domingo, 16 de dezembro de 2012

terça-feira, 11 de dezembro de 2012


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pronto, deixei você ir. voar. amanhã é o dia mais extraordinário do ano, talvez o maior das nossas vidas. façamos alguma coisa extraordinária. pronto, deixei você seguir. adiante. se tiver que voltar, voltará maior. e será eterno enquanto dure, assim mesmo como foi. por enquanto hiato, libertação, outros encontros, meus, seus, maiores. o universo nos rege - apenas. sou o infinito que me colore, sou nós, sou só - agora isso dói tão menos. a morte é a única certeza, enquanto isso, a vida, a vida, a vida. o espaço-tempo me conduz em direção ao oceano que inventei da maior felicidade. a-mar tem que ser conjugado em liberdade. sempre. pronto, deixei você partir. pode amar outra mulher com o amor que por mim você não teve. eu nem vou ter ciúmes, eu nem vou te perturbar. deixo que o acaso faça seu trabalho, que o mundo me surpreenda, me leve e me traga, e te traga se assim for. e, se não for, estarei de peito aberto, de olho aberto, de corpo certo, tendo carinho pela respiração que me invade e me enche de alegria.
o mundo não vai acabar. nunca mais. e hoje, eu só morro de rir.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

para alcançar poema
saia de si

"grades velhas incorporadas
a gaiola voa pássaro"

julia panadés |||

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

colírico

tudo estranhamente equilíbrio
místico-lírico
violentamente tranquilo
absurdamente fulgaz
você me deixou vazio
do maior do maior do maior
infinito espírito jazz
seremos pra sempre dois iguais
perdidos na noite.

domingo, 25 de novembro de 2012

reflexos


desmedida

como um objeto não-identificado
não te mereço
justamente por não ter medida
escorro vida
sem querer-te além do que podes
mas querendo-te além do que posso.

sábado, 24 de novembro de 2012

oração


:::: em busca da fé, qualquer. (parceria minha com luiza brina)

terça-feira, 6 de novembro de 2012

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compartilhar
a beleza
a saudade
a potência
sem perder de vista
a delicadeza

domingo, 4 de novembro de 2012

o mundo me multiplica


às pétalas

frente à cidade
alguns corações choram a tragédia sem fazer alarde
perda infinita
seta sem direção
algumas coisas insuperáveis:
uma mãe que perde sua filha;
um homem que já não sabe o que deseja;
alguns instantes de comoção.

ninguém escuta
somente o tempo que espera
sem hora
nem calma
um dia para voltar ao mundo.

frente ao silêncio
opaco
imundo.

sábado, 27 de outubro de 2012

:::

"vê se realiza um desejo, seu desejo, meu desejo"

(do césar)


esboço

libertador e incômodo, ao mesmo tempo
nenhum sentimento maior nos age
olho e não te vejo, sigo atento
o tempo urge, migra e modifica
seguimos só, sem entender o nó
apenas silêncio
_____________
impávido.

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

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tudo calado aqui dentro. tudo silêncio. nem tudo é assim tão triste. apenas quieto. as coisas migram, somem, mudam. às vezes sem controle. seu rosto escorre e diz adeus. eu não escolhi. apenas não tive escolha. o amor não deve sumir. deve migrar também. pra outro dia, outro ano, outro lugar.
por enquanto, silêncio. sereno.

terça-feira, 9 de outubro de 2012

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matéria fina

viver é um golpe seco. seguimos desacordados na calada da noite. noite alta, doce madrugada, lua pela metade. morrem os inocentes - alguns, muitos. nada se escuta, apenas este aperto imenso no peito. que a voz seja capaz de cantar democracia. que a prepotência não ganhe força, nunca. e que seja possível, a cada dia, reinventar um sentido pro mundo. pra andar atento e corajoso. pra sorrir. pra querer sair de casa. pra seguir vivo, adiante. de coração aceso.

domingo, 30 de setembro de 2012

welcome to outubro

"desapegar é... inspirar e deixar o amor sair pelas ventas, tomar forma de nuvem."

maria lutterbach

sexta-feira, 28 de setembro de 2012


e s p a ç o

o vento sopra seus últimos dias
e a primavera espera
promete novo tempo 
através da janela

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

saindo de cena

era mulher e isso fazia com que tocasse, frequentemente, os extremos. e não é porque não gostasse de equilíbrios, mas talvez é porque permitisse escorrer vida por entre os dedos, em volta das palmas das mãos, através dos olhos, ao redor da face. escorria vida, mas era nítida a sua dificuldade em existir.

possuía uma espécie de ingenuidade, mas não era boba. ao contrário. sabia desde muito cedo que a vida acontecia quase sempre no lidar com as desilusões. havia conhecido o abandono antes mesmo de nascer, elemento importante da sua árvore genealógica. também sabia de cor a ausência das respostas dos homens - e esse sim era um fato que, por vezes, a atormentava.

mas era mulher e existia. e perguntava. e tinha voz. falava muitas vezes pras paredes, realizava conversas imaginárias com os outros, principalmente aquelas que nunca conseguiria dizer para os verdadeiros destinatários. cantava pro nada, de olhos fechados. 

em matéria de amor, era quase sempre passada pra trás. talvez por ser ingênua. talvez por querer quase sempre, se desafiar.

conquistar era um modo de afirmar sua existência. uma vez a conquista negada, o coração se dilacerava pouco a pouco. e a vontade de existir era colocada em cheque. se apaixonava frequentemente, mas reconhecia a dificuldade em esquecer. se apegava às pequenas coisas, como se elas fossem alguma razão de vida. que bobagem.

teve um dia em que acordou cedo. olhou pro dia que atravessava a janela e viu um ano inteiro que tinha se passado quase sem perceber. um ano inteiro na tentativa de recuperar um amor que nunca existiu. um ano inteiro em silêncio, sem escolha, sem pulso, sem corpo. levantou-se da cama, tomou um longo gole de café, se aproximou da janela. tava ali. olhos novos pra coisas velhas. ou o contrário. tanto faz.

se aproximou da janela e viu de camarote todas as suas ilusões. o castelo construído, o desejo criado, a fantasia. aproximou os olhos do mundo e enxergou de perto a sua desimportância. era nada. assumiu a derrota.

a vida às vezes nos convoca à solidão. e, por alguma razão, ela estava ali, diante da janela, sendo convocada a só ser. 

o corpo saberia seguir depois de um longo período de silêncio. em um instante de distração, aquela mulher começaria a dançar. e enxergaria, sem medo, um outro mundo através da janela.

olhos atentos, abertos, pés fincados na realidade - matéria vida essa tão fina.

era mulher e existia. e tinha voz. o grito viria mais tarde. virá.

terça-feira, 18 de setembro de 2012

sábado, 15 de setembro de 2012

florbela


.

"em consideração a mim, cobri-me de recuos. eu, que de docilidades me fizera."

hilda hilst

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

domingo, 2 de setembro de 2012

cultivar-se


sempre

"e brilhas dentro, aqui."

entrelinhas

pois o mais indefinível permanece.
gritando, urgindo, como o tempo que entre nós perece.
somos sós, somos dois - faróis
além do que se vê, do que se diz
do que se nomeia, talvez
a gente se conhece
e vive.

domingo, 26 de agosto de 2012

tato

comover-se no silêncio é tarefa para poucos. procurei em você todas as respostas do mundo, a certeza é que nenhuma delas você poderá me dar. agora fico aqui no cantinho, o maior desafio é seguir adiante. ao meu amor por inteiro seguirei atenta, o desejo é não te fazer desaparecer. mas agora o passo já foi dado, a pergunta foi lançada, a tentativa foi feita, o que vier afinal não poderá partir de mim. começo ou fim, que venha. da minha parte, o silêncio é tarefa para resguardar o desejo. se for pra viver o amor de madrugada, o viverei sem medo. tenho vontade de te fazer acordar. ou quem deve acordar sou eu?

terça-feira, 21 de agosto de 2012

caso de amor

"uma estrada é deserta por dois motivos: por abandono ou por desprezo. esta que eu ando nela agora é por abandono. chega que os espinheiros a estão abafando pelas margens. esta estrada melhora muito de eu ir sozinho nela. eu ando por aqui desde pequeno. e sinto que ela bota sentido em mim. eu acho que ela manja que eu fui para a escola e estou voltando agora para revê-la. ela não tem indiferença pelo meu passado. eu sinto mesmo que ela me reconhece agora, tantos anos depois. eu sinto que ela melhora de eu ir sozinho sobre o seu corpo. de minha parte eu achei ela bem acabadinha. sobre suas pedras agora raramente um cavalo passeia. e quando vem um, ela o segura com carinho. eu sinto mesmo hoje que a estrada é carente de pessoas e de bichos. emas passavam sempre por ela esvoaçantes. bando de caititus a atravessavam para ir ao rio do outro lado. eu estou imaginando que a estrada pensa que eu também sou como ela: uma coisa bem esquecida. pode ser. nem cachorro passa mais por nós. mas eu ensino pra ela como se deve comportar na solidão. eu falo: deixe deixe meu amor, tudo vai acabar. numa boa: a gente vai desaparecendo igual quando carlitos vai desaparecendo no fim de uma estrada.
deixe, deixe, meu amor."

(manoel de barros)

ídola coincidências

anna karina, despues yo 

sábado, 18 de agosto de 2012

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

-----------> siga

mofo na janela.
fazem alguns anos em que respiro muito mal.
vou ali e volto. com o céu, o vento ou algumas plumas, qualquer coisa leve que me permita ir além.
só voo quando aceitar a queda.

.

estupidez.

as palavras em silêncio

cabem melhor
na boca.

===

E se eu te disser que eu quero aprender a me
Amar e te amar também ao mesmo tempo?
Você teria tempo?

Os seus lugares são belos
Os seus gestos são tão naturais
Boquiaberto me travo
Por me ver a te admirar demais
Eis que fico fraco
Eu inventei o inalcançável você

Tudo se faz tão perverso
Qualquer impulso meu dilui-se no ar
O igual-pra-igual espontâneo
Perde espaço pro desejo de acertar
E quanto mais espero, mais me nego e mais
Me faço afastar
Eu inventei o inalcançável você
Me fiz escravo do meu medo de ser
E agora preciso me permitir

Pra parar de sofrer
E viver o que é belo em mim
Deixar o medo morrer
E ser o que eu posso ser, enfim

Mas se eu te disser que eu quero aprender a
Me amar e te amar também ao mesmo tempo?
Você teria tempo?

(inalcançável você - leo cavalcanti)

sábado, 4 de agosto de 2012

.


o nome disso

chamemos de mágoa. chamemos de raiva. chamemos de desatenção. descuido. tropeço, talvez. a palavra adequada? desordem. confusão. desmedida. impropriedade. exagero. chamemos de ilusão. de crença. de desejo. de vontade. chamemos de paixão. chamemos de horrível. de tenebroso. de egoísta. de estúpido. chamemos de forte. de denso. chamemos de particular. chamemos de sublime. chamemos de leve. de finito. de terreno. de puro. de essencial. chamemos de cansativo. de intolerável. de caótico. chamemos de desigual. de sofrido. de inadequado. de infantil. de ingênuo. chamemos de delicado. de brilhante. de único. 

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

agosto afeto

faz um ano e você ainda é. não do mesmo gosto, não do mesmo cheiro, mas ainda é. presente, persistente. aqui. comigo sempre, mesmo quando não. 
para atravessar agosto, é preciso revisitar os afetos. aqueles que contam, mesmo quando a vida, por algum motivo incalculado, quase os rompeu. o fio que unia já não é da mesma cor, nem do mesmo jeito. mas ainda é. 

ao revisitar os afetos, te reencontro. talvez o acaso por mero descaso me leve à você.  de volta, quem sabe? talvez não. talvez eu seja pra sempre silêncio - mas meu afeto será e jamais te pedirá algo em troca. saberei me alimentar sem retornos. leve.

dentro de mim, você não morre.


terça-feira, 17 de julho de 2012


"Nunca perca de vista o seu ponto de partida."

"Seja uma ponte que liga os que tem de sobra, com aqueles que sentem
falta de tanta coisa."

"O silêncio é a linguagem de quem ama; é melhor que a palavra renuncie
e se exprima com afeto. Somente a alma, na sua linguagem silenciosa,
consegue fazer o que sentimos."

16/7/1194 - Clara de Assis, religiosa, fundou o ramo feminino da Ordem
Franciscana e, segundo alguns, ex-noiva de Francisco de Assis de quem
foi companheira nos votos de pobreza.



(via querida alice ruiz)

::::

não gostaria de viver de saudades. pois é claro que a nostalgia, se não nos leva pra frente, pode ser capaz de nos paralisar. mas é claro também que algumas coisas já foram mais simples. mais fáceis. ou talvez mais críveis. triste é saber que ninguém pode viver na ilusão. que nunca vai ser, nunca vai dar, o sonhador tem que acordar.
acordar sim - necessário. mas também voltar a crer. principalmente em si.

domingo, 15 de julho de 2012

.

"nosso espaço é o eco que deixamos. ausência."


(não sei quem é o autor)

sábado, 14 de julho de 2012

_

"gosto de segredos. gosto do que não está completamente revelado. do que me causa diferentes ideias de significados.
eu não preciso entender o que se passa em uma cena. mas eu preciso confiar."

(viliam, diretor do grupo de teatro "Farm in the Cave", sobre seu desejo com relação ao que assiste)

o homem público número 1 (antologia)

tarde aprendi
bom mesmo
é dar a alma como lavada. 
não há razão para conservar
este fiapo de noite velha.
que significa isso?
há uma fita que vai sendo cortada
deixando uma sombra no papel.
discursos detonam.
não sou eu que estou ali 
de roupa escura
sorrindo ou fingindo
ouvir.
no entanto
também escrevi coisas assim,
para pessoas que nem sei mais,
quem são,
de uma doçura
venenosa
de tão funda.


(ana cristina césar)

quinta-feira, 12 de julho de 2012

no more tears

and in my eyes you see nothing
no sign of love behind my tears
cried for no one
(a love that should have lasted years)

terça-feira, 10 de julho de 2012

segunda-feira, 2 de julho de 2012

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estamos todos esparramados. torcendo pra não evaporar. a tecnologia nos fez descrentes. mais sós. a espera do juízo final. mas o afeto ainda é. e invade-nos na hora em que a gente menos espera.

terça-feira, 26 de junho de 2012

noite

descansa.
o que já foi desejo abre espaço pro desgaste.
respira fundo. solta as mãos. chuta o balde.
alguma coisa começa a morrer aqui.
amanhã. talvez. 

segunda-feira, 25 de junho de 2012

que tal o impossível?

se nem um jogo de dados será capaz de abolir o acaso, o que nos resta? tudo pode dar certo, meu bem. tudo pode ser exatamente como a gente nunca sempre quis.

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domingo, 24 de junho de 2012

afeto

"tudo aquilo em que ponho afeto fica mais rico e me devora"

rilke.

quarta-feira, 20 de junho de 2012


você

seu nome te fez grande. maior que eu calculava. e daqui, do lado do lado de cá, o que ecoa é você, você, você. ah, você. e para sempre um espelho refletirá a minha cara do mundo, cara de pau. e para sempre um passo não programado não abolirá o velho poço e, talvez, por isso, jamais seremos compreendidos. você, você, você. das mil páginas que viraremos haverá para sempre alguma delas sem conclusão. para sempre esse instante que ficou no ar nos perseguirá fielmente e, se não for capaz de nos unir de novo, não será capaz de nos desatar. faltou-nos espontaneidade, faltou-nos fôlego. você, você, você. faltou eu.

um dia depois do outro

Eu não ando eu só sambo
Por aí
Esse samba jambo
Escorregando para não cair
Eu me encosto nesse poste
À sombra da bananeira
E por mais que eu te goste
Você não vê minha bandeira
Iê, iê, iê
Iô, iô, iô
Seus olhinhos sempre têm, meu bem
Aquela luz da aurora da manhã



(samba jambo - jorge mautner)

quem?


segunda-feira, 18 de junho de 2012

quarta-feira, 13 de junho de 2012

somos instantes

não se preocupe se eu falar demais. nada é suficientemente absolutamente. somos instantes. um dia é só um dia. uma noite é só uma noite. o acontecimento acontece em um ponto. e é, por excelência, momento. e vai. e volta. e transforma. e os acordos se desfazem. se refazem. e são.
algumas vezes, é bonito permitir impulsos. os desejos têm liberdade de correr sem julgamentos. e as ideias podem mudar. e os instantes, ainda que efêmeros, são cheio de si. cheio de nós.
_
fluir é vida.


segunda-feira, 11 de junho de 2012

( )

meu amor por você atravessará as montanhas. cruzará horizontes interiores sem desejo de desaguar no mar. o mais óbvio do óbvio será impreciso (poético). haverão pontes (limites). pessoas (é difícil aceitar), coisas, distrações, pequenos desastres interiores. nunca saberei (nunca saberemos) para onde estamos indo, nem qual a forma correta de agir. prometi pra mim mesma enxugar as palavras (lágrimas) deixar que os gestos (desejos) digam por si só(s). deixar que inesperado(possível?) nos aconteça novamente. nos conduza sem que a gente perceba. ou não. 
mas o amor atravessará. e ele ficará (permanecerá) até depois do fim do mundo. ele saberá ficar até mesmo quando o ano virar (belo horizonte), quando eu mudar de cidade (rio de janeiro), quando ela voltar pra te visitar (argentina), quando a gente se desencontrar na madrugada (praga). até mesmo no silêncio (londres), na distância (contagem), no cansaço (antilhas), na preguiça (bahia). o amor atravessará.
e, talvez, quando a gente sozinho habitar (ocupar) o silêncio e conseguir se ver com a limpidez (lucidez) de quem enxerga algo doloroso (cheio de vida) que existiu, permaneceu  (permanece) e agora parece ter passado (será?), a gente irá perceber que nada foi em vão.
ou não.

mas o amor (sem dúvida) atravessará.

sexta-feira, 8 de junho de 2012

gastos

não soubemos lidar com o acaso, não soubemos. não soubemos lidar com o mais surpreendente inesperado que nos acontecia. ficamos presos (tesos) nas nossas memórias. nas nossas estórias antigas. nas estórias cansadas gastas e sombrias que cheiravam a pó, mofo, angústias velhas, certezas passadas, sujas de desilusões sem sentidos nem receitas e que, infelizmente, afirmávamos com quase absoluta certeza ser aquelas desilusões as razões verdades do mundo. não soubemos lidar com o que havia começado a brotar em nós, deixamos que o acaso se interrompesse ao primeiro indício de dúvida, de questionamento, ao primeiro sinal apontado pelos fantasmas que nos atormentavam.
e aqui estamos nós, estatelados, vazios, repletos de emoções velhas e convicções baratas, diante das nossas memórias que fedem a pó.
aqui estamos nós: absolutamente sós.

segunda-feira, 4 de junho de 2012

de frente pro inexplicável

olhava no fundo bem no fundo daqueles olhos. os olhos eram negros, da cor da pele e dos cabelos. olhava no fundo bem no fundo daqueles olhos e tentava tocar o intangível. desvendar a alma. o mais complexo confuso caótico que habitava ali.
não conseguia entender, já havia um certo tempo que tinha parado de entender as coisas. talvez tivesse apenas desistido de tentar nomear aquilo que não tem forma. nem cor. logo no início do fim, o que havia feito era isso - tentado encontrar as milhões de justificativas que a fizessem entender o porquê do fim. ou melhor: o porquê do não-começo. pois aqueles dois nem haviam começado. ou haviam? para ela, sim. para ele, a pergunta. a eterna pergunta.
para ela, ao tentar encontrar as milhões de justificativas, vieram muitas coisas: a culpa, a desordem, a dor no peito, a saudade, o medo da morte. tudo isso doeu, às vezes ainda doía. nenhuma resposta, nenhuma clareza. e ela foi lançada diretamente ao momento da vida em que se tem que lidar com o inexplicável. e era ali, de frente pro inexplicável, que se encontrava agora.
ela então havia parado de entender as coisas, mas ainda tentava olhar no fundo bem no fundo daqueles olhos que ela havia nomeado de amor. ela sabia que também podia estar confundindo as palavras e os sentimentos, quando se tem que lidar com o inexplicável as palavras podem não caber nas coisas. mas era aquilo que imaginava sentir. e imaginar é quase sentir. e sentir é quase acontecer.
olhava no fundo bem do fundo daqueles olhos esperando pelo momento em que o inexplicável não a arrebatasse mais. o inexplicável haveria um dia de se tornar menos desconfortável. mais possível. 
enquanto isso, o exercício era tentar lidar com o desconforto. com o vazio. com a pergunta sem resposta. com a não correspondência. com o olhar que não olhava de volta.
e ali, de frente pro inexplicável, ela tentava. diariamente.

domingo, 3 de junho de 2012

hábito

todo sábado eu me reapaixono por você.
no domingo você vira pó.
até a semana seguinte.

segunda-feira, 28 de maio de 2012

_


"Tô relendo minha vida, minha alma, meus valores

Refazendo minhas forças, minha fonte, meus favores
Tô regando minhas folhas, minhas faces, minhas flores
Tô limpando minha casa, minha cama, meu quartinho
Tô soprando minha brasa, minha brisa, meu anjinho
Tô bebendo minhas culpas, meu veneno, meu vinho
Escrevendo minhas cartas, meu começo, meu caminho
Estou podando meu jardim
Estou cuidando bem de mim."

Florbela Espanca.

água

algumas coisas merecem ser afogadas



quarta-feira, 23 de maio de 2012

.

vou nomear-me uma profissão: serei mergulhadora.

talvez isso me impeça de viver as coisas na superfície
ou pelo menos possibilite que o mundo 
possa a ir a fundo.

segunda-feira, 21 de maio de 2012

.

gente é pra brilhar
não pra morrer de fome

domingo, 20 de maio de 2012

_

"sinto-me livre para fracassar"

pé no hoje

calarei os desejos para preservá-los. o silêncio sabe guardar o tamanho das coisas. calarei os desejos, calarei as palavras. talvez você me escute na mudez. talvez isso finalmente me explique o inexplicável. talvez assim você fale. ou deseje. 
cansei-me dos projetos, das metas e dos cálculos. só retorno aos desejos quando eles pertencerem à terra. à carne. ao palpável. fincarei os pés na realidade sem perder os impulsos. fincarei os pés no instante, inauguro a temporada do fluxo natural das coisas. deixo que venham os imprevistos. permito inaugurar-me no fracasso. meu corpo pertence ao que aconteço. calarei os desejos. calarei os desejos para voltar à vida. 

tente lê-los

de tanto não poder dizer

meus olhos deram de falar


alice ruiz.

quinta-feira, 17 de maio de 2012

quarta-feira, 16 de maio de 2012

_ _ _ _ _ _

"__ __ __ __ __ __ estou procurando, estou procurando. Estou tentanto entender. Tentando dar a alguém o que vivi e não sei a quem, mas não quero ficar com o que vivi. Não sei o que fazer com o que vivi, tenho mêdo dessa desorganização profunda. Não confio no que aconteceu. Aconteceu-me alguma coisa que eu, pelo fato de não a saber como viver, vivi uma outra? A isso quereria chamar desorganização, e teria a segurança de me aventurar, porque saberia depois para onde voltar: para a organização anterior. A isso prefiro chamar desorganização pois não quero me confirmar no que vivi - na confirmação de mim eu perderia o mundo como eu o tinha, e sei que não tenho capacidade para outro.
Se eu confirmar e me considerar verdadeira, estarei perdida porque não saberei aonde engastar meu nôvo modo de ser - se eu fôr adiante nas minhas visões fragmentárias, o mundo inteiro terá que se transformar para eu cabêr nele."

(a paixão segundo g.h. - clarice lispector. 
finalmente, conseguindo ler.)

como quem soca um coração sem resposta


quarta-feira, 9 de maio de 2012

os desastres do amor

"o amor está ao alcance da mão
então você estica os braços
tenta colhê-lo e ao fazê-lo
o empurra para mais distante


a distância te ajuda a compreendê-lo
quer dizer, a tê-lo entre os dedos
mas entre os dedos não basta
então você estica os braços, quer acolhê-lo


e ao fazê-lo, empurra ainda
para mais distante: a distância
te completa de angústias
você tem que declarar seu desespero


o amor quer ser cantado a cântaros
você se derrama nas águas do amor
e o amor é tudo ao redor
você é rio você é vento luz do sol você é ar


e te pedem que brilhe
como ao meio dia
então você brilha
e a sua luz ofusca os olhos do amor


agora é guiar aquele que você procurava
você cego procura o caminho certo
e guia quem tem os olhos foscos
mas não há mais tempo:


você defendeu o amor em todas as guerras
travou lutas contra ele em favor dele mesmo
e da única causa na qual pôde crer
e assim o deixa cada dia mais distante


mas isso não é tudo
o amor está em toda parte, você
quer amá-lo que beijá-lo degustá-lo
no entanto, você está só."


Leo Gonçalves

terça-feira, 8 de maio de 2012

jamais um dia conseguimos ser

vou te enviar de presente um lamento
ou melhor
um silêncio
talvez
o que exista em nós
seja sobra
do pouco
espesso
que jamais um dia conseguimos ser.


vou te enviar de presente um suspiro
ou melhor
uma suspeita
eu sei
que não se trata
de um momento
puro
que jamais um dia conseguimos ser.


vou te enviar de presente uma mentira
ou melhor
uma certeza
porque
se escolhe aquilo
que se aposta
mas, sei
que jamais um dia conseguimos ser.

deixa cair
deixa quebrar
deixa.


domingo, 6 de maio de 2012

dez por cento é mentira

engraçado: o coração não devia doer. mas a saudade que eu sinto hoje não é nem de você. porque você é uma coisa que nunca existiu. porque o você que hoje vejo não é você . e o você que não vejo é o eu que um dia eu fui e perdi. você virou outra coisa. eu revirei. e daqui, o que vejo é invenção - minha. 
haverá amor na lucidez?

segunda-feira, 30 de abril de 2012

a dor

"A Dor. Parece uma coisa simples, não é? Às vezes, aparece. Outras, desaparece. Nem sempre tem explicação."

luis filipe cristóvao
a dor

desencana, meu amor. vive.


o paladino e seu cavalo altar

Imprevistos hão de ter
Precipícios pra saltar
Os enigmas desvendar
E batalhas para vencer
Eu posso até chegar quebrado
Porém a chave terei conquistado
E assim liberto você da prisão
Que congelava o teu coração





lucas santtana. o paladino e seu cavalo altar.

sábado, 28 de abril de 2012

quarta-feira, 25 de abril de 2012

segunda-feira, 23 de abril de 2012

quarta-feira, 18 de abril de 2012

florbela espanca

"por que eu não me esqueço de viver... para viver?"

si

abandonou a viagem por não dar conta de si própria e de repente se viu em si da forma mais dura que poderia ser. quantos nãos são necessários pra se tomar as rédeas da própria vida? - ela pensou. e talvez fosse isso: existe de fato um movimento cósmico ou absolutamente natural para que as coisas sejam duras e, com isso, a tarefa é não endurecer com as coisas. a tarefa é encontrar um equilíbrio entre delicadeza e agressividade e conseguir confiar mesmo depois de tanto corte. a tarefa é seguir adiante e ir desamarrando as próprias neuras. a tarefa é seguir fluidez, menos cabeça-cálculo, mais coração-lucidez. a tarefa é respirar fundo e comprar uma nova passagem. a viagem começa quando se volta pra casa. pra dentro. quando si. 

segunda-feira, 16 de abril de 2012

_

"Primeiro olho, depois boca e então um cheiro reconhecido. Tudo chegou com muitos requintes de afeto até que de fato se descobrissem. E aí viram que o certo era mesmo seguirem assim se encostando, planejando o que viria e até temendo em dupla tudo aquilo que poderia não acontecer por causa dos tropeços dos quais ninguém consegue escapar. Seria quase crime tentar colocar entre vírgulas e pingos vis essa coisa costurada de casal, por isso conto só que os dois foram invadidos de pecado. Um bom pecado, uma certa gula de vida que às vezes faz o mundo andar alguns passos.

Por ali foram anos a fio criando vocabulário e olhar em comum. Tempos e tempos e ele lúcido de um jeito bom, em diligente mas prazerosa tarefa de criar espaço seu no tempo. Ela, de tão atravessada por aquele homem e saciada de beleza e sonho, ganhando perigosas feições de mocinha da história. Viveu vida que não era dela, descuidou de si e adiou providências que não perdoam ser adiadas. Arrefeceu em câmera lenta, esperando de tocaia o dia em que ele precisaria falar doído.



O dia chegou e ela ensurdeceu pra não morrer. Não ouviu mala se fechar nem porta ser trancada - submergiu em água salgada e estancou.

Foi muito devagar que voltou a perceber alguns poucos sons e só anos depois desafogou de vez o corpo inteiro. Com a alma enxarcada de um jeito irremediável, mocinha agora andava toda amparada por toalhas e dava pulinhos de susto quando se lembrava que não tinha aprendido a cavar mundo com palavras próprias.



Se alguém inventasse pra ela um destino, era capaz de espalhar com gramofone a novidade por ruas inteiras da cidade. Acontece que o destino de encomenda nunca chegou e aí não houve mapa ou bússola que ajudasse mocinha a desenhar um rumo modesto qualquer. Sozinha, é assim sem eira nem beira - e nem rastro de caminho vislumbra pela fresta da janela.

Mas respira fundo e deixa passar"


maria lutterbach

domingo, 15 de abril de 2012

disfarce

o amor
perdura
mas vou fingir que não
pra que a gente possa viver em harmonia
nessa noite escura

quinta-feira, 12 de abril de 2012

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por atrito 
e concavidades
como pedras
esculpidas
pela curva do riacho
tudo fresco
e renovado
a passagem
incessante
nossas aberturas
os nós e as pontas
um tecido
sem pressa
porque o irregular
demora


                    amor.



julia panadés.

quinta-feira, 5 de abril de 2012

segunda-feira, 2 de abril de 2012

something is missing

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tudo se repete. sem intensidade, sem novidade, sem perspectiva de. se crer já foi demais, vive. se desconfiar já foi demais, vive. deixa ruir. deixa doer. tudo se repete. vive.

poeticamente

"fudeu
não deu, não deu
game over
crazy love
and bye bye."


canção puta - césar lacerda e luiza brina.

quinta-feira, 29 de março de 2012

segunda-feira, 26 de março de 2012

caminho

"tudo que se passa
dentro da cabeça
ah
olho na estrada
vaga
paisagem que acalma
veloz
a mente não pàra
ah
distraindo o tempo"


céu. contravento.

sábado, 24 de março de 2012

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"sempre existirão as horas entre nós"

segunda-feira, 19 de março de 2012

ah, mundo contemporâneo

é preciso não ter vergonha de admirar

bagagem extra

meu coração levo na mala
você até a estação paraíso

pelo sublime

a gente se conhece. e você sabe. sabe que tipo de sorriso eu entoo de forma fácil. eu também sei ver a cor dos seus olhos quando se parecem com a chuva. você não tem economizado silêncio. às vezes, nem aspereza. eu compreendo. eu compreendo que você precise demarcar firme uma distância. parece que se distanciando a gente pode ficar mais pequeninho pra perceber. de longe, talvez, a gente veja. talvez sim.  mas é que, às vezes - muitas vezes - eu não sei muito bem que fazer com o silêncio. às vezes - muitas vezes - escuto o silêncio gritar. e quero gritar de volta.
certa vez, ouvi dizer que, na música, a ausência de som pode ser fermata. entre um verso e outro, pode nascer uma pausa. talvez a gente esteja vivendo uma pausa melódica entre versos. ou vozes. nossas.
ainda que seja invasivo, gostaria de te fazer um pedido: se você, mesmo que em sonho, for capaz de ouvir meu grito, peço que ouse, vez por outra, desrespeitar seu próprio silêncio. compreendo que ele possa dizer mais que todas as palavras do mundo. compreendo que eu deveria ter sensibilidade para aceitá-lo. ainda sim, gostaria de ouvir sua voz de novo. de perto, ainda que distante.
a gente se conhece. você me ouve?