quinta-feira, 30 de outubro de 2008

Dia: a solidão me dói como uma bofetada ou subitamente doce


Acordou, há tempos não acordava assim. Sol de relance na cama, calor, muito calor, espreguiçada (três vezes), bocejos (também três). Erguer-se do leito como uma leoa, cabelos ao vento ou a ausência dele, ainda muito calor, rumo ao chuveiro. Ducha gelada, pensamentos sóbrios cor de rotina. Melhor vestir uma blusa vermelha pra combater tanto cinza, e o engraçado é que lá fora o céu está colorido, mas ainda assim, cara de rotina. Lavar o rosto com sabonete de argila, “isso hidrata e melhora sua cara amassada, minha filha”, silêncio profundo, ninguém disse nada. A casa tem muitos ruídos, mas o silêncio profundo, vem de dentro. Os pés quentes de tanto calor ou seria vontade de andar? Colocar sandálias antigas pros pés respirarem. Inspira, respira, suporta. Uma nova espreguiçada e se sentar prum café primavera. Comer pelas manhãs sempre me dá uma alegria incalculável, o senhor também não sente essa alegria? O café sozinha, cheiro de companhia à mesa, há tempos seu café seria também sua maior companhia, algo quente e próximo como um cigarro, o melhor amigo de tanta gente. Mas, neste caso, apenas café, a criatura aqui não gostava muito de fumar. Cigarros nunca cheiraram como flores.

Comeu logo, será que devo escovar os dentes ou deixar esse gosto de café ainda aqui, mais um pouco? Preferiu escovar os dentes. Desabotoou a gola da blusa vermelha. Não calçou sapatos. Fingiu se esquecer das horas, mas lembrou.

Chaves na mão, gritou tchau! pro vizinho que regava as flores, embora não existissem o vizinho nem as flores. Mesmo assim, colorida azul margarida, desceu às escadas em direção à rotina, carregando as chaves na mão direita e algum sentimento na mão esquerda, sentimento que não distinguia nem sequer sentia. Fingia, doce que era, fingia sentir, fechava os olhos pensando nas primaveras.

Pela rua, muitas pessoas e também nenhuma, não havia trabalho, não havia ocupação, não havia dor de cabeça. Sentia-se egoísta por isso, como poderia estar mais tranqüila do que os outros? Inspira, expira, suporta. Todo mundo com tantas sacolas e tantas idéias, e eu aqui andando em círculos pelo asfalto? Parou na praça da frente de frente à estátua da fonte, estátua de dois anjos que se beijavam. Anjos se amam até o fim dos dias? Preferiu acreditar que sim. Sentou-se ao pé do hidrante e almoçou pêssegos. Pensou que era um pouco cedo para comer de novo, mas só pensou mesmo, e comeu.

Sentiu cheiro de magnólia e lembrou que gostava de verde. Decidiu comprar gardênias e quem sabe um vestido? Sobre o vestido sabia que deveria ser cor de verde, tudo pra combater o cinza. Passou por galerias, cruzou vitrines, quis casar com Chico Buarque e não entrou em lugar nenhum. Melhor imaginar um vestido verde do que encontrá-lo dando sopa por aí. Sentiu-se verde, leve e teve uma vontade absoluta de abraçar alguém. Abraçou as idéias e logo se esqueceu do que pensava. Aborreceu-se com o cachorro da senhora bem de frente ao banco, por que os cachorros parecem estar menos sozinhos nesse mundo cão? Tinha raiva dos cachorros porque queria ser um deles. A maior frustração era não ter um focinho gelado e não ser capaz de encostar nos outros com todo aquele ar de plenitude.

Continuou a caminhar, agora um pouco cansada, desejou ser diferente e quis deitar bem no meio do centro da cidade, sendo envolta por arranha céus e pessoas apressadas com sacolas. Deitou. Logo levantou. Nada disso era absolutamente inédito.

Olhou pra cima, viu pombos, riu deles. Haveria algo mais patético que um pombo? Riu de novo e, com medo, suspeitou que sim.

Entrou numa galeria de arte e imaginou que os artistas deveriam ser os mais ocupados de todas as pessoas. Por um instante desejou que os pensamentos fossem ocupações, mas logo respirou aliviada por não serem. Gostava de pensar em vão. Olhava quadros e pensava que a estátua da fonte era tão mais bonita. Sentiu raiva dos artistas com sua prepotência, eles nunca haviam percebido tamanha a pequenez de um amarelo diante de uma primavera? Sorriu porque sabia que era amarela. Chorou depois, por três horas. Alguns minutos.

Fechou os olhos e lembrou de um beijo. Sabia de todos os perigos dos beijos e lembrava com nostalgia das borboletas na barriga, bem assim, sounding like hollywood. Inspira, respira, suporta. Suspira. Menina, pare de procurar amor em toda esquina! Ela sabia que nenhum sentimento viria numa caixinha de leite mas, ainda assim, procurava.

Parou diante do xerox e pediu que copiassem sua temperança. O velho dono da papelaria zombou dela, disse que ali só tiravam xerox da soberba. Ela saiu em silêncio, aquele mesmo silêncio de dentro, o único ruído vinha das chaves que balançavam nos bolsos.

Perdeu-se sem saber pra onde ir. Abriu os bolsos, despejou tudo o que tinha, queria voltar pra casa. Ela já não sabia que desde o início aquele dia seria cinza? Fechou os olhos com rapidez, respirou fundo, altiva. Não queria voltar pra casa. Passou por um velhinho de cabelos cor de orquídea e pediu que ele segurasse fortemente as suas duas mãos, por três minutos. O velhinho tremia e de tanto trupicar, soltou-se. Tranqüila, ela aceitou os fatos, relaxou os ombros e engoliu todo o doce que tinha da goela até o estômago. Apesar de conhecer o doce que tinha todos os dias por dentro de si, só ali se deu conta. Se alegrou, quase saltou. Vibrou por saber que a primavera estava era ali mesmo, perto da boca, e gargalhou como ainda não tinha gargalhado o dia todo. Inspira, inspira, inspira. Quis gritar, mas não teve som. Quis correr, mas sentiu que era parada que ela se sentia presente. Ficou os pés no chão, no presente. Despreocupa, pensa no essencial. Acorda, acorda, acorda. Respira, respira, respira. Rapidamente e deixando de lado todo o resto, soltou o sentimento da mão esquerda, jogou as chaves pro alto e abriu os braços no meio da avenida.

Quis ser.

domingo, 5 de outubro de 2008