quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

como uma linha

se eu te esperasse há apenas 365 dias seria mais fácil mentir. as palavras não sufocariam o peito, os cabelos, a ponta das unhas, o meu silêncio. se eu te esperasse há apenas quatro estações, há alguns dias de sol, outros de chuva, se eu te esperasse com toda a calma de uma mãe que espera um filho, como quem aguarda o inadiável, se eu te esperasse sem retorcer as linhas vermelhas de toda penélope que espera seu ulisses aí, sim, eu chegaria na verdadeira raiz desse ecossistema, na simplicidade, na paz de espírito que jamais habitou meu coração ansioso, meu coração terrivelmente ariano. talvez se eu conseguisse ouvir o teor da espera e compreendesse diferente, talvez se eu não te esperasse desde os tempos imemoriais, desde a linha evolutiva dessa família que desde sempre espera, que desde sempre parte, que desde sempre abandona e retorna, se eu não te esperasse há tantos séculos, há tantas lágrimas, há tantos desejos, há tantas vozes, talvez eu eu tivesse mais calma, talvez um pouco mais de serenidade. mas é preciso que se saiba que te espero há mais tempo que um corpo pode sentir. te espero como quem carrega um continente inteiro, como quem habita um deserto e tem os lábios secos, os olhos duros, os sonhos que navegam em alto mar. te espero na vertigem mais profunda do poema, na lembrança de um vazio, na saudade de um lugar inabitável. te espero no nada, e do nada essa espera me refaz. te espero como a maré.

quarta-feira, 19 de novembro de 2014

saturno


do agora. do sempre.

"o que eu quero é muito mais áspero e difícil: eu quero o terreno"

(Clarice Lispector)

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

alço voos


elos

esta estrutura complexa chamada família. esta linhagem energética. este estado puro. este nunca mais algo diferente acontecerá. este sempre tudo diferente acontecerá. este peito vazio, este peito cheio. este desejo de todas as coisas. este rompimento, este elo. este movimento circular. esta ancestralidade, esta voz. este ensaio sobre o fracasso. sobre o sucesso. sobre a falta. esta desestrutura que move. este percurso que se faz com os próprios pés. este sonho, este além. este eterno recomeço. esta partícula viva. este grão.

domingo, 5 de outubro de 2014

sempre manoel, trazendo luz. a vida precisa de mais vida.

"a maior riqueza do homem
é a sua incompletude.
nesse ponto sou abastado.
palavras que me aceitam como
sou - eu não aceito.
não agüento ser apenas um
sujeito que abre
portas, que puxa válvulas,
que olha o relógio, que
compra pão às 6 horas da tarde,
que vai lá fora,
que aponta lápis,
que vê a uva etc. etc.
perdoai
mas eu preciso ser Outros.
eu penso renovar o homem
usando borboletas."

domingo, 21 de setembro de 2014

=

amar é soltar as rédeas do cavalo.
me sinto solta.
me sinto sua.

domingo, 24 de agosto de 2014

por um fio

sempre que penso na vida - por um fio - penso na vida - por um fio.
a vida, concreto que vibra, que move, se descolore, nos surpreende, nos devora.
a vida, cheia. a vida, vazia. sempre por um fio, sempre por uma fresta.
a gente, tão frágil. 
a gente, apenas um corpo.
a gente, apenas uma matéria fina.
a vida, sempre esse espaço sem começo nem fim.
a vida - por um fio - que carregamos cuidadosamente.
em silêncio, em sussurro, na ponta dos dedos.

quarta-feira, 20 de agosto de 2014

domingo, 17 de agosto de 2014

nosso céu


(sussurros na madrugada de um domingo)

posso sentir os pés leves novamente.
tudo parece vibrar.
há um novo gosto em todo sabor de todas as coisas.
mas sei: o gosto é o mesmo que já senti uma vez.
o amor.
o amor.
o amor.
essa eterna pergunta, essa eterna resposta.
você de volta.
pouco a pouco, eu sei, posso sentir.
há um novo abraço a ser dado na hora exata de um não-lugar.
há um novo encontro a ser realizado, maior mesmo do que possamos ver.
você de volta.
eu aqui, outra.
você ali, outro.
nós dois, outros.
outro mundo, outra cartografia.
habitaremos o desejo, habitaremos.
nossa música nunca mais será a mesma.
tampouco nosso desejo.
te amo desde os tempo imemoriais.
antes mesmo que você pudesse perceber.
antes mesmo que o meu silêncio se manifestasse em gesto.
eu tenho um plano lírico pra nós.
ainda que planos sejam feitos pra serem desfeitos no dia seguinte.
habitamos o tempo presente, habitamos.
construímos nossos passos com a lentidão necessária pra perceber.
ainda assim, caminhamos.
você de volta.
eu de volta.
a casa sua.
a casa é nossa.

quinta-feira, 31 de julho de 2014

madrugada

já em casa, me sento, respiro, há uma pulsação forte que não me deixa dormir. deveria tomar um chá, faço um café. assim, pouco a pouco, no embalo da música das minhas células, fica mais difícil pegar no sono. eu deveria tentar, mas há uma vida imensa me chamando aqui dentro e essa vida quase não tem nome quase não tem cheiro quase não tem forma. apenas vivo e isso é uma alegria mansa. me lembro de clarice, talvez fosse a hora de reler "água viva", esse livro que me faz sonhar e crer numa vida que seja sempre sonho. errei muitas vezes por sempre sonhar demais, mas sei que o tamanho das coisas é maior. as coisas são maiores. maiores. as pessoas deveriam saber. 
tomo um café, lentamente, pego um papel, acho que vou começar a escrever. não: acho que vou ensaiar uma melodia. alguma coisa forte que me guie. as melhores memórias vêm à cavalo e elas cavalgam em meu corpo como explosões de desejo. sou fluxo em velocidade alta, devaneio em carne viva, sopro de melodia. sou um instante inaugural.
a casa está vazia, não há ninguém. há minha respiração, minha mente que corre como quem desbrava um campo inteiro. há plantas, há água. há espaço para o delírio, para a falta de jeito. há espaço para o fracasso, que é sempre um caminho. o fracasso é sempre um caminho.
sinto saudades de tudo. consigo sentir que meu peito persegue por algo que ainda não vejo. sei que virá uma primavera ainda maior que meus poros possam sentir. sei que o amor está em tudo que faço e farei. e isso não é nenhum clichê, embora pareça. todo mundo fala sobre o amor e sobre as coisas que as pessoas fazem para amar e pra se sentirem amadas, mas o amor é maior, bem maior. as pessoas deveriam saber.
meu café está quase no fim e, se eu fumasse, agora acenderia um cigarro. tenho uma leve inveja das pessoas que fumam. deve ser prazeroso este instante de se descolar do tempo para habitar um tempo seu. é como se quem fuma não tivesse angústia e, quase que singelamente, trocasse aquele instante de perturbação por um hiato no passar das horas. e os fumantes fumam. e fumam. e fumam. e mergulham inteiramente na fumaça, ainda que seja tóxica, ainda que seja matável, ainda que seja cinza.
acho que vou me deitar, vou me dirigir para a cama, estou me dirigindo para a cama. me deitei. meu corpo é uma realidade que atravesso diariamente. desconheço o que existe aqui. talvez existam cavalos, talvez plantas, talvez vazios. vou fechar os olhos, ensaio o colar lento das pálpebras e, sim, quase que subitamente, uma pitada de solidão parece querer me visitar. sinto aquela cutucada no plexo solar, uma sutil falta de respiração, uma mini-melancolia, dessas que a gente nem se preocupa muito, mas que podem fazer pequenas lágrimas dos olhos escorrerem e um desconforto nascer. mas as pálpebras estão fechadas e as lágrimas não escorrem, a pele está seca e quer dormir. hoje é isso e é tudo que tenho para existir. e, sei, estou feliz demais para ficar triste. 

domingo, 13 de julho de 2014

possíveis títulos para uma inspiração

exercício para um fracasso.
desastre cósmico.
retorno de saturno e tudo que não vem.
vontades inacabadas.
pequenas grandes realizações.
aquilo que ficou por dizer.
a raiva sem lugar pra coragem.
o cuidado de si.
ainda que sempre.
fronteiras de um diálogo.
a enorme distância de ti.
o silêncio necessário.
a saudade é um berro.
algumas palavras soltas.
até que o mundo acabe.
espelho sem reflexo.
feliz ano novo.
clarividência necessária.

domingo, 22 de junho de 2014

enquanto espero

enquanto você percorre as paredes do deserto, me pergunto qual é o tamanho do silêncio que você já não consegue ouvir. há uma devastação em mim, assim como um campo limpo, aberto, vivo, frutífero, ainda que em estado de pausa.
enquanto você percorre de longe os caminhos de quem parece saber pra onde ir, eu me perco entre acasos, noites e sonhos vazios. sinto de perto as vontades mais cruéis. os desejos inacabados. a sincera contradição. a minha. a nossa. a contraluz.
enquanto você vive aos quatro ventos do universo, eu tento encontrar em mim alguma coerência, alguma sílaba que me absolva de sentido, algum nome, alguma afirmação. espalho meu corpo na casa fria. sou aquela que dorme enquanto os outros caminham adiante.
enquanto você vibra, eu mergulho. enquanto você foge, eu descubro. enquanto você encontra, eu percebo. há um amor aceso ainda que na penumbra. ainda que frágil. ainda que só. enquanto vivo.

Sob uma estrela pequenina

"Me desculpe o acaso por chamá-lo necessidade.
Me desculpe a necessidade se ainda assim me engano.
Que a felicidade não se ofenda por tomá-la como minha.
Que os mortos me perdoem por luzirem fracamente na memória.
Me desculpe o tempo pelo tanto de mundo ignorado por segundo.
Me desculpe o amor antigo por sentir o novo como primeiro.
Me perdoem, guerras distantes, por trazer flores para casa.
Me perdoem, feridas abertas, por espetar o dedo.
Me desculpem os que clamam das profundezas pelo disco de minuetos.
Me desculpem a gente nas estações pelo sono das cinco da manhã.
Sinto muito, esperança açulada, se às vezes me rio.
Sinto muito, desertos, se não lhes levo uma colher de água.
E você, falcão, há anos o mesmo, na mesma gaiola,
fitando sem movimento sempre o mesmo ponto,
me absolva, mesmo se você for um pássaro empalhado.
Me desculpe a árvore cortada pelas quatro pernas da mesa.
Me desculpem as grandes perguntas pelas respostas pequenas.
Verdade, não me dê excessiva atenção.
Seriedade, me mostre magnanimidade.
Ature, segredo do ser, se eu puxo os fios das suas vestes.
Não me acuse, alma, por tê-la raramente.
Me desculpe tudo, por não estar em toda parte.
Me desculpem todos, por não saber ser cada um e cada uma.
Sei que, enquanto viver, nada me justifica
já que barro o caminho para mim mesma.
Não me julgues má, fala, por tomar emprestado palavras patéticas,
e depois me esforçar para fazê-las parecer leves."

(Wislawa Szymborska)

sábado, 7 de junho de 2014

janelas inside

percebi a solidão atravessar a janela e a cruzar exatamente o centro de dentro do meu peito. consegui notar sem medo a solitude que me entranhava, essa visita que não se aguarda, esse silêncio inaugural. 
talvez seja saturno, talvez seja a espera do amor, talvez seja apenas um novo passo. 
o fato é percebo o que há em mim e permito que isso se aproxime, sem negar a angústia que também virá - e ela sempre vem.
meu corpo nunca esteve tão bem habitado e, vou te contar um segredo: as melhores coisas são aquelas que não se diz.

domingo, 25 de maio de 2014


é preciso dar um grito

é preciso dar um grito 
pra que se sacodam as paredes da casa
pra que se escorram as memórias sem motivo
pra que se explodam as falsas promessas

é preciso dar um grito
pra que se esmaguem as cruas cerimônias
pra que se esgotem os sentidos das palavras
pra que se transbordem os amores calorosos

é preciso dar um grito
pra que se encontrem as vontades mais pulsantes
pra que se revirem as pessoas sem apelos
pra que se revelem as saudades verdadeiras

é preciso dar um grito
pra que se devorem as palavras sem sabores
pra que se derramem as canções desassossego
pra que se escolham os caminhos do desejo.

_

como possibilidade de manter-se vivo
é preciso dar um grito.

terça-feira, 22 de abril de 2014

carta ao avô

vô querido,

quantas saudades. te escrevo porque esses dias você não tem saído da minha cabeça. a vó dormiu aqui em casa esses dias, foi a companhia mais agradável que eu podia ter tido nesses dias de silêncio e perguntas. tantas perguntas, vô. ando me perguntando tudo. já me disseram que isso iria acontecer quando eu fizesse 28. me disseram que eu ia me perguntar sobre tudo. e assim tem sido, ou não tem sido, pois tenho me perguntado muito e não tomado nenhuma decisão. acho que tenho decidido algumas coisas internamente, apesar de que nenhuma dessas decisões internas têm me feito mudar de lugar. pelo menos por enquanto.
sinto que preciso urgentemente mudar de lugar, vô. e o mais estranho é isso: o lugar não é físico. sinto que eu estou precisando de reparos, de novas posturas, quase de uma nova identidade. olho prum passado que me dá orgulho, mas também me dá angústia. muita angústia. sinto às vezes que sofro pelas mesmas coisas que sofria quando era bem criança, quando ia pra sua casa e chorava no cantinho, sem fazer barulho e sem ninguém perceber, lembra? acho que eu conheci a melancolia ali, no auge dos meus 4, 5 anos e já naquela idade eu sabia que viver era sorrir e também sofrer. e essas duas instâncias têm sido muito presentes em mim. muito.
escutei uma vez que fazer 28 anos é como nascer novamente e a verdade é que não há nada mais sofrido que nascer. já pensou ser tirado brutalmente do quentinho aquático da barriga de sua mãe e parar nesse mundo gelado, branco, com cheiro de congelado do supermercado? é realmente muito louco que nascer dê certo, na maioria das vezes. é realmente muito louco que a gente consiga sobreviver ao nascimento, na maioria das vezes. ou pelo menos que a gente acha que consegue.
pois me sinto assim: saída do quentinho aquático da barriga da minha mãe e jogada num cheiro de congelado de supermercado. me sinto jogada naquela área do freezer, na parte aonde ficam os frangos e as carnes com hormônios. o mundo pra mim tem tido esse cheiro. essa textura.
apesar de tudo, vô, tento manter meu bom humor. tento rir de mim, mesmo quando me sinto incapaz. e a verdade é que eu tenho me sentido muito incapaz. incapaz de crescer, de bancar a própria vida, de viver de arte, de me organizar, de lidar com o tempo, de lidar com o amor. mas sobre o amor... quem nesse mundo foi capaz de desvendá-lo? 
preciso te dizer que encontrei o amor e disso tenho certeza. é um amor que tem me feito muito feliz, mesmo nos momentos de angústia. é um amor que me faz confrontar com o mais difícil e amargo de mim mesma. e como poderia ser melhor do que isso? vivo um amor que me faz querer viver.
no mais, as coisas parecem bem. a vó está linda, vistosa, nem parece ter a idade que tem. diz que te ama perdidamente e que nunca te esquece, nem um dia sequer. eu acredito e me emociono. papai está bem também, caladinho, na dele. ele precisa do silêncio. a mamãe está querendo ir atrás da história da tereza.
até hoje acho inacreditável essa história da tereza. como entender uma mãe que abandona seus filhos? como entender esse rasgo fundo dessa família, que contamina as mulheres todas com uma melancolia profunda?
sempre pensei que mais louco que uma mulher que parte, é um homem que fica. e você é esse homem. você é esse homem que ficou.
saudade dos nossos papos, vô. queria poder te contar um pouco de tudo que tenho vivido nesse mundo era de aquarius. você não acreditaria, é muita internet, muita rede, pouco laço. as pessoas não conversam mais na hora do jantar, todo mundo carrega um telefone na esperança de encontrar a própria salvação. é surreal, é cru. você não acreditaria.
tenho saudade do jeito que você apertava minha mão quando eu queria atravessar a rua. tenho saudade das suas brincadeiras que vinham até na hora do desespero. sinto saudades das suas histórias e do seu jeito de dançar com os ombros ouvindo cartola. eu não me esqueço, seu coração sempre foi carioca. paulista de nascença, mineiro por obrigação, carioca de coração, lembra? não me esqueço. meu coração também é do rio. um dia, sim, um dia eu vou morar na praia.
vô, você é o maior homem que esse mundo já conheceu. obrigada por me constituir na sua essência.
a saudade é gigante, mas te carrego no peito. a sua leveza é minha maior inspiração. se eu viver a vida com a metade do seu sorriso, já sou inteira gargalhada.

um beijo, um abraço, uma alegria.

j.


domingo, 13 de abril de 2014

trechinho


"Não suporto quando alguém está muito ocupado comigo. Não suporto essa responsabilidade. Quero que se ocupem - do que é meu, do que me é próprio e não de mim. Pois não amo a mim mesma (pessoalmente), amo o que me é próprio. Ou seja, a coincidência de mim com aquilo que me é próprio - é isso. Do contrário, é a solidão, o não encontro, o faltar-se. Dois encontram-se e um terceiro - isso sim. Entretanto, os dois nunca podem se encontrar em um dos dois, ou um no outro. Se X ama Y e Y ama X = solidão. Se X ama Y e Y também ama Y = solidão. Se X ama Z e Y ama Z = encontro. Z= aquilo que coincide (para X e para Y), sendo mais que X e que Y." 

Marina Tsvietaieva.

consumir conscientemente o gozo e a dor


quinta-feira, 3 de abril de 2014

trama

carrego nas mãos uma ausência
a saudade leve
a vontade urgente
o tempo que passa
os dedos que escorrem sem pressa
o meu silêncio

carrego nas mãos as vozes de todos os tempos
o meu tempo que já não sei qual é
esse hiato entre o ontem e o amanhã
metade desejo metade escuta
(...)
e meus pés caminham fortes
trocam de direção
se perdem na noite
espero um sinal
espero um aviso
espero uma promessa

carrego nas mãos uma vã filosofia
me apaixonei desse texto
me apaixonei dessa escrita
me apaixonei dessa forma de ver o mundo
me apaixonei pelo seu sintoma

(e sinto-me)
(e sinto-te)

carrego nas mãos uma incerteza
vou pelo mistério que me guia
vou pelo caminho da beleza
qualquer maneira de amor me ilumina.


fragmentos

"um 'koan" budista diz 'o mestre segura a cabeça do discípulo debaixo da água, durante muito, muito tempo; pouco a pouco as bolhas começam a se rarefazer' no último momento, o mestre tira o discípulo, reanima-o: quando você desejar a verdade como desejou o ar, então saberá o que ela é.' 
a ausência do outro segura a minha cabeça debaixo da água, pouco a pouco, sufoco, meu ar se rarefaz: é por essa asfixia que reconstituo minha 'verdade' e preparo o intratável do amor."

(fragmentos de um discurso amoroso. verbete: ausência)

quinta-feira, 20 de março de 2014

quase 28

amanhã sou 28.
daqui, não tenho medo de saturno.
escrevo para lembrar, escrevo para esquecer.
escrevo na tentativa de escrever em mim uma nova história.
sei que sou habitada por intensidades, presenças distantes, lembranças de antes.
mas preciso escrever para pertencer ao agora.
pois que tudo que desejo às vezes me escapa.
mas, de corpo aberto, busco o mundo para além do vazio.
quem inventou o amor não fui eu.
mas acredito.
acredito.
acredito.
e acredito.
como disse uma amiga, "o coração estará sempre na linha de frente".
aconteça o que acontecer.
seja o que for.
venha o que vier.
venha o que não vier.
hoje atravesso a meia noite by myself.
acho que, pela primeira vez, completamente eu.
mas não tenho medo de saturno.
vou rasgar a pele.

sexta-feira, 14 de março de 2014

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

tarefa

preencher os dias de sentido
e o sentido é construído por si
mas só faz sentido mesmo
quando acontece um encontro
consigo
com outro
com o mundo
pois só faz sentido mesmo
aquilo que vem fundo.

gira!


sábado, 8 de fevereiro de 2014

eu vou dar um grito

eu vou dar um grito
eu vou sacudir
eu quero calar tudo isso aqui dentro
não: eu quero que tudo vibre
eu quero tudo vivo
eu vou
eu vou além, mais do que posso
eu corro, eu corro, eu corro demais
eu choro, eu choro, eu choro demais
eu vou dar um sorriso
pra mim, pra você
pra quem puder perceber
eu vou ser tudo aquilo que eu sempre quis
é muito eu pra pouco verso
quero ser menos, quero ser vênus
quero saber talvez ser atriz
você já sabia, você sempre sabe
eu quero nós dois escorridos na cama
que o amor me guie até amanhã de manhã
até perder de vista o tamanho de mim, sem tamanho
eu vou além, eu quero muito, eu quero tanto
meu tempo é hoje, meu tempo é quando
penduro as preocupações no varal da incerteza
eu quero poder mergulhar na beleza
qualquer coisa de simples que seja só nós
e o que é certo na vida é viver sempre a sós
mesmo que junto, ninguém é muita gente
e eu vou te contar, eu não sou diferente
eu vou dar um grito
assim sem medo, vou gritar sem medida
minha imperfeição é a voz da vida.

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

ecoa

talvez minha forma de gritar seja o silêncio