segunda-feira, 24 de setembro de 2012

saindo de cena

era mulher e isso fazia com que tocasse, frequentemente, os extremos. e não é porque não gostasse de equilíbrios, mas talvez é porque permitisse escorrer vida por entre os dedos, em volta das palmas das mãos, através dos olhos, ao redor da face. escorria vida, mas era nítida a sua dificuldade em existir.

possuía uma espécie de ingenuidade, mas não era boba. ao contrário. sabia desde muito cedo que a vida acontecia quase sempre no lidar com as desilusões. havia conhecido o abandono antes mesmo de nascer, elemento importante da sua árvore genealógica. também sabia de cor a ausência das respostas dos homens - e esse sim era um fato que, por vezes, a atormentava.

mas era mulher e existia. e perguntava. e tinha voz. falava muitas vezes pras paredes, realizava conversas imaginárias com os outros, principalmente aquelas que nunca conseguiria dizer para os verdadeiros destinatários. cantava pro nada, de olhos fechados. 

em matéria de amor, era quase sempre passada pra trás. talvez por ser ingênua. talvez por querer quase sempre, se desafiar.

conquistar era um modo de afirmar sua existência. uma vez a conquista negada, o coração se dilacerava pouco a pouco. e a vontade de existir era colocada em cheque. se apaixonava frequentemente, mas reconhecia a dificuldade em esquecer. se apegava às pequenas coisas, como se elas fossem alguma razão de vida. que bobagem.

teve um dia em que acordou cedo. olhou pro dia que atravessava a janela e viu um ano inteiro que tinha se passado quase sem perceber. um ano inteiro na tentativa de recuperar um amor que nunca existiu. um ano inteiro em silêncio, sem escolha, sem pulso, sem corpo. levantou-se da cama, tomou um longo gole de café, se aproximou da janela. tava ali. olhos novos pra coisas velhas. ou o contrário. tanto faz.

se aproximou da janela e viu de camarote todas as suas ilusões. o castelo construído, o desejo criado, a fantasia. aproximou os olhos do mundo e enxergou de perto a sua desimportância. era nada. assumiu a derrota.

a vida às vezes nos convoca à solidão. e, por alguma razão, ela estava ali, diante da janela, sendo convocada a só ser. 

o corpo saberia seguir depois de um longo período de silêncio. em um instante de distração, aquela mulher começaria a dançar. e enxergaria, sem medo, um outro mundo através da janela.

olhos atentos, abertos, pés fincados na realidade - matéria vida essa tão fina.

era mulher e existia. e tinha voz. o grito viria mais tarde. virá.

Um comentário:

Anônimo disse...

E eu não seria diferente, mesmo que pudesse. :-)