei ele dentro do aquário, tentei dizer-lhe baixinho "pois cresça doce, essa é sua casa." e eis que o peixe começou a crescer. começou a crescer desesperadamente, numa rapidez impressionante. o peixe crescia, engordava, crescia e eis que o aquário ia ficando muito pequeno. o peixe transbordava do aquário e ia deixando de ser dourado. a textura delicada se transformava num couro forte, pardo, grosseiro. o peixe estava se tornando peixe-boi. a nova criatura era pesada demais, grande demais e ao olhá-la eu sentia medo. sentia medo porque aquilo era pesado demais pra guardar dentro de casa. pensei que não poderia ter um peixe boi no meu apartamento. não seria adequado ou o fato é que simplesmente eu não conseguiria sustentar. olhava pro novo animal com compaixão. sentia pena dele. não queria abandoná-lo no meio da rua. apesar de ser feio, ele parecia dócil. mas era isso e era simples: eu não poderia ficar com ele. com um pouco de força consegui puxar a criatura pela cabeça. metade do corpo já se encontrava fora do aquário, a outra metade soube sair sem demora. peguei nas costas do peixe-boi e fui empurrando-o pela sala. abri a porta. ele não descia. entendi que era difícil para ele partir. resolvi ter paciência. resolvi ajudá-lo. e eis que fui empurrando o peixe-boi pelas escadas do prédio. às vezes ele me olhava com um olhar de piedade, como quem pede pra ficar. eu sentia mesmo que ele me olhava como se dissesse que poderia ser delicado e poderia até mesmo tentar ser dourado e aí eu tive pena do peixe boi. mas sustentei. não é que não gostasse dele, mas simplesmente não seria capaz de tê-lo perto de mim. às vezes o próprio limite não está no desgosto. e eu precisava aprender a perder. o peixe boi chegou no último degrau da escada. dei-lhe um abraço rápido, como quem despede de um amigo que está atrasado. ele deu o último olhar de piedade e eu virei de costas. respirei fundo. deixei a compaixão de lado. coisas sagradas permanecem. subi as escadas devagar, passo a passo. olhei pra cima. tive vontade de chorar, mas não chorei.

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

.

da importância das coisas

"que a importância de uma coisa não se mede com fita métrica nem com balança nem barômetros etc.
que a importância de uma coisa há que ser medida pelo encantamento que a coisa produza em nós."

manoel de barros.

domingo, 4 de dezembro de 2011

nove passos na escuridão (2005)

"deixo, em cima da mesa, um caderno em branco onde possas guardar,
sempre que queiras, coisas da ordem do incomunicável ao próximo.
depois da morte, voltaremos ambos a estas páginas.
e procuraremos renascer no apagar das palavras.

o prédio está em silêncio, no seu repouso
erigido à beira da estrada.
sou capaz de imaginar alguma brisa,
folhas de arbustos a correr assustadas.
no quarto ao lado, tu, adormecida e ausente,
em sonhos. levanto-me e apalpo
o trajecto reconhecido, a luz apagada.

na cozinha, sento-me perto da janela.
o frigorífico remexe-se, eléctrico e molhado.
não sei o que espero, quero ler na escuridão
das casas vizinhas muitas outras sombras sentadas.
o prédio como hospício de pessoas perdidas.
reconheço a cidade por um avião que passa,
ao alto. só nos perdemos assim, silenciosos.
de dia, ninguém ouve os aviões.

podia fechar os olhos, um escuro mais escuro,
a fingir-se tela de imaginações. ouviria um rio.
o frigorífico. pressinto a electricidade, no silêncio
impossível desta casa. penso em nomes,
Miguel, Pedro, Sérgio, Alexandre. penso em movimentos,
ataque, defesa, lateralização. cinco da manhã
de uma noite por existir, não pode haver distracção.

para voltar ao meu colchão, passo pela porta do quarto
onde dormes. sim, estás lá. procuro, no monte de roupa suja
que deixei na sala, as peças suficientes para sair à rua.
para não me denunciar, a escuridão. paro junto à porta,
afinal irrompe a respiração na ausência de sons.

a casa, de noite, é uma sinfonia.
nunca estamos sós, apagados.
sempre alguém, algo,
para nos dizer que existimos.

encontro as peças de roupa.
não faço malas, não sei se me apetece voltar.
a carteira, os pensamentos de que não me consigo separar.
mantenho as chaves do lado de dentro da porta.
não faço barulhos.

olho o poema, não me entendo na decisão do seu início.
talvez o poema não comece exactamente na primeira palavra.
talvez devêssemos virar tudo isto ao contrário.

deixo, em cima da mesa, um caderno em branco,
o meu recado. vais fingir que eu nunca existi
e eu não vou voltar a procurar como dizer
coisas que me doem. depois da morte,
talvez."

Luis Filipe Cristóvao

quatro de dezembro

salve oyá!

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011