domingo, 14 de junho de 2015

círculos

faz horas que estou tentando desenhar um círculo. pego uma folha de papel A4, uma caneta, tento seguir a geografia perfeita de um compasso. inútil. enquanto aqui dentro tudo parecer não ter forma, não conseguirei fazer uma rotação precisa.

tenho vivido dias de raiva. a raiva é um sentimento engraçado. se fôssemos localizar a raiva no corpo, tenho certeza de que ela estaria exatamente no espaço entre os dentes e o céu da boca, como um bafo quente de um animal selvagem. a raiva tem sempre um quê de animal selvagem e é por guardar tanta raiva que tenho evitado soltar as palavras desvairadamente. o silêncio é bom pra conter a raiva e tenho medo de que a fera que mora em mim se solte e depois disso nada nem ninguém será capaz de enjaular a fera. as jaulas existem pra que a gente se lembre que têm limites. as jaulas existem pra que as feras não se soltem o tempo todo. o meu limite começa exatamente aonde termina o seu círculo.

o problema maior que tivemos na nossa história de amor foi o fato de você desenhar círculos desvairadamente, um dentro do outro, dentro do outro, dentro do outro - em espiral. de tanto desenhar círculos, você se esqueceu das outras partes da folha de papel A4. e, que loucura, eu sempre te enchendo de folhas, quantas folhas de papel em branco você recebeu para fazer um desenho qualquer. e você sempre em círculos e sempre circunscrito em você.

estou dentro da casa, estou habitando o vazio, consigo beijar o vazio profundamente. às vezes, quando faz frio e a casa gela, eu penso nos desenhos, nas folhas de papel e nos círculos. mergulho nas coisas improváveis. estou dando voltas e voltas e voltas, mas ainda não consegui entender aonde tudo começa e aonde tudo termina.


quinta-feira, 30 de abril de 2015

fim de festa

aos poucos, o corpo vai começando a se desprender da pele e as lembranças começam a ocupar um vazio quase inatingível. minha memória, que sempre foi muito violenta, começa a se parecer com o vento. movimenta-se lenta, em cor de chuva. chove lá fora, é verdade, mas chove sobretudo aqui dentro. torrencialmente. mas ainda assim, tenho a voz. consigo cantar de olhos fechados, quase inacreditável atingir algumas notas que tocam o céu tão cuidadosamente. às vezes falho, tem muito ar pra ser atravessado pela goela. preciso renascer. meus pés estão cansados. você consegue perceber? não aceito suas migalhas, nem sua meia dúzia de palavras trocadas, nem sua tristeza estampada num biscoito da sorte dentro de um metrô lotado em pleno baixo centro. 
eu não conseguiria jamais traduzir tudo que inunda aqui dentro em palavras, mas só posso te dizer que chove. torrencialmente. espero de verdade que você esteja conseguindo comer as palavras que solta tão distraidamente, que seus olhinhos estejam se curvando menos diante da multidão, que você esteja conseguindo ver a luz do sol que tanto diz que procura. 
me desculpe, eu já não acredito mais em você. 
é preciso aceitar a incoerência dos fatos, é preciso morrer por alguns meses pra voltar a enxergar a primavera. a minha alegria ninguém tasca, nem mesmo a névoa que te corrói os ossos desde sempre. sinto muito pelo amor doado, sinto muito por ter acreditado tanto, talvez você nunca tenha estado diante de alguém que carrega o desejo visceralmente com as mãos, como alguém que carrega uma criança, um filho, uma aposta na esperança. a esperança é verde e cintilante e o desejo vai sempre continuar intacto, quase rasante a nos fazer carícias pelas cabeças e a nos encher de toda vida potente vibrante intensa imensa que há. 
vou te contar um segredo: você não sabe ainda o mal que eu te causei. i am so sorry, my love, fomos tudo que não precisamos. já é tarde, recolha suas roupas, keep going straight. the party is over.

quarta-feira, 29 de abril de 2015

fevereiro

Escute só.
Isto é muito serio.
Ande,
escute que isto é sério.
O mundo está tremendamente esquisito.
Há dez anos atrás o Li** disse que existe uma rachadura em tudo
e que é assim que a luz entra
não sei se entendi.
(…)
O amor é um animal tão mutante,
com tantas divisões possíveis...
Lembra daqueles termómetros que usávamos na boca
quando éramos pequenininhos?
lembra da queda deles no chão?
então,
acho que o amor quando aparece
é em tudo semelhante à forma física do mercúrio no mundo
quando o vidro do termómetro se quebra,
o elemento químico se espalha,
e então ele fica se dividindo pelos salões de todas as festas
mercúrio se multiplicando…
acho que deve ser isso uma das cinco mil explicações possíveis para o amor.
Ah, é..
Eu gosto de você...
A luz entrou torta por nós adentro,
Mas olhe..
Eu gosto de você..
(…)
Hoje ainda faz bastante frio.
(...)
A esta hora na Terra é metade Carnaval, metade conspiração,
metade medo, metade fé,
metade folia, metade desespero,
E provavelmente, a esta hora,
uma metade do mundo está dançando, e a outra metade dormindo.
(...)
Eu acredito que agora exista alguém profundamente acordado.
(...)
Escute, isto é serio.
Andamos crescendo juntos, distraidamente.
As árvores crescem connosco.
Nossa pele se estende.
Nosso entendimento teso, também.
(...)
Quanto ao um para um entre nós dois, isso logo se vê.
Não sei nada sobre a paixão,
suspeito que você também não.
Mas começo a entender que o compasso da fé está mudando a passos largos:
dois para lá,
e dois para cá.
portanto, escute, isto é muito sério.
Isto é uma proposta ao trinta anos.
Agora que o mercúrio assumiu sua posição certa,
vem comigo achar o metrónomo mágico entre a folhagem.
E no caminho até lá,
vem dançar comigo,
vem.

domingo, 26 de abril de 2015

sobre a nossa caverna


"Lovely one, tocou sem querer a canção do Tim com a Gal. Mil novecentos e tal. Lembrei do teu rosto ferido pela faca de um verão ininterrupto, mais de oitocentas falhas atlânticas ameaçando-nos a idade e ameaçando as divisão concreta das estradas nacionais, ameaçando as grades decisivas do salão de jogos da madrugada, ameaçando os enormes porteiros do século XXI. Tocou a tal canção, foi no salão entre dois golpes, o canto veio do nada e por causa disso eu também lembrei do cavaquinho de doze cordas ofendendo a hora de ponta do metropolitano e alimentando assim a posição arqueada de nossas sobrancelhas - que beleza nossa surpresa, nosso amor tão visível no rosto e nas esferas metálicas da cidade. Éramos o duplo físico da cidade. Tudo tanto sem sentido como um dia de domingo. Olha, espera, mudou. Agora veio o Dominguinhos em pandilha com a Elba, que jukebox dos infernos, é bom ficar com você vezinquando é o caralho, passou tempo demais e desde o grande desastre é assim: a todo mundo eu dou psiu porque eu tenho o coração meio vazio e nem o sabiá sentado em meu ombro remete para aquele espaço cavernoso onde tudo brilhava, onde se refletiam as conversas de Marselha, onde descansavam os jogadores de xadrez, onde sempre eram reveladas as receitas do velho bolo de fubá. Fomos tão alegres na caverna. Deixa que te diga que agora é tudo diferente, há mentiras profundas pairando sobre as costas de um eterno tigre, há perguntas muito acostumadas com o silêncio. Há desvios para a revolução mas a revolução não chega nem que o bicho tussa, há frades monásticos mascando chiclete na estação e perguntando pelo último fascículo da cartilha diplomática, há porteiros espirrando por causa da enxurrada de gasolina que inundou nossas ruas e nossos extractos bancários, quase tacavam fogo nos bancos mas depois não. Há lugares onde as pessoas vão morrer e ninguém quase ninguém lhes deita a benção. Está cantando a Bethânia agora. Neste lugar há gente com febre muito alta e mais ninguém pergunta por ti. Tudo povo esperto. Oi. Às vezes eu lembro de você, passaram tantos anos e isto foi tudo uma estúpida pirueta, minha cara no jornal, tua cara na escultura, queria dizer-lhes que foi tudo por causa de uma frase dita às três horas da madrugada num automóvel estacionado na frente da associação de jovens tenistas, nessa época o preto norte-americano ainda estava vivo, tu disseste sim e eu disse sim, formou-se a caverna mais bonita do mundo e mal de nós que não soubemos escavar-lhe janelas, éramos tão jovens amor, não há que pedir perdão, te escrevo entre um voo e outro, aposto que não sabes que nalgumas horas até os aeroportos se enchem de silêncio, o silêncio é o velho profeta que me persegue de soqueira na mão e me acha distraída, faz o que quer comigo portanto eu fujo dele, tantos anos de cara arrebentada me deram mais de doze pontos então agora posso viajar de graça, onde andarás em que bar em que cinema, full stop. Veio um cheiro de caverna. Alguém me fez uma pergunta e mais uma vez eu fintei a parada. Queria tanto falar da cor mutante de teus olhos, das praias rochosas alentejanas onde descobrimos a plasticidade perfeita da natureza, venha Richter, venha Rothko, venha Miquel, o sopro natural é que forma tudo. Queria dizer-lhes que foi o maior amor de nossa rua, que fugimos de nós como o louco foge da metáfora perfeita de Tarkovsky, que provavelmente conseguimos e que portanto disfrutem. Dos poemas, dos desenhos, das canções na flauta, das entrevistas no rádio, dos retratos de camisa azul ou de vestido longo, dos mantras aprendidos a partir das cabeças dos índios despidos. Éramos perfeitamente europeus e agora não somos mais. No outro dia, por telefone, te disse que casa da gente a gente acha. Queria contar-te da terceira montanha que trepei e da bandeirinha vermelha e branca que cravei em mim por causa disso, mas não disse nada. Foste tu quem me ensinou que não se crava nada no corpo do mundo, só no corpo da gente. Estou cravando um monte de coisas estúpidas na pele da terra, e por causa disso eu não penso mais em você. Dizem que você agora é um humano mais do que dotado de beleza e brilho. Eu, por acaso, já sabia disso. Só faço por esquecer disso a cada cinco minutos, por entre fotos e nomes, entre um aeroporto e outro, entre um restaurante e outro, entre um castiçal de prata e outro. It's a matter of self protection, amor, sempre te disse isso. Tua presença física e espiritual, enigmática, doce, brilhante, enche por demais o friso cronológico de meu tempo destinado. Então eu desisti, então eu fico colocando moedinhas constantes e compassadas na jukebox. Sorte a minha, acabou a lista tribal. Está tocando o Tom Waits, closing time, e como de costume I Hope That I Don't Fall In Love With You. Beijo, durma bem, coma bem, ame direito, se esconda, fique aí, cada um em sua montanha e essa é que é a fatalidade mentirosa mais justa de todas. Ah, amor, tua cara, teu cabelo claro, teu corpo quando teu corpo entra na fila do metropolitano. Escavaremos as janelas, deixaremos de herança ao mundo uma belíssima caverna. Você precisa saber da piscina & etc, mas baby, eu sei que é assim. Alguém espirrou, saúde. Sleep tight, you, don't let 'em bite."


(Matilde Campilho)

taca fogo na fábrica de chorar


fortaleza

vibrar a força com extrema delicadeza

quarta-feira, 15 de abril de 2015

como um soco no estômago

me desculpe por gostar tanto de você. é isso mesmo: me desculpe. me desculpe pela delicadeza, pelas palavras nobres, por encher seus dias de coloridos e rajados e amontoados de papel picado. me desculpe por inspirar suas travessias, ainda que eu tenha as atrapalhado um pouco. me desculpe por ter feito a paixão virar desilusão e tudo aquilo que quisemos e tentamos e sentimos ter virado um pouco mais do que uma poeira espessa no canto do fundo da sala. me desculpe pelos batons vermelhos, pelos beijos vermelhos, pela presença vermelha que sempre te trouxe muito mais vida do que propriamente alegria. me desculpe pela minha alegria, pela minha aposta, pelo desejo do hoje e sempre e nunca. me desculpe por sentir, por sentir muito, por sentir pouco, por ter ódio, por ter fulgor. me desculpe pela dor da perda que eu não te causei. me desculpe pelo silêncio cinza que te cobre os dias enquanto eu mesmo que triste consigo navegar em alto mar. me desculpe por navegar em alto mar enquanto você avista a gente somente em superfície. me desculpe pela ingenuidade, pela doçura, pelas palavras não-ditas, pela ausência do grito. me desculpe por não ter te mandado tomar no cu. me desculpe por ter te compreendido, por ter te respeitado, por ter desafiado o mais profundo desafio que eu já pude viver até hoje, por ter aceitado a dinâmica do tempo e também os dias tristes e também os dias loucos e também os dias vazios e também a maior solidão do mundo. me desculpe por ter apoiado o seu processo, o seu momento, o seu mundo e deixado o meu processo, o meu momento, o meu mundo um pouco muito de lado pra que a gente não se perdesse. me desculpe por ter aguentado, por ter doado, por ter doído, por ter sido. me desculpe por não conseguir mais fazer com que minhas palavras sejam leves, embora eu tenha apostado sempre na gentileza, ainda que doa, ainda que rasgue, ainda que não seja mais do meu feitio. me desculpe por ter acreditado em você, por ter acreditado em nós, por ter chorado, por ter chorado, por ter chorado, por ter chorado, por ter chorado e quase inundado nós dois em lágrimas, em oceano. me desculpe pelas cidades não visitadas, pelos planos que não se deram, pelos filhos que não vieram. me desculpe pela minha ausência de agressividade, pela minha condescendência, por ter dito "sim" tantas vezes. me desculpe pelo meus olhos que já não conseguem ver teus olhos, pelo meu corpo que já não reconhece seu corpo, pelo minha voz que já não escuta sua voz. me desculpe pelo fracasso, essa palavra tão feia e tão bela, me desculpe por pedir desculpas. 

vazios ___

"(..)
aquele amor

aquele que eu pensei 
que se despedaçaria como
um meteorito em Minnesota
(uma coisa assim
estrondosa abusiva
gritante maravilhosa
estilhaço prolongado
cheio de uivos)
afinal caiu silencioso
como um aviãozinho de papel
passeando em Itaparica
um dia da apanha dos morangos (...)"

(badland, Matilde Campilho)