sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

um fio de luz

"um fio de voz escorre pela parede de um mundo que ainda não existia, mas que nós já tínhamos, sem dúvida, criado na ausência um do outro. agora o encontro é o desencontro e tudo é uma fusão de vontades ou desejos que ainda não conseguimos exprimir. um fio de voz escorre pela parede, quem o provasse poderia dizê-lo doce, cheio de cama, sonho, aproximação."

(voz - Luis Filipe Cristóvao)

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

versos soltos e afogados

Sem colocar pedrinhas nos bolsos, afogo-me.
Cada instante de pensamento é um sufoco. Um golpe. Um mergulho.
Porque tocar no fundo quer dizer ter água acima da cabeça. Alguém já disse isso antes, foi perto do coração selvagem, foi ela mesma, ela que me escuta até debaixo d´água.
Sem colocar pedrinhas nos bolsos, afogo-me.
Cada pensamento é um desencontro. Um desespero.
Passam horas passam dias passam meses passam anos, o telefone nas mãos, as palavras prontas, as desculpas, as passagens, tudo pronto. E não me movo.
Estou no fundo mais do fundo do fundo do aquário, intacta, muda, coberta de água.
Pudera eu chorar todas as tristezas do mundo, pudera eu te trazer pra perto sobrevoando minhas lágrimas.
Te chamo todos os dias todas as noites. Te chamo em canto em prece em sombra em água.
Meus lábios cobertos de conchas selos projetos promessas.
Prometo.
Promete?
Que nossa distância seja ilusão apenas.
Te desejo desde os tempos imemorais.


Texto dedicado à ele.
(quanto mais amo mais calo)

domingo, 29 de novembro de 2009

céu inverso




meu amor, não me atraso na volta.

(pra cada suspiro serão 10 contados)

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

hoje o sol veio vermelho como um rosto


alguns km

com você eu tenho medo de me apaixonar
eu tenho medo de não me apaixonar
tenho medo dele
tenho medo dela
os dois juntos onde eu não podia entrar

com você eu tenho medo de me consolar
eu tenho medo de não me consolar
sexo heterodoxo
lapsos de desejo
quando vejo o céu desaba sobre nós

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

sachê

::: saudades deviam ser compactadas em saquinhos
pra poder guardar sumir encher
e estourar pro alto de vez em quando :::

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

terça-feira, 20 de outubro de 2009

domingo, 18 de outubro de 2009

domingo

Era domingo, acordou tarde e se encontrava sozinha. Sozinha: estado ou instante em que não há outro por perto. Engraçado pensar nisso: não há outro por perto. Dentro de casa, em volta da mesa, completamente sozinha e tantas vozes e palavras povoando a mente.

Vestia um vestido verde, completamente verde como se o próprio fato de ser verde justificasse sua solidão. Ela não gostava da palavra solidão porque achava essa palavra muito pesada e jamais se sentira assim. Estava sozinha, era fato, mas não havia tristeza nisso. Caso contrário jamais estaria de verde e muito menos de vestido.

Toda manhã sigo o mesmo ritual. Lavo o rosto com água gelada pra desinchar os vazinhos das laterais do rosto. Bebo um copo d´água, depois um chá, depois outro copo d´água. Aprendi com os japoneses a hidratar a pele logo cedo pois, desse modo, não fico muito vulnerável aos baques do dia.

A casa vazia, o vestido verde e milhões de palavras povoando a mente. Sentia saudades de muita coisa que não conseguia nomear. Se sua mãe estivesse por perto e a visse deste modo, alimentando saudades logo pela manhã, em pouco tempo surgiriam palavras reais repressoras. A mãe, abraçada com a bandeira da ordem, falaria pra ela deixar de bobagem e ir logo comprar laranjas e ovos, passar um pano na sala ou dar comida aos cachorros. O fato é que não havia cachorros. Nunca.

Não gosto muito de me perder em pensamentos nostálgicos, mas deve haver algum motivo pra algumas coisas estarem tão silenciosas. Lembro de um tempo atrás não tão longe assim, havia um peito inteiro ocupado de estórias. Algo como um começo, meio e gran finale com chuva caindo. Um calor imenso. Estranho tudo ter ficado tão verde.

Pensando na mãe que não estava, resolveu deixar de bobagem e ir logo comprar laranjas e ovos. Havia uma coisa de muito especial na ida até a feira. Sentia-se personagem de um típico filme francês, as mãos ocupadas com sacolinhas coloridas cheia de sabores cítricos. O encontro com velhinhos nas filas, a luz da manhã, a alegria virgem. Era domingo e estava viva. E isso haveria de ser um grande motivo.

Eu gostaria verdadeiramente de pensar um pouco menos a respeito das coisas, mas é fato que existem saudades não nomeáveis. Não acho que seja o caso de consultar um dicionário. Também não sei se valerá à pena pedir ajuda. Qualquer pessoa seria simplista no assunto. Não há tristeza. Não há dor. Não há lágrima.

Era domingo, estava sozinha e tinha nas mãos sacolinhas cheias de laranjas e ovos. Podia optar por um grande almoço ou pela experiência da fome. Lera uma vez no jornal sobre um senhor de 80 anos que havia escolhido ficar exatamente 1 semana sem comer. Não estava doente nem doido, apenas queria ter uma semana límpida e vazia de excessos. Parece que depois disso o senhor começou a enxergar o mundo sob uma outra perspectiva. Gostou disso. Viveu como nunca e deixou o mundo da forma mais completa possível.

Está sem lugar? Sente saudades? Não há melhor recomendação do que essa: abrace seu travesseiro. Por longos minutos, abrace-o com toda integridade que conseguir. Feche os olhos e celebre o fato de conseguir ser inteiro no seu contato com o objeto que protege sua cabeça todas as noites. Celebre o fato de conseguir abraçar mesmo sem ser abraçado de volta.

Decidiu por não passar fome, as laranjas e os ovos estavam muito bonitos para isso. Esquentou a água da panela e enquanto colocava os ovos pra cozinhar, preparou um suco com todas as laranjas que trouxera. Um grande banquete: a maior variedade possível a partir de dois alimentos. Um estado de graça, a comida. Uma alegria.

Algumas vezes sinto um tremendo despeito pelos domingos. Fico irritada com o fato de todo mundo estar tão desocupado e, ainda assim, mostrar-se cheio de afazeres. Não é justo. Domingo é para ser livre. Desliguem os relógios, apaguem as luzes, fechem os olhos. Respirem fundo.

Terminou o banquete e sorriu da maneira mais bonita. Não havia muito mais o que fazer naquele dia. Era domingo, acordou tarde. Olhou em volta, continuava sozinha. Ainda assim, tantas palavras e vozes povoando a mente. Saudades não nomeáveis, o vestido verde, o travesseiro amassado ao lado. Entendeu sem entender o instante do mundo em que se encontrava. Cansou de agitar a cabeça, resolveu agir. Abriu as janelas da casa.

Deve haver alguma espécie de sentido ou o que haverá depois. Talvez eu não esteja suficientemente informada a respeito do percurso de algumas coisas essenciais. Talvez isso tudo seja uma grande bobagem e, se assim for, é ainda melhor.


*** para miranda july.

terça-feira, 13 de outubro de 2009

acrílico

Ainda canto o ido o tido o dito
O dado o consumido
O consumado
Ato
Do amor morto motor da saudade

terça-feira, 6 de outubro de 2009

filosofia do porquinho




"o que eu penso sobre namorar? ....

...
...
...


já viu chiqueiro? como os porquinhos ficam?
os que estão dentro tão com o focinho pro lado de fora. os que estão fora tão com o focinho pro lado de dentro."

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

sobre amor

Todos queremos, todos parecemos querer, pelo menos a classe média, a classe média para cima, e talvez não só, mas todos parecemos querer amores hollywoodianos. Nós não queremos amores simples, nós não queremos amores Atlântida, amores Vera Cruz. Nós exigimos amores hollywoodianos, intensíssimos, que nos arrebatem indiscriminadamente. Eu chego a entender isso como uma espécie de regime de verdade e que aponta para uma espécie de estatização do privado. Na medida em que a gente, em que todos nós passamos a querer a mesma coisa, nada de singular há nisso, não é? Então, isso remete a uma idéia pouco elegante mas que me parece correta: que nós estamos vivendo subjetividades de manada”.
Trecho da palestra do professor Julio Groppa Aquino.

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

hoje

"Há um olhar que sabe discernir o certo do errado e o errado do certo.
Há um olhar que enxerga quando a obediência significa desrespeito e a desobediência representa respeito.
Há um olhar que reconhece os caminhos curtos longos e os longos caminhos curtos.
Há um olhar que desnuda, que não hesita em afirmar que existem fidelidades perversas e traições de grande lealdade.
Este olhar é o da alma."

A alma imoral. Nilton Bonder.

*e sim à alma.

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

amor ímpar

que nosso olhar se encontre outra vez
{minha prece}
que nosso olhar se encontre.

domingo, 6 de setembro de 2009

brinde à saudade

falaria saudade se fosse apenas.

exatamente 365 dias
12 meses
milhões de instantes

tão mais que saudade
sigo em sorriso

e em tom de alegria
me tornei ao lado.

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

menina caminho

"uma estrada é deserta por dois motivos: por abandono ou por desprezo.
essa que eu ando agora é por abandono."

***

"Apaga-te.
O rio não está diante de ti
Como imaginas.
Há apenas o fosso
E a mesa inundada de papéis:
Conjeturas lassas
Sobre a aspereza das palavras.

O rio não está diante de ti
Está além. Viaja."

Hilda Hilst. Estar sendo ter sido.

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

perdeu?

Pois adiante havia o abismo, ela, abismo, ela, lançar-se ao infinito, ela, infinito, abismo, infinito. O vazio do amor completo.
Pois adiante haviam escolhas e escolhas acarretavam em perdas e perdas traziam o vazio e talvez no vazio alguma coisa acontecesse. Eu vou lhe dar a decisão, botei na balança, você não pesou. Pra que rimar amor e dor?
Pois adiante havia o abismo, ela, abismo, ela, lançar-se ao infinito, ela, infinito, abismo, infinito. O vazio do amor completo. O início.
Em volta da mesa, longe do quintal, a vida começa no ponto final.
.

domingo, 9 de agosto de 2009

Rosa

A rosa do amor perdi-a nas águas
No imenso azul que ali cercava
Guardado em solfejo, pedi em silêncio
Aos monges, aos poetas e às crianças
Aos pássaros, aos loucos e aos outros
Tragam-me rosas inteiras, acesas
Crepúsculos de manhãs perdidas
Fatias do tempo
Navegantes de luz, navegantes

domingo, 2 de agosto de 2009

ah, Manoel...

"É a ciência da poesia: amarrar o tempo no poste para ser eterno."

Manoel de Barros.

quinta-feira, 23 de julho de 2009

Janelas

Janela um: Uma grande avenida de uma cidade feia. Milhões de árvores arrancadas no canteiro central. Sobram troncos. Um senhor que coloca uma cruz de madeira, feita por ele mesmo, em cada tronco – ou cada resto de árvore. Ele jamais foi à Igreja e também não sabe quem é Deus. Entende de madeira. Coisas feito dela.

Janela dois: Uma praça que dizem causar liberdade nos outros. Uma senhora gorda leva seu passarinho para passear. O passarinho dentro da gaiola, amarelinho, cor de vida inventada. A senhora carrega a gaiola para todos os cantos da praça, conversa com o bichinho, silencia, coloca-o próximo das árvores. Caminha até o chafariz, posiciona a gaiola de acordo com o lado em que a água atinge. O passarinho nada.

Janela três: Um homem sozinho que escreve letras de música. Nunca tocou um instrumento e também não conhece muitas canções. Nas letras que escreve têm um pouco de saudade, de abandono, de desejo, de sonhos, sonhos, sonhos. Ama uma mulher que não cabe em melodias. O homem cantarola em silêncio lamentos de um amor não vivido.

Janela quatro: Um senhor que gosta de ficar na porta do teatro escutando rádio. Jamais foi ao teatro e também não tem muita curiosidade, prefere mesmo é acompanhar a pressa das pessoas que entram e saem dali. Gosta de relacionar cada pessoa à alguma canção que escuta no rádio (mas isso ele não conta pra ninguém). Já foi convidado para vários espetáculos, nunca quis. Diz que tem taquicardia e não suporta locais fechados.

domingo, 19 de julho de 2009

branco, o rosto branco

Branco, branco, o rosto branco
Era calando que me distanciava
A cada passo
Branco, branco, o rosto branco
E se acaso distraída eu perguntasse: "pra onde?"
Não importava que erguendo os olhos
Avistasse paisagens
Regiões afastadas
Quem sabe
Branco, branco, o rosto branco
Haveria sempre de ouvir
Um juízo
Um cascalho
Um osso rígido
Desprovidos de qualquer dúvida
"Estamos indo sempre pra casa".

etc.

"Estou sozinho
Estou triste
Etc.
Quem virá com a nova brisa que penetra
Pelas frestas do meu ninho
Quem insiste em anunciar-se no desejo
Quem tanto não vejo
Ainda
Quem, pessoa secreta
Vem, te chamo
Vem
Etc."

Etc. Caetano Veloso.

sábado, 11 de julho de 2009

desabafo, meu desacato.

cansada de tentar entender, cansada de tentar. cansada dos emails sem resposta. cansada de aborrecer. cansada de persistir. cansada. cansada de sorrir em troca de silêncios.

cansada. cansada. cansada.
a batida contra a parede, o osso rígido, o coração que no vazio se lança.

cansada.
cansada.
essa mania tola de pedir esmola pras pessoas erradas.

quinta-feira, 9 de julho de 2009

tema

"Os meus espetáculos são todos sobre um único tema: sobre o amor e o que fazemos para sermos amados."

Pina Bausch.

terça-feira, 7 de julho de 2009

manhã de terça feira


"eu quero ir minha gente
eu não sou daqui
eu não tenho nada
quero ver irene rir
quero ver irene dar sua risada"

domingo, 5 de julho de 2009

urgente

urgente desejo desesperadamente pronunciar a palavra amor urgente que de tão vazia já não cabe ainda cabe alguém dentro da palavra amor? pois então urgente preciso dizer preciso torço diria inclusive mesmo que rogo, isso mesmo, rogo por pronunciar a palavra amor e que venha ela acompanhada de muitas lágrimas, destaques, abraços em descontentamento, música de domingo, pausas, muitas pausas, desejo pronunciar a palavra amor da maneira mais límpida e clara possível. a palavra amor aonde se encontra aonde se guarda quem a escuta mas a palavra amor será algum dia pronunciada na sua grandeza..? desejo que a palavra amor seja pronunciada da maneira mais arcaica mais sincera mais mais mais muito mais desejo pronunciar desejo que se pronuncie desejo encontrar alguém alguém que me ame com bondade desejo amar com bondade desejo pronunciar a palavra amor sem que ela não pareça uma zombaria eterna de si mesmo. desejo pronunciar a palavra amor com a pureza de quem cala.
...
...

"quanto mais amo mais calo"

sexta-feira, 3 de julho de 2009

sexta feira três

"e porque eu leio romances e vejo filmes de amor, que é pra amar e pra chorar o amor que decidiram que eu devia querer ter pra mim..."

Arrufos, Espetáculo do Grupo XIX de Teatro.

terça-feira, 30 de junho de 2009

.


ensaio de samba de volta

pra cantar no carnaval sem se preocupar com a pobreza das rimas.


o que será que aconteceu?
se agora somos "oi tudo bem e tchau"
se eu olho e não te vejo mais igual
se é estranho te encontrar e me sentir feliz

o que será que se perdeu?
quando é que se deixou de confiar assim
aonde foi parar o colo amigo enfim
de ver, e de chorar, de rir à toa, numa boa

a gente cresce
a gente muda
o tempo todo
estando perto
cada um se ajusta ao outro
mas desse jeito eu posso ver aonde a gente vai parar
ah meu amigo
tô te esperando voltar

o que será que pode ter causado tudo?
será que foi o meu silêncio
ou foi você que ficou surdo
se a gente fosse namorado
eu poderia até saber
mas como está eu não consigo entender

pra onde foi nossa palavra, aonde estão nossas canções
se foi a nossa parceria?
e a alegria, pronde foi?
tô procurando nosso samba
vou esticar a minha mão
sinto saudade de você, meu irmão

a gente cresce
a gente muda
o tempo todo
estando perto
cada um se ajusta ao outro
mas desse jeito eu posso ver
aonde a gente vai parar
ah meu amigo
tô te esperando voltar

segunda-feira, 1 de junho de 2009

gaiolas abertas

vive-se uma experiência. vive-se. algo de um tamanho maior do que as palavras podem abarcar. algo maior do que o amor, do que a arte, do que a idéia de divino. muito maior do que o próprio divino.
vive-se isto: a comunicação direta com o inexplicável. a linguagem sonâmbula. a conversa com os bichos. vive-se a transcendência: um sufoco de tanta vida.
_____________________________________________
estamos todos conectados por algo muito maior do que a poesia das coisas.
vive-se uma experiência sem retorno.
atravessa-se. atravessa-se.
______________________________________________
"Que o corpo seja uma realidade pela qual se atravessa" - Pina Bausch

segunda-feira, 25 de maio de 2009

os nomes repetem e também as estórias

"Foi um pequeno momento, um jeito
Uma coisa assim
Era um movimento que aí você não pode mais
Gostar de mim direito
Teria sido na praia, medo
Vai ser um erro
Uma palavra, a palavra errada
Nada, nada
Basta nada, nada
E eu já quase não gosto e já nem gosto
Do jeito que de repente você foi olhada por nós
Porque eu sou tímido e teve um negócio
De você perguntar o meu signo
Quando não havia signo nenhum
Escorpião, Sagitário, não sei que lá
Ficou um papo de otário, um papo
Ia sendo bom
É tão difícil, tão simples, difícil, tão fácil
De repente ser uma coisa tão grande
Da maior importância
Deve haver uma transa qualquer pra você e pra mim
Entre nós
E você jogando fora e agora vá embora, vá
Deve haver um jeito qualquer, uma hora
Há sempre um homem para uma mulher
Há dez mulheres para cada um
Uma mulher é sempre uma mulher, etc. e tal
Assim como existe disco voador e o escuro do futuro
Pode haver no que está dependendo
De um pequeno momento puro de amor
Mas você não teve pique e agora não sou eu quem vai
Lhe dizer que fique, você não teve pique
E agora não sou eu quem vai lhe dizer que fique
Mas você não teve pique e agora não sou eu quem vai
Lhe dizer que fique, não sou eu quem vai
Você não teve pique
Não sou eu quem vai
Lhe dizer que fique
Não sou eu quem vai
Não sou eu quem vai lhe dizer que você não teve pique
Não sou eu"
Da maior importância, Caê e sua mais completa tradução.

terça-feira, 19 de maio de 2009

abandono

Posso sentir: você vai me abandonar. Consigo perceber isso em cada milímetro da sua atitude, na maneira em que me olha, em que me dirige a palavra, em que me abraça em silêncio, no diz-não-diz-diz-diz-não-diz. Ensaio a cenografia do abandono. Preparo minha reação, as lágrimas correm com agilidade, visto a camisa de ontem, percebo a taquicardia, o olhar vidrado, a cor da solidão. Espero pela angústia tão única que só o abandono traz com toda a sua completude. Sua partida não demorará muito e por isso permaneço alerta. Olhos atentos aos passos. Pressinto sua despedida todos os dias, sonho com o nosso adeus - meu maior medo. Saio para dar uma volta, vejo as vitrines cheias de cores, na galeria, cada clarão. Me distraio pra disfarçar a certeza que tenho em segredo. Respiro fundo.
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Passa um tempo, surpreendo-me. Caminho pro outro lado.
Me desculpe, quem vai te abandonar sou eu.

sábado, 9 de maio de 2009

sem cais

de repente alguém que me acorda.

rapaz

... recusa aos versos silenciosos
ao sopro de vida tímido
ao nó na garganta que fica apenas ali,
na garganta.

Pegue seu sonho, rapaz
deseje lançar-se pelas janelas do infinito
deseje o outro, os outros, si próprio
deseje o abraço que de tão apertado
já não cabe.

Deseje a dor, o gasto, o surdo
as lágrimas que não se enquadram em choro ou riso
apenas a água de quem sente.

Pegue seu sonho, rapaz
agarre-o com os dedos como quem não permite deixar escapar
agarre-o com desejo.

Deseje o desejo, deseje o desejo, deseje o desejo.
Que venha o grito além.
Que venha o grito.

sábado, 18 de abril de 2009

só.

"De repente, estou só. Dentro do parque, dentro do bairro, dentro da cidade, dentro do estado, dentro do país, dentro do continente, dentro do hemisfério, do planeta, do sistema solar, da galáxia - dentro do universo, eu estou só. De repente. Com a mesma intensidade estou em mim. Dentro de mim e ao mesmo tempo de outras coisas, numa seqüência infinita que poderia me fazer sentir grão de areia. Mas estar dentro de mim é muito vasto."

Caio Fernando Abreu.

sexta-feira, 10 de abril de 2009

sexta-feira, 3 de abril de 2009

asa de andorinha

Derramar em cada instante o máximo de sua paixão paixão paixão paixão vida desejo falar sobre vida com potência de vida que não cabe em palavras discursos morais testamentos depoimentos pontuações vírgulas desejo que essa escrita não obedeça formas recursos nomes ortografias nada não sei se consigo a forma está em mim no mundo e que forma de ver o mundo senão através da forma a forma pode destruir a vida? desejo não contaminar as palavras com pensamentos construídos referências desejo não contaminar as palavras de vida disforme incalculada sem letra inteira e ponto exclamação e que as formas não contaminem aqui agora sem conselhos sem ditados sem lições

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milhões de pontinhos seguidos. Reacender o desejo.

quinta-feira, 26 de março de 2009

lissabon wuppertal


===

vai, coração

aponta os caminhos para que assim eu seja inteira desejo

e passo

sexta-feira, 13 de março de 2009

mia couto

"De que adianta estar à janela se não for para dizer adeus?"

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

eu, você, joão.

Dia de festa no mar
Dia de Iemanjá
A branca rosa que os barcos lá debaixo
Vão levar
A branca espera que traz promessa
De calor no coração
Pra eles, pra ela

Primavera pela janela
Sobrado da imensidão

Amor imaginado que nenhuma diferença será
Capaz de calar

Coração que grita.

sábado, 21 de fevereiro de 2009

:::

"Infeliz do país que precisa de heróis"

B.Brecht.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

a tarde dói de tão igual


lágrima

E a menina queria chorar, queria chorar, queria chorar. Despejar adiante toda aquela tristeza - e era tanta tristeza que ninguém ousaria perguntar de onde viria a lágrima e pra onde iria. Uma tristeza antiga que de tão antiga não caberiam perguntas ou estórias. Cabia o silêncio somente, pois só o silêncio pra se pronunciar diante de um sentimento ancestral.
Era tanta tristeza e tanta lágrima e tanta tristeza que talvez nem fosse tristeza - quem sabe uma uma música interna, uma vontade, uma explosão. Talvez quisesse chorar não porque estivesse triste, mas porque estava viva.

domingo, 18 de janeiro de 2009

no abismo das esquinas

"Talvez haja entre nós o mais total interdito
Mas você é bonito o bastante, complexo o bastante
Bom o bastante?
Pra tornar-se ao menos por um instante
O amante do amante que antes de te conhecer
Eu não cheguei a ser"

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

sofá silêncio

Eu, você em casa e aquele sofá. Uma festa em que não necessariamente fui convidada, ou melhor, fui, mas não fora um daqueles convites cor-de-rosa Bordeaux que quase gritam ao serem abertos com luzinhas e brilhantes "venha, sweetheart, venha". Não recebi convite cor-de-rosa mas fui, mesmo assim, disposta a encontrar de tudo e de todos e também porque muitos dali me faziam saudades há tempos, então fui, coração aberto, postura ereta, tentando ter o mesmo sorriso que tinha quando estávamos em dois, abro a porta e vejo você em casa e aquele sofá. Ninguém na festa saberia, pudera você, o quanto aquele sofá. Era sabido ali de um amor que não aconteceu, ou que aconteceu e teve medo. Todos os medos nossos, que nos distanciaram ou quiçá nos aproximaram por milhões e milhões de instantes.

Cheguei na festa querendo ser eu, absolutamente. Olhava pra todo aquele lugar como se não reconhecesse, ou como se tivesse bastante tempo, embora nem tivesse tanto tempo assim. As situações eram outras, eu era outra, você, outro. E também outras novas pessoas ali, que não existiam ou nem apareciam há um ano atrás. "Agir naturalmente, seja legal, tudo é completamente cool", era o que eu pensava quando me aproximava do sofá.

Todo esse tempo dizendo pra mim mesma que você nunca me significou um amor e que foi, na verdade, uma grande amizade, um companheiro, um vizinho pra quem se pede uma xícara de açúcar no fim da manhã, esse sofá já sabia que tudo isso era balela? Isso mesmo, balela. Quantas vezes a gente fingiu não querer nada? Quantas vezes a gente agiu como se nada de mais profundo entre nós existisse? Profundo é profundo demais, e não sei se é isso que eu quero dizer.

Estou confusa. O que queria dizer na verdade é que ao chegar naquela casa, de frente pra aquele sofá, todos aqueles outros em torno, tive um sentimento incômodo, uma espécie de angústia, nostalgia. Uma saudade. Essa saudade que eu sempre classifiquei no nível da amizade ou da carência, afinal, nada muito extraordinário tem me acontecido nos últimos tempos. Só que ali senti, era uma saudade de mim mesma, de alguma coisa que ficou lá atrás mal resolvida e mal falada e enquanto caminhava pela festa refletia: "existe algum tipo de relação que se resolve?" Relação também é forte demais, e eu não se é isso que eu quero dizer.

Eu sempre soube que o que existiu entre eu e você foi maior que namoro, que amizade, que relação, que. Pra mim é difícil classificar em palavras ou sentimentos o que eu sempre senti, só sei que um ano depois, nessa festa, nesse sofá, me dá assim uma falta. Conversar com você não é o mesmo e é como se minha palavras jamais te alcançassem, você também sente assim? E eu continuo fazendo piadas à todo tempo, vou te fazer rir pra que nada mais sério venha, nada mais.

Não me olhe nos olhos, não converse comigo sozinho, não me leve até a porta na hora de ir embora. Ela está olhando, ela não tem culpa nenhuma, ela é até doce, já disse à você que acho ela doce? Ela talvez seja realmente a melhor pessoa pra você. Ela gosta de você e não tem medo de dizer.

Só um amor não concretizado pode ser romântico.

Admitindo diante do sofá, sinto sua falta. E quero.