segunda-feira, 25 de novembro de 2013

a margem e o círculo

Mirou o círculo, viu a margem. A margem ainda fazia parte do todo. Parecia muitas vezes ser de fora, mas era ela quem circundava o que parecia ser dentro, o centro. O centro tinha volume, tinha consistência, mas era a margem quem se conectava com o que existia do lado de fora. Para a margem só fazia sentido ser centro se o centro às vezes se deslocasse pra margem e o centro não via isso. Estava muito redondo em si mesmo para enxergar. A margem estava metade centro, metade mundo, fazendo o círculo girar e ser uma engrenagem. Uma engrenagem que se conectava com as coisas essenciais. Uma engrenagem viva.



quinta-feira, 14 de novembro de 2013

meu coração está apontado pro oceano e eu te espero todos os dias


balde verde


estranho é: em momentos de angústia e/ou desespero, uma imagem louca me vem à cabeça: me imagino colocando minha cabeça num balde verde, lentamente, sem pressa. o motivo dessa imagem tão louca? jamais saberei. sei somente que momentos de angústia e/ou desespero têm sido frequentes em mim. e isso tem me feito comprar mais baldes. e verdes. 

é preciso encontrar uma nova geometria para a forma de lidar com os outros. alguma coisa em mim tem me feito mais raivosa, mais insatisfeita. peço de olhos fechados, todos os dias, que as escolhas sejam bem feitas. que o coração seja honesto e guie. 
ando cansada do mesmo teto. do mesmo chão. belo horizonte tem me sido absolutamente cansativa. não quero seguir os mesmos passos e a verdade é que nunca pertenci a esse lugar. não pertenço à nenhum lugar. não quero pertencimento, quero descoberta. não quero porto, quero amor. não quero mistério, quero luz.
construir tem me sido mais valioso do que entender.

não quero entender ninguém. ser é tão mais difícil. estranho é: em momentos de angústia e/ou desespero, me imagino colocando a cabeça num balde verde. a verdade é que seria muito mais fácil me esconder num balde por alguns instantes ao invés de enfrentar o dia. afogar um pouco, renascer depois, o mundo é um grande fluxo sem nenhuma lógica. 

mergulho.
mergulho.
mergulho.

terça-feira, 29 de outubro de 2013

viagem pra dentro de si

queria ter quebrado todos os copos da casa, mas não quebrou. precisava de alguma forma administrar aquela saudade, aquela falta que ia consumindo todos os minutos e dias e semanas e nunca deixava o pensamento completamente livre, completamente solto. havia se permitido ao amor de uma maneira única, acreditava profundamente naquela história que vivia, queria mergulhar naquilo tudo intensamente, pra vida toda, mesmo que momentos de desilusão e sofrimento fizessem parte - pois sempre fazem. mas agora o amor se encontrava longe e a desbravar o mundo numa configuração ímpar e ela, em casa, sem dinheiro mas cheia de sonhos, só tinha o anseio de desbravar a si mesma. desbravar a si mesma é tarefa pra poucos, e ela sabia disso. e assim buscava enfrentar a solidão de frente, como se aquele monstro não fosse real - talvez nem fosse monstro. passava os dias a regar as plantas, a cozinhar, a limpar a poeira da sala, a sonhar com o desconhecido, a cuidar da voz. preparava o corpo e a casa, e guardava em si a certeza de que quando seu amor estiver de volta, ela será sim uma pessoa melhor. e ele também. pois ele terá mergulhado no mundo e ela terá feito uma viagem pra dentro de si. e ali, aquela casa, aquele corpo, aquela voz, nunca mais estariam apoiados numa plataforma frágil. e de olhos bem abertos, ela sabia: "quando meu amor voltar, eu poderei amar sem medo. e ele também."

terça-feira, 15 de outubro de 2013

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

inverno 2

parece que recomeçou o inverno. é outubro, a palavra do dia é primavera, mas o frio está descomunal. aqui na casa é silêncio. e, no silêncio, busco dar ouvido ao que se faz dizer em mim. milhões de perguntas na cabeça, milhões de desejos, algumas ansiedades, alguns medos. vontade que você volte e volte logo. o ano que vem é um mistério, esse mês é um mistério, tudo pode mesmo acontecer. dentro de mim, uma revolução diária. ainda assim, vontade de alguma paz e alguma calmaria, do brilho inocente no olhar de uma criança. as crianças nunca estiveram tão presentes nas palavras e nos desejos. erê trazendo luz, enquanto brilho no escuro. enquanto morro de saudade, eu vivo.

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

primavera, meu amor


pequenos devaneios de uma semana que começa

sob todas as instâncias: o corpo treme. quando respira, diante de uma notícia de impacto, no amor, treme. um alarme, um alarde, um desejo: o corpo treme. pulsa. para ouvir, basta estar. preciso inventar um novo sentido para a palavra abandono. preciso capturar o silêncio. preciso ver todas as capacidades da alegria. preciso ter eu, antes que seja mim. o que era sólido se torna líquido: escorrega pelos dedos, mas nunca se perde. o instante presente é uma descoberta - constante. ainda sou aquela que atravessa uma passarela com uma gaiola e um buquê de margaridas nos braços. é primavera, mas as flores despencam sem avisar. alguém virá recolher as pétalas.

terça-feira, 1 de outubro de 2013


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amor é você.

instante presente vivo

aprendendo que um dia é de cada vez. planejar sim, obcecar não.
aprendendo que amor que é amor é. e ele tá aqui: quentinho.
aprendendo que vale a pena se esforçar pra só estar perto só de quem te faz bem. mesmo que isso te custe alguns cortes. a saúde muito importa.
aprendendo que o tempo é uma coisa muito esquisita. e que às vezes a gente se sente longe, mesmo quando perto.
aprendendo que envelhecer é estranho. e esse ano é um dos mais intensos que já vivi na vida.
aprendendo que não me conheço. nem sei o que posso. só sei que posso. e estou indo. de algum jeito, estou.


segunda-feira, 9 de setembro de 2013


instável

tudo roda
tudo roda
tudo roda
tonta
todos os dias
o meu corpo
revira.

julia não está aqui

julia não está aqui. julia e a janela, uma vidraça, alguma passarela, um vestígio, um tempo. julia vestida de nada, de saudade, de flores, de medo adiantado. julia insegura atravessando o portão. julia diante da porta, comendo algum doce, desejando o mundo, julia sozinha, o quarto vazio, a mesma casa, a imensidão. julia na cama da infância, julia e seu amor que parte - se deus quiser, ele volta - julia sem volta, julia sem vinda. julia ainda, julia não está aqui. julia não está no cobertor, na pele, nas cordas do violão, nem nos ossos das costelas. julia respira, julia não está no silêncio. julia é julia quando é voz. julia é a voz. julia não está aqui. julia não está do lado esquerdo do peito, julia habita o coração de alguns, a mágoa de outros, julia não fala sempre a verdade. julia esconde, julia omite, julia cala. julia não é julia quando cala. julia não está aqui. a melancolia, a tensão, julia e o medo das julias, julia e todos os amores que a abandonam, julia e o medo do abandono. julia e a vontade de ser mãe, julia e a mãe que tudo habita, julia e o corpo - complexo enigma. julia e todos aqueles que a traíram, julia e as coisas esquecidas, julia e o engano, a inocência, as olheiras nos olhos fundos, o seio direito maior que o esquerdo, o sufoco. julia não está aqui. julia e a morte, julia e a vida, julia e o pai sentado na cabeceira da mesa, julia e os pensamentos que matam, julia e os olhos, os sonhos. julia não está aqui quando acorda. julia e a rua, julia e as paixões, os amores impossíveis, a eterna aflição, a urgência. julia e tudo que urge. julia veloz, julia percorre as cidades, os países, os continentes, os céus, julia e as crianças, as vontades que ficaram por dizer, julia não está aqui. julia não está aqui. julia não está aqui. julia e as dúvidas, o futuro incerto, a opção pelo sim. julia e a alegria, a alergia, julia sozinha tendo que se a ver com a própria questão. julia não está aqui. julia e o nó da questão. julia não está aqui. julia e a raiva, o grito mudo. julia não está aqui. julia e a força, a potência, a delicadeza. julia não está aqui. por delicadeza perdi minha vida. julia não está aqui. pra delicadeza dedico a vida. julia não está aqui. do lado de lá, julia. julia inteira. julia e o erro. não está aqui. julia e o berro. julia e o berro. julia e o berro. 

terça-feira, 20 de agosto de 2013

delicadeza

"sussurrava o vento coincidente.
silenciosos e em química,
encontramo-nos neste setembro.
é primavera!
e houve o toque.
a pele.
houve o impávido e suave acaso à porta,
o inesperado presente.
instantes.
o inevitável desejo à espreita:
revelação.
sentido antigo que esvai, sinto.
sentido antigo que esvai, vai...

existem flores do lado de lá,
talvez existam de cá também.
eu em busca de mim e da leveza impalpável,
ao encontro do meu corpo.
tu em busca de ti e da tua verdadeira face,
dos teus verdadeiros gestos,
do teu mais sincero e estúpido gozo.
límpido!
quero-te em pitadas. quero-te limpa. quero-te tua. 
queira-me como podes, ou como queres, ou como podes querer-me. 
nu.
queiramo-nos como pudermos ser: 
leves.

não há urgência. mas há sinais.
o corpo fala, diz muito.
tem vezes grita.
urra! _________,
sentido vem.
vem...
palavras-tom.
som!
queira-me em silêncio. querer-te-ei assim também.
não me prometa muito,
não me prometa nada,
mas lhe prometo vida.

apenas venha fresta e olha-me nos olhos,
beije-me o teu beijo vermelho, a tua boca vermelha,
os teus lindos lábios vermelhos.
suja-me todo e sinta-me em teu corpo.
tocar-te-ei sem cócegas, então,
como tocam o céu as andorinhas,
como os mais puros acordes arranham-te as costelas.
tocar-te-ei as entranhas até o gozo mais estúpido e límpido da tua alma,
vivo.
e olhar-te-ei enfim como olham os olhos mais possíveis desse impávido e suave acaso:
livres.

sinta-se no instante, deixe se impor sobre o tempo.
o tempo. o tempo. o tempo.
relógio-tempo.
entrega-me um conto e devolver-te-ei uma carta.
sinta-te em teu corpo e suja-te toda com os teus dedos,
olha-te em teu beijo e beije o teu próprio rosto com as tuas palavras doces,
a tua boca vermelha,
os teus lindos lábios vermelhos.
despeça-se viva e toque-se na medida mais estreme da leveza encontrada.
me encontrarás por lá também.

sintamos os sintomas.
sintamos.
sintomas.
uma flor do lado de cá,
uma rosa do lado de lá:
papeis em branco a preencher.
deixe impor-se tácito o tempo
no tempo, no tempo,
relógio-tempo.
e seja como for mesmo no breu do presente:
__________, nova!

escorra-me os teus beijos vermelhos, os teus lábios vermelhos,
a tua boca vermelha, o teu ventre vermelho.
escorra-me toda a delicadeza e a tua verdade impregnadas no teu corpo,
jorra-me!, goza-me!,
goza-me todo!
todo!
delicadeza!
limpa-te e goza-me o teu gozo mais estúpido e límpido sem a pressa de termos,
ou sem a pressa de sermos,
ou de tocarmos as nossas entranhas impalpáveis.
aceitemo-nos sem os espinhos do relógio-tempo no que nos há de melhor por agora,
impávidos.

chamemo-nos suave acaso, ao acaso, e sejamos então.
e enfim.
a urgência mata.
mata.
mata.
goza-me inteiro, 
e por agora.
______________!
dois pontos:

---"

(leonardo beltrão)

amor

"vou aprimorar meu jeito de existir. só pra te ver feliz."

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

mundo nós

o coração às vezes sufoca e tenho medo daquele vazio de sempre. porque sei que você precisa ir. por algum motivo que sei que não compreendo, sei que você precisa ir. precisa mergulhar nesse mundo inteiro pra que alguma coisa nova venha, algum brilho, um fulgor. precisa ir porque a vida é curta e é preciso ir sem medo. e, sim, às vezes sinto medo. mas tenho em mim uma fé enorme que você vai voltar. que estamos juntos. que nosso amor é maior. que nosso tempo é só nosso e não estamos aqui à toa.
mas dói. dói às vezes não saber. dói sentir que você voa enquanto eu mergulho. mergulho em você porque acabei vindo. você falou preu vir e eu vim.
mas amor é uma coisa tão maior que apego. tão maior que o ciúme que às vezes me toma. tão maior que o medo. o amor é maior. e minha vó sempre me disse "sorta, que vorta."
ninguém é dono de ninguém. e se estamos aqui hoje é pela escolha. pelo desejo. pelo que é nosso.
quero que seja leve, que seja doce, que seja lindo. 
nosso amor vai cruzar o mundo e dar a volta por cima. acima de nós, só luz.

quinta-feira, 8 de agosto de 2013

pelo teu caminho eu sigo


Pelo teu caminho eu sigo
mas no meu passo vou
abres-me estradas
eu abro-te os braços
no fim da rua, sei,
estás comigo.

Pelo teu caminho eu sigo
demoro o que demorar
mostras-me a terra
eu mostro-te o coração
no fim da rua, sei,
estás comigo.

(Luis Filipe Cristóvao)

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

mundo

sei que vais cruzar o oceano,
o mundo todo na procura desvendar,
não sou quem vai te impedir, amor
de mergulhar tão fundo nessa mansidão
pouco do que sei é da vontade
que toda gente tem de sempre apostar
não sou só espera, sou também calor
daqui eu vejo nossa vida se cruzar
porque eu te amo, eu te amo, eu te amo
a gente sabe que o que é nosso é maior
toda a saudade vai nos conceber
em pouco tempo é só você, e eu, nós, só.

:::

amor,
sonhei com o mar e nossos desejos maré.
vai dar tudo certo. nossos sonhos estão pintados de azul.
a-mar tem que ser leve que nem o oceano.
o mar vai ser nosso elo. já já, nosso mergulho.

domingo, 4 de agosto de 2013

aqui

fazer o exercício constante de se manter no instante presente

eu sou o amor da cabeça aos pés


terra

"de algum modo tudo é feito de terra. um material precioso. sua abundância não o torna menos raro de sentir - tão difícil é realmente sentir que tudo é feito de terra. que unidade. e por que não o espírito também? meu espírito é tecido pela terra mais fina. a flor não é feita de terra?
e pelo fato de tudo ser feito de terra - que grande futuro inesgotável nós temos. um futuro impessoal que nos excede. com a raça nos excede.
que dom nos fez a terra separando-nos em pessoas - que dom nós lhe fazemos não sendo senão: terra. nós somos imortais. e eu estou emocionada e cívica.

clarice l. em 'a descoberta do mundo', no texto 'doçura da terra'.
(enviado pela querida amiga julia panadés)

sexta-feira, 19 de julho de 2013

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não sei dizer
nem medir
tem dia
que sou pura melancolia.

segunda-feira, 15 de julho de 2013

presente

não fiz nada hoje.
fiquei esperando coragem pro passo. esperando deixei o tempo passar. contemplei o tempo.
lá fora parece que está frio. aqui dentro está confuso. quanta possibilidade pra uma única vida. quanto tempo pra se gastar e se perder. quanto pra viver, se sou só uma?
milhões de possibilidades, um mundo ao redor. a certeza forte de que ter medo é o maior dos erros. nada garante o dia seguinte. nada garante eu.
respirar fundo e manter o peito aberto - agradecer ao presente. cada instante é brilho.

domingo, 7 de julho de 2013

amor 2

"amor é quando o coração aplaude"

michel melamed

laço


alice

disse, alice, não sei que rumo tomar. se é pra direita, pra esquerda, minha cabeça quer fazer revolução, meu coração, não. disse, alice. alice não sabia se queria dia ou se queria noite. alice estava cansada de ser explorada no seu trabalho. mas alice também não tinha lá muito jeito pra trabalhar. alice tinha uma espécie de abismo no peito, uma ansiedade constante, um desejo tão grande de viver que às vezes quase sufocava a vida. não se desespere, visse, alice? ela escutava sempre. sempre tinha alguém sensato para lhe dar conselhos sobre ser calma, mas a verdade é que alice não aprendeu a ter calma, nem a ser serena, nem a ser plena. alice tremia, vibrava, urgia, desejava quase que sexualmente o mundo. era o impulso primeiro, pura invenção, apocalipse, vermelho, explosão, puro amor. alice gostaria de aprender a meditar, de observar as pessoas sem emitir uma opinião imediata sobre elas, de mastigar 20 vezes a comida antes de engolir, alice gostaria de fazer yoga, de falar clichês, de ter histórias da moda, de ser pós-moderna, quase frígida por não se abalar com nada, alice não gostaria de ser tão sensível, de chorar tanto, de ser tão à flor da pele, de explodir nas horas erradas, de engolir sapo, de suar as mãos, alice gostaria de ser organizada, de ter tudo com cheiro de hidratante cítrico, de controlar a alimentação, de conseguir parar de beber vinho antes de passar mal, de não se levar tanto a sério, de ser uma senhorita elegante. alice gostaria de ser simples, óbvia, trivial, comum, cara pálida.

mas alice urgia, urgia, urgia, urgia.

domingo, 23 de junho de 2013

de amor e tesouras

(relendo cinemamor. texto meu, de 2009).

Cortava os cabelos todos os dias.
Não porque havia uma necessidade concreta de cortar os cabelos. Também não se tratava de um vício ou uma patologia (pobres cabelos!), nem sequer de uma obsessão. Os cabelos sempre estiveram devidamente arrumados e interessantes, mais do que deveriam.
Cortava os cabelos por causa dele.
Todos os dias acordava, lavava a cabeça, secava fio por fio com a toalha e escorria o dedo pela penugem toda, atrás de algum local que pudesse ser removido. Qualquer coisa serviria: uma imperfeição, uma ponta dupla, um cacho desfeito, uma idéia sem lugar. E assim, com a imperfeição concreta no peito, ia direto ao salão de beleza, se deparava com ele e pedia pros fios serem aparados.
Ele ria inteiro, todos os dias assim. Não se demorava, sempre pontual ele, o grande cabelereiro, e na fatia precisa do Tempo cortava o fio dissidente ou imaginário, justificando sempre a necessidade do cuidado com o couro cabeludo e assumindo a postura de um profissional legítimo.
Ela saía satisfeita e quase magoada de tão satisfeita. Passava o resto do dia preocupada com a possibilidade dos fios acordarem perfeitos no dia seguinte.
Nunca acordaram. E assim, por anos e anos, a rotina era a mesma: acordar, lavar a cabeça, secar com a toalha, escorrer o dedo pela penugem e identificar a falha. Ir até ele. Resolver o problema. Voltar pra casa satisfeita. Preocupar-se com o dia seguinte.
Cortava os cabelos todos os dias. Sabia que essa era a maior demonstração de amor possível ao longo dos tempos. Entregava a cabeça para ele e ele, por sua vez, cortava os excessos.
Tanto tempo se passou que os cabelos foram pouco a pouco se acabando. Até que um dia, o impensável: acordou careca.
Foi um momento tristíssimo da vida. O afeto havia se esgotado na sua completude. Não haviam mais cabelos, nem cabeças, nem encontros. Não haviam imperfeições. Portanto, não havia amor.
Preocupada com o futuro do seu romance resolveu adquirir perucas. Perucas francesas, persas, italianas, caríssimas. O must do must da cabelereira universal. Estilo paixão hollywood.
Logo depois das novas aquisições, resolveu retomar sua rotina. Não conseguiu. A cabeleira hollywoodiana não tinha falhas. Não se encontrou mais com ele. O maior amor do mundo havia terminado pela preocupação com excessos. Fim.
Sonha com ele todas as noites. Nos sonhos, o balançar perfeito de longos cachos dourados. Ele, com as mãos cobertas de tesouras de ouro, ri inteiro.

E ali mesmo amam-se únicos.

:


(foto: mariana cabral)

domingo, 2 de junho de 2013

amor

porque eu tinha muito medo antes de te conhecer. e, antes de te conhecer, uma espécie de abismo habitava meu peito, um silêncio fundo, como parecem as patas de um cavalo a pisar firme à beira mar. e antes de te conhecer tudo se fazia sólido demais, rígido demais, vazio demais. e eu ria e ria e ria a zombar sempre do amor, como naquela música em que se canta "hoje eu tenho apenas uma pedra no meu peito", a achar graça das novelas e dos poetas e das baladas, pois tudo parecia distante, absurdo e vazio de sentido. e eis que te conheço e um sentido se faz. um não: muitos. e um entendimento forte - não este entendimento que se faz balançando a cabeça, tipo quando a gente era adolescente nas aulas de matemática - mas um entendimento que não se faz com palavras, mas com algo muito mais potente, mais profundo, mais real, mais interno, mais, mais, mais. entendi o que poderia ser o amor. e digo "poderia" porque gosto da sensação de descoberta permanente, como se o amor fosse mesmo essa coisa toda que não se fecha em um conceito e sempre se procura, mas, com absoluta certeza, quando é, se afirma. e hoje posso afirmar. e gosto mesmo de dizer hoje porque não existe presente maior do que o próprio presente. e é nele que estamos agora. vivos.
e hoje me sinto assim, como uma célula a cada dia mais viva que floresce e quer crescer. você por perto, sim. e respiro inteira, forte. o abismo virou ar. 

_ _ _ _ _

às vezes tenho desejos de nuvem.

sábado, 25 de maio de 2013

time is running

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"para além
do funcionamento pleno
o fracasso é também
um modo de ir."

(lindas palavras de julia panadés)

domingo, 19 de maio de 2013

chega de saudade

falta sangue, falta suíngue, falta sal. que a crítica não toque na poesia, mas falta calor nos pés, no nosso chão. falta chute no balde, falta raiva, falta aposta, falta mergulho. quem foi que disse que a arte tem que seguir bula? sigo atenta com um medo imenso de quem prega ensinamentos e não permite que a matéria viva do poema, da canção, da dança, da voz, da palavra flua e seja e nasça. pois não escolhi ser artista pra ser burocrata e isso, longe de ser negligência ou preguiça, tem a ver com um estado de ser. um estado de abertura. e é por isso que não acredito em medidas restritivas, assim como não acredito naquilo que de tão gélido não alcança. não me interessa a técnica sem fulgor. não me interessa o talento sem profundeza da alma. não me interessa arte sem generosidade. generosidade de troca, de humanidade, de pessoa. e tenho um desprezo enorme pela impostura, pelo abuso de poder e por quem compreende mal os direitos autorais. e é também por isso que não acredito em salões fechados empoeirados na tradição de um conceito, enquanto o mundo lá fora explode e urge. não me interessam as palavras neo-fofas quando o som ao nosso redor é o grito. não me interessam terminologias que mais ditam do que tocam, enquanto o que é realmente urgente é um novo olhar. olhar prum novo tempo, do aqui e do agora, olhar brasileiro, sul-africano, russo, tcheco, oriental, indiano, escocês, indígena, australiano, polonês, chileno, mexicano, mas que clame por uma sensibilidade potente e honesta. que o olho que olha tenha firmeza. e veja a vida. que não é pouca coisa.


segunda-feira, 13 de maio de 2013

segunda-feira, 29 de abril de 2013

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Não te conheço
mas conheço
a forma como ecoas
no meu coração.

luis filipe cristóvao

brilha suerte


gerenciando vazios


Hoje pensei sobre gerenciar vazios e pensei nesse buraco que carrego aqui dentro. Esse tamanho de incerteza que me conduz para o mais incerto de mim mesma. Essa certeza inerte, essa vontade de viver mais do que posso, de experenciar um pouco de tudo e de ter sempre a sensação de se fazer muito pouco. Sobre o amor mesmo, aprendi nada. Perdi todas as pessoas que amei. Hoje sei que é preciso gostar com distância, mas me recuso a querer ser equilibrada demais. Sinto falta de algumas paixões, apesar delas me darem febre. Às vezes vazio é só fome. Ou sede. Ou vontade de criar problemas. Sei que a minha inquietude de hoje tem a ver com o pânico constante de me tornar uma dessas pessoas que simplesmente tiram o lixo da casa, levam o cachorro pra passear e comem pizza aos sábados no shopping. Vivo constantemente sobre o paradigma da urgência. Querer que cada instante seja único é o que me faz ser tomada pela ansiedade. E assim vou atropelando as coisas. Tropeçando nas pessoas. Tropeçando em mim. Não posso querer ser mais do que não fui. Assim como querer ser mais é apenas a tentativa de se querer ser alguma coisa. Não sei se sou alguma coisa, não sei mesmo. Mas sei que estou tentando. E tentar ser vale mais do que se colocar em um lugar de estabilidade. Eu sou aquilo que não prometo ser e a cada minuto que se passa me desconstruo nesse risco enorme que é a vida.

quinta-feira, 4 de abril de 2013

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-----<>-------!!!

a vida é mesmo uma coisa muito esquisita. às vezes dá uma curva que faz a gente dar uns passinhos pra trás. e é preciso aceitar o movimento pra seguir em frente. talvez seja um susto, daqueles que fazem a gente saculejar e mudar alguma coisa que já não caminha assim tão bem. talvez seja apenas uma guinada prum grande avanço.

respira fundo.
feche os olhos.
volte pra si.
recorde dos desejos mais importantes.
deseje.
respeite-se.
reveja-se.
veja-se.
mergulhe.
assuma.
aposte.
volte.
vá.

"viver não é parar. é continuamente renascer."

segunda-feira, 1 de abril de 2013

free as a bird


ar puro

mencionou qualquer coisa sobre o tempo e os desejos. molhou os lábios, bebeu um gole de cerveja e saiu por aí a caminhar sem esperar coisa qualquer. fazia muito tempo que não se sentia assim, sem esperar coisa alguma. de alguma forma ia trombando com os desejos e com os acontecimentos como alguém que tromba com alguma coisa esquecida no fundo de um guarda roupa, ou na poeira de uma lembrança bem velha. tinha afeição pelas coisas velhas e de repente olhava os amigos como se todos fizessem parte de um espetáculo, com tramas e dramas tão reais que não pareciam críveis. nada parecia crível, mas tudo parecia muito natural. sentia, pela primeira vez, que algumas coisas estavam dando muito certo. havia adquirido uma espécie de segurança ou de paz interior que não entendia bem se tinha sido conquistada com a análise ou com deus. acreditava em deus? não sabia - e nem isso mais a afligia. tinha a paz de quem habita o instante presente e vive sem querer mais que o desenrolar das coisas possam dar. não havia se tornado uma pessoa apática, mas talvez estivesse aprendendo a focar sua energia. ou talvez estivesse simplesmente feliz por ser capaz de ser uma pessoa. ser uma pessoa era tudo o que queria ser, sem promessas para o futuro, mas na certeza de habitar com toda a força a preciosidade do momento presente. não queria vender loucuras pro mundo, mas conservar o melhor lado de sua loucura. colocar o desejo no lugar certo. e respirar. sem apneia. 

terça-feira, 19 de março de 2013

segunda-feira, 18 de março de 2013