quarta-feira, 30 de novembro de 2011

drummond

"Trocaica te amei, com ternura dáctila 
e gesto espondeu.
Teus iambos aos meus com força entrelacei. 
Em dia alcmânico, o instinto ropálico 
rompeu, leonino,
a porta pentâmetra.
Gemido trilongo entre breves murmúrios. 
E que mais, e que mais, no crepúsculo ecóico, 
senão a quebrada lembrança 
de latina, de grega, inumerável delícia?"



a paixão medida, carlos drummond de andrade.

recanto

O álcool só me faz chorar
Convidam-me a mudar o mundo
É fácil: nem tem que pensar
Nem ver o fundo



recanto escuro, caetano veloso, do novo disco da gal costa.

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

.

o oposto do osso

"Eu vejo você
E o seu olhar é o que me leva
Pra bem perto do coração
Acelerado
Veja bem
O que eu não posso querer
Pra ter você
É tão clichê
Se não dá
Tudo pára
Não dá
Vamos viver de chamego
Eu vejo você
E o meu olhar é o que te leva
Pra onde não há confusão
Só a certeza
De sermos feitos assim
Tortos, rotos
Mas ai de você sem mim
Eu quero o oposto do osso
Glorioso
Eu quero o oposto do osso
Glorioso
Veja bem
Merece quem luta pra ter
E não se acanha em errar
Pois o que é de gosto
Isso é regalo da vida
Eu quero o oposto do osso
Glorioso
Eu quero o oposto do osso
Glorioso."

bárbara eugênia. o oposto do osso.

ausência

o que dói são as arestas
não há entorno
nem abismo
só o silêncio
inaugural

sábado, 26 de novembro de 2011

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

~~~~~~

a-mar é verbo pra se conjugar em liberdade, que nem o oceano.

caixa de guardar o que (não) se acaba

entre nós tentei construir a leveza. aos poucos compreendi que a leveza não pode ser construída. leveza é consequência. ainda assim, não classificaria nossa estória como pesada. aliás, gostaria de não classificar a nossa estória. 
jamais compreendi o amor com a devida importância. tenho dúvidas se sei o que é isso. acho que todo mundo tem. mas algo além do amor faz você persistir - diariamente. você persiste e vejo que não escolho, só desejo. e o desejo é uma tal coisa sem forma e sem tamanho, que chega e vai sem pedir permissão. desejo que é desejo existe desde os tempos imemoriais. eu tive um plano lírico pra nós, agora os abandono. abandonar os planos não é abandonar o desejo. é apenas deixar o rio correr. ou o risco.

instruções para olhar o mar

tire os sapatos quando chegar na areia. afunde os pés. feche os olhos. respire três vezes de forma intensa e tente não pensar em nada. é claro que você vai pensar em alguma coisa. eleja um pensamento essencial, aquele que você não consegue afastar da cabeça há dias. comece a caminhar, lentamente, trazendo o pensamento essencial junto de si. se o pensamento se esvair ao longo dos passos, é porque não era tão essencial assim. neste caso, alegre-se com o fato de você conseguir olhar para o mar sem pensar. comemore essa liberdade. aproxime-se da beira do oceano, deixe que a água molhe a pontinha dos pés. dê tempo pra isso, o tempo que julgar necessário. abra os olhos com leveza. respire três vezes - de forma curta. largue o pensamento ali. se tiver vontade, abra os braços. se achar excessivo para o momento, apenas mergulhe.

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

pés

O tempo voa pra tão longe
Sem despeito, sem alcance
Sem limite
Tudo é breve

Nossa vida
aonde foi minha memória
Foi-se um rio de janeiro
Num despejo
Simultâneo

O que nos resta nesse instante
Seus olhos foram para aonde
Que não vejo
Nem me vejo

Aos poucos caminham os pés
Meus pés que sem você
Não sabem onde ir
Não sei o que sentir
Nem sei quem você é
Como posso enxergar o fim?
Um dia vai passar a dor
De crer em um amor
Que alguém me prometeu
Aos pés
Meus

Meu peito afoga-se em silêncio
Corro riscos lentamente
E não minto
Nem pretendo

Nossa estória onde foi a mancada
Quando foi que nos perdemos?
No presente?
Na lembrança?

O corpo cansa de tanta demora
Se eu não posso perder tempo
O que espero?
Ou te espero?

Aos poucos caminham os pés
Meus pés que sem você
Não sabem onde ir
Não sei o que sentir
Nem sei quem você é
Como posso aceitar o fim?
Um dia vai passar a dor
De crer em um amor
Que alguém me prometeu
Aos pés
Teus

letra ainda sem música

domingo, 20 de novembro de 2011

amor

"Arrumei os amores, é a primeira regra da vida – saber arquivá-los, entendê-los, contá-los, esquecê-los. Mas ninguém nos diz como se sobrevive ao murchar de um sentimento que não murcha. A amizade só se perde por traição – como a pátria. Num campo de batalha, num terreno de operações. Não há explicações para o desaparecimento do desejo, última e única lição do mais extraordinário amor. Mas quando o amor nasce protegido da erosão do corpo, apenas perfume, contorno, coreografado em redor dos arco-íris dessa animada esperança a que chamamos alma – porque se esfuma? Como é que, de um dia para o outro, a tua voz deixou de me procurar, e eu deixei que a minha vida dispensasse o espelho da tua?"

inês pedrosa

.

o beijo


"Primeiro vêm perguntas, do tipo, como vão as coisas, ou em que pé estão os preparativos para o fim de ano. Depois vêm outras. O cabelo continua o mesmo. Faz quanto tempo que você não o corta. Tudo com interrogação no final. E o Japão, ainda te fascina. As palavras, a multiplicidade. Ontem eu me lembrei de uma frase sua que eu não vou esquecer nunca. Eu sinto que nunca nasci. Pois eu sinto que já morri. É a mesma coisa? Belo Horizonte e eu ultimamente: bebo muita água. Acabei de encher duas garrafas e ambas já me miram esvaziadas. Jogo futebol toda segunda-feira. Não sou craque, mas meto gol, e na terça eu nem ando direito. Depois de passar por Bukowski e o grande herói Henry Chinaski, João do Rio, Machado e outros, me meti numa bela enrascada de 500 e tantas páginas, chamada Cisnes Selvagens. A China é um belo exercício de alteridade. Quase não vejo televisão, e tampouco filmes, mas, recentemente, assisti a um filme devagar quase parando, Um Doce Olhar. Que belo. Não ando muito para artista ultimamente. Não me interesso. Mas comprei dez estatuetas de formiga para presentear meus queridos no Natal. Se você estivesse por aqui, certamente levaria para casa um belo inseto enferrujado de aço forjado. Ano passado eu só presenteei as mulheres. Este ano é dos homens [mas eu abriria uma exceção pra ti]. E eu adoro formigas. Também gosto de ratos e porcos porque recentemente descobri coisas inacreditáveis sobre eles. Os porcos têm pensamento simbólico. Os ratos têm linguagem tão complexa quanto a nossa. Mas eu fico bem humano, admirando com meus olhos de estrangeiro as obras de deus. Não espero nada de 2011. Só sei que de vez em quando vai chover. Lá fora e aqui dentro. Bom, aí vai meu coração. Um beijo."

o beijo, renato jacques. 
eumeiodofim.wordpress.com

sábado, 19 de novembro de 2011

que o corpo seja uma realidade pela qual se atravessa

uns queridos vão estrear na próxima semana. é o grupo "terceira dança", coordenado por marcelle louzada, com o espetáculo "em processo". tive o prazer de assistí-los no início do ano e de fazer uma ação com eles em 2010, junto com o coletivo de intervenção urbana que trabalho, o "paisagens poéticas: o nome disso é rua." 
ver o "terceira dança" em cena me emociona e me toca, porque mostra que o corpo não tem limite e que o que parece limitação pode se tornar potência. e isso se revela como a maior (ou mais bela) possibilidade de vida. vida deles, vida nossa.


Ficha técnica

Coordenação geral: Marcelle Louzada
Criação coreográfica: coletiva
Preparação corporal: Karina Collaço
Produção: Paloma Parentoni
Iluminação: Jésus Lataliza/Bruno Santana
Cenografia: Ana Gastelois
Figurino: Rosângela Oliveira
Trilha sonora: Philippe Lobo e Wilson Souza
Arte Gráfica/Identidade  Visual : Alexandre de Sena/picumãh e Cadu Braga
Bailarinos: Conceição, Geralda, José, Luci, Madalena, Maria de Lourdes, Noé, Rosália, Sandra, Tereza e Zilma

contato: 

Marcelle Louzada (coordenação geral): 9619-0099
Paloma Parentoni (produção executiva): 8877-0412
terceiradanca.blogspot.com

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

nine out of ten

"nine out of ten movie stars
make me cry
i´m alive"

.

um galope arrasou meu coração
antes que fosse noite
não preparei
o corpo
nem mesmo o rosto
a tarde inteira se refaz
tentando fazer passar
o que só o tempo é capaz

.

FORTALEZA
FORTALEÇA

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

a chuva cai

A chuva cai lá fora
Você vai se molhar
Já lhe pedi, não vai embora
Espere o tempo melhorar
Até a própria natureza
Está pedindo pra você ficar

Atenda o apelo desse alguém
que lhe adora
espere um pouco
não vá agora

você  ficando vai fazer feliz um coração
que está cansado de sofrer desilusão

espero que a natureza
faça você mudar de opinião

a chuva cai - velha guarda da portela

!

"quanto mais amo, mais calo"

terça-feira, 15 de novembro de 2011

rompe.

é preciso pôr um ponto final
até quando não se deseja
é preciso dizer adeus
até quando não é a hora
é preciso matar
é preciso morrer
pra que venha algo novo
algum vestígio
alguma sombra
da janela do carro
imundo
vê-se o mundo:
grande.

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

.

meu amor por você
te deixa 
ser
quem você quiser

rumo

e talvez compreender que esta passarela tão estreita deve ser atravessada sozinho, como quem atravessa um coração ou uma vida inteira. e ter a certeza de que um dia, sim, alguém segurará sua mão outra vez.

sábado, 12 de novembro de 2011

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

água

"Há mulheres que querem que o seu homem seja o Sol. O meu quero-o nuvem. Há mulheres que falam na voz do seu homem. O meu que seja calado e eu, nele, guarde meus silêncios. Para ser a minha voz quando Deus me pedir contas.
No resto, que tenha medo e me deixe ser mulher, mesmo que nem sempre sua. Que ele seja homem em breves doses. Que exista em marés, no simples ciclo das águas e dos ventos. E, vez em quando, seja mulher, tanto quanto eu. As suas mãos as quero firmes quando me despir. Mas ainda mais quero que ele me saiba vestir. Como se eu mesma me vestisse e ele fosse a mão da minha vaidade.
Há muito tempo, me casei, também eu. Dispensei uma vida com esse alguém. Até que ele foi. Quando me deixou já não me deixou a mim. Que eu já era outra, habilitada a ser ninguém. Às vezes, contudo, ainda me adoece uma saudade desse homem. Lembro do tempo em que me encantei, tudo era um princípio. Eu era nova, dezanovinha.
Quando ele me dirigiu palavra, nesse primeiríssimo dia, dei conta que, até então, nunca eu tinha falado com ninguém. O que havia feito era comerciar palavra, em negoceio de sentimento. Falar é outra coisa, é essa ponte sagrada em que ficamos pendentes, suspensos sobre o abismo. Falar é outra coisa, vos digo. Dessa vez, com esse homem, na palavra, eu me divinizei. Como perfume em que perdesse minha própria aparência. Me solvia na fala, insubstanciada.
Lembro desse encontro, dessa primogénita primeira-vez. Como se aquele momento fosse, afinal, toda minha vida. Aconteceu aqui, neste mesmo pátio em que agora o espero. Era uma tarde boa para a gente existir. O mundo cheirava a casa. O ar por ali parava. A brisa sem voar, quase nidificava. Vez e voz, os olhos e os olhares. Ele, em minha frente, todo chegado como se a sua única viagem tivesse sido para a minha vida.
No entanto, aparentava distância. O fumo escapava entre os seus dedos. Não levava o cigarro à boca. Em seu parado gesto, o tabaco a si se consumia. Ele gostava assim: a inteira cinza tombando intacta no chão. Pois eu tombei igualzinha àquela cinza. Desabei inteira sob o corpo dele. Depois, me desfiz em poeira, toda estrelada no chão. As mãos dele: o vento espalhando cinzas. Eu.
Nesse mesmo pátio em que se estreava me coração tudo iria, afinal, acabar. Porque ele anunciou tudo nesse poente. Que a paixão dele desbrilhara. Sem mais nada, nem outra mulher havendo Só isso: a murchidão do que, antes, florescia. Eu insisti, louca de tristeza. Não havia mesmo outra mulher? Não havia. O único intruso era o tempo, que nossa rotina deixara crescer e pesar. Ele se chegou me beijou a testa. Como se faz a um filho, um beijo longe da boca. Meu peito era um rio lavado, escoado no estuário do choro.
Era essa tarde, já descaída em escuro. Ressalvo. Diz-se que a tarde cai. Diz-se que a noite também cai. Mas eu encontro o contrário: a manhã é que cai. por um cansaço de luz, um suicídio da sombra. Lhe explico. São três os bichos que o tempo tem: manhã, tarde e noite. A noite é quem tem asas. Mas são asas de avestruz. Porque a noite as usa fechadas, ao serviço de nada. A tarde é a felina criatura. Espreguiçando, mandriosa, inventadora de sombras. A manhã, essa, é um caracol, em adolescente espiral. Sobe pelos muros, desenrodilha-se vagarosa. E tomba, no desamparo do meio-dia.
Deixem-me agora evocar, aos goles de lembrança. Enquanto espero que ele volte, de novo, a este pátio. Recordar tudo, de uma só vez, me dá sofrimento. Por isso, vou lembrando aos poucos. Me debruço na varanda e a altura me tonteia. Quase vou na vertigem. Sabem o que descobri? Que minha alma é feita de água. Não posso me debruçar tanto. Senão me entorno e ainda morro vazia, sem gota.
Porque eu não sou por mim. Existo reflectida, ardível em paixão. Como a lua: o que brilho é por luz de outro. A luz desse amante, luz dançando na água. Mesmo que surja assim, agora, distante e fria. Cinza de um cigarro nunca fumado.
Pedi-lhe que viesse uma vez mais. Para que, de novo, se despeça de mim. E passados os anos, tantos que já nem cabem na lembrança, eu ainda choro como se fosse a primeira despedida. Porque esse adeus, só esse aceno é meu, todo inteiramente meu. Um adeus à medida de meu amor.
Assim, ele virá para renovar despedidas. Quando a lágrima escorrer no meu rosto eu a sorverei, como quem bebe o tempo. Essa água é, agora, meu único alimento. Meu último alento. Já não tenho mais desse amor que a sua própria conclusão. Como quem tem um corpo apenas pela ferida de o perder. Por isso, refaço a despedida. Seja esse o modo de o meu amor se fazer eternamente nosso.
Toda a vida acreditei: amor é os dois se duplicarem em um. Mas hoje sinto: ser um é ainda muito. De mais. Ambiciono, sim, ser o múltiplo de nada, Ninguém no plural.
Ninguéns."

a despedideira - mia couto

barco

meu porto a vela
naufraga devagar
pra meu corpo 
seguro navegar

arnaldo antunes

terça-feira, 8 de novembro de 2011


!

"Eu quis tanto ser a tua paz, quis tanto que você fosse o meu encontro. Quis tanto dar, tanto receber. Quis precisar, sem exigências. E sem solicitações, aceitar o que me era dado. Sem ir além, compreende? Não queria pedir mais do que você tinha, assim como eu não daria mais do que dispunha, por limitação humana. Mas o que tinha, era seu."

c.f.a

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

domingo, 6 de novembro de 2011

)(

diário do último ano

Para mim? Para ti? Para ninguém. Quero atirar para aqui, negligentemente, sem pretensões de estilo, sem análises filosóficas, o que os ouvidos dos outros não recolhem: reflexões, impressões, ideias, maneiras de ver, de sentir - todo o meu espírito paradoxal, talvez frívolo, talvez profundo.

Foram-se, há muito, os vinte anos, a época das análises, das complicadas dissecações interiores. Compreendi por fim que nada compreendi, que mesmo nada poderia ter compreendido de mim. Restam-me os outros... talvez por eles possa chegar às infinitas possibilidades do meu ser misterioso, intangível, seco.

Nas horas que se desagregam, que desfio entre os meus dedos parados, sou a que sabe sempre que horas são, que dia é, o que faz hoje, amanhã, depois. Não sinto deslizar o tempo através de mim, sou eu que deslizo através dele e sinto-me passar com a consciência nítida dos minutos que passam e dos que vão se seguir. Como compreender a amargura dessa amargura Onde paras tu, ó Imprevisto, que vestes de cor-de-rosa tantas vidas.

Não tenho nenhum intuito especial ao escrever essas linhas, não viso nenhum objectivo, não tenho em vista nenhum fim. Quando morrer, é possível que alguém, ao ler estes descosidos monólogos, leia o que sente sem o saber dizer, que essa coisa tão rara neste mundo - uma alma - se debruce com um pouco de piedade, um pouco de compreensão, em silêncio, sobre o que eu fui ou o que julguei ser. E realize o que eu não pude: conhecer-me.

FLORBELA ESPANCA. DIÁRIO DO ÚLTIMO ANO.

ar

lamento ter retirado um pouco do seu ar. as pessoas morrem por falta ou excesso de oxigênio. o cálculo é impreciso, difuso, não mensurável. não se sabe nunca qual quantidade será capaz de matar.
lamento ter doado um pouco do meu ar. as pessoas se envolvem não porque querem preencher o outro de oxigênio, mas porque precisam esvaziar o peito. é sempre por si, mesmo se o coração é generoso.
lamento ter dificultado a nossa capacidade de respirar. o ar deveria ser mais democrático, calculado nas devidas proporções. mas a lógica não é essa. é por sentir falta ou por ter muito oxigênio que as relações se dão. pelos pulmões.

sábado, 5 de novembro de 2011

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

fluxo de afeto

pra você caberiam todas as vãs filosofias, as páginas gastas de um livro esquecido na estante do armário marrom, os jantares que não tivemos e ficaram na promessa. 
eu não sou mesmo boa em declarações de amor. falta em mim qualquer capacidade mais lenta de deixar o rio correr. é o urgir do instante que corrói, o medo de perder, alguma imagem familiar, um quadro antigo. talvez seja o medo da morte ou de qualquer coisa que se assemelhe. parece que estamos sempre caminhando pra lá. não sei aonde foram parar seus olhos, mas guardo os dois no peito como frame de uma fotografia. velha. previsível.
congelei seu sorriso na saudade. estive perto mesmo quando estive longe. outros vieram mas foi em vão, vieram e foram como se não tivessem jamais existido. não tem cabido mais emoção nos meus dias, nem ninguém. é você quem ocupa a paisagem de frente da janela. abri as portas e também o corredor de frente da varanda e também a cozinha e a mesa de centro e deixei que entrasse sem fazer perguntas. não esperava tanto mar e é engraçado que tenhamos chegado até aqui. meus passos se movem adiante além muito a frente do infinito e quando esperam sozinhos procuram os seus - pés. 
pra você caberia o silêncio se ele conseguisse ser tão denso quanto a minha vontade de te existir. na ausência de silêncio, façamos música. e deixemos que ela habite o nosso quarto escuro, trazendo mais vida pra dentro de casa.