domingo, 25 de abril de 2010

segunda-feira, 19 de abril de 2010

linha cruzada

Ele telefonou na quarta feira que não era de cinzas. Ela atendeu. Ele falou dramático. Ela riu. A dor já havia passado. Agora eram novos tempos. Ele falava de trabalho. Ela sabia que ele não queria falar só de trabalho. Ela escutou e fingiu que também só falaria de trabalho. Ela foi irônica. Ele assustou. Ela foi até a cartomante. Ele disse que ia ligar de novo mais tarde. Ele não ligou. Ela já sabia que ele não ia ligar mais tarde. Ela estava ficando esperta. A cartomante falou com ela que ela tinha que se cuidar. Ela sabia que era verdade mas achou que a cartomante exagerou. Ela não gostou da cartomante. Ela pensou nele. Ela não sentiu saudades dele. Ela pensou então em outro. Ela agora gostava mais desse outro do que do primeiro. Esse outro não telefonou pra ela. Ela queria muito telefonar pra ele. Ela se conteve. Ela escutou bem a cartomante a analista a mãe e a melhor amiga. Todas elas falaram pra ela que ela tinha que se conter. Ela obedeceu um pouco. Esse outro disse da última vez que encontrou com ela que ele estava mal. Ela não entendeu muito. Ela respeitou ele. Ela deixou passar uns dias e ela falou com esse outro no telefone. Ele disse que talvez ia ligar de novo mais tarde. Ele também não ligou. Ela também já sabia que ele não ia ligar mais tarde. Ela sentiu preguiça. Ela foi encontrar com o melhor amigo dela no parque. Ela contou as coisas pra ele. Ele riu. Ele contou outras coisas pra ela. Ela riu. Ela ficou muito feliz de ter aquele amigo que era ele. Ele também ficou bem feliz de ter aquela amiga que era ela. Ele achou que a estória dela podia virar poesia. Ela achou graça. Eles foram ouvir uma boa música. Ela dançou. O telefone não tocou mais naqueles dias. Ela achou melhor. Ela estava cansada de linha cruzada.

terça-feira, 13 de abril de 2010

como diria hilda


Reivindico aos senhores homens do nosso tempo: a alma. A alma de volta.

domingo, 11 de abril de 2010

sobre o teatro e seu trabalho silencioso

Há quem acredite que o teatro tem a ver com a mentira. Eu quero acreditar em um teatro que tenha a ver com a verdade. À representação digo: não. Desejo ser.

[ "Sinto-me livre para fracassar" - Hilda Hilst. ]

roubei da andorinha


[ofereço-te meu ombro]

do livro de receitas

|Que seja doce|

|Que seja leve|

|Que seja mútuo|


domingo, 4 de abril de 2010

trecho de fulgor

"Coisas em que não se pode confiar:

- No homem que esquece facilmente seus amores
- No poeta ávido por sucesso
- Nas pessoas que falam muito alto, tentando nos convencer
- Na amiga que quer ser exatamente como a outra
- No jogo, quando ganhamos facilmente, a primeira partida
- No barco com a vela içada, quando o vento sopra"

e em alguns silêncios.

Otto entenderia

Há sempre um lado que pesa e um outro lado que flutua. Tua pele é crua.
Dificilmente se arranca lembrança, lembrança, lembrança, lembrança...
Por isso da primeira vez dói, por isso não se esqueça: dói.
E ter que acreditar num caso sério e na melancolia que dizia

Mas naquela noite que eu chamei você fodia.
Fodia.
Mas naquela noite que eu chamei você fodia de noite e de dia.

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(Porque às vezes são necessárias palavras de baixo calão. Porque certa noite acordei de sonhos intranquilos e, meu Deus, não era sonho, meu Deus, não era pesadelo, meu Deus do céu, era tudo verdade.)

sábado, 3 de abril de 2010

você deveria vir mais vezes


"Quem acha doce a terra natal ainda é um tenro principiante;

aquele para quem toda terra é natal já é forte;

mas é perfeito aquele para quem o mundo inteiro é um lugar estrangeiro.

A alma tenra fixou seu amor num único ponto do mundo;

a pessoa forte estendeu seu amor a todos os lugares;

o homem perfeito extinguiu o seu."

hugo de st. victor, monge saxão do século XII, citado por edward said (já sabiam das coisas).