terça-feira, 1 de julho de 2008

do se dizer adeus

Esperar por você é esperar Godot.
Seus olhos, seu cheiro, seu medo, sua boca. Não passam de ilusões que têm me mantido com alguma perspectiva.
Sem perspectiva, vejo de perto. Sua condição será essa, sempre.
Inútil esperar mais dos seus sorrisos e abraços, sendo que eles jamais passarão de sorrisos, e de abraços.
Aos poucos percebi que você nunca virá.
Que rufem os tambores no silêncio do seu nome.


Não te espero mais.

quarta-feira, 11 de junho de 2008

dia hoje


Amar
Dar tudo
Não ter medo
Tocar
Cantar
No mundo
Pôr o dedo
No lá
Lugar
Ligar gente
Lançar sentido
Onda branda da guerra
Beira do ar
Serra, vale, mar
Nossa banda da terra é outra
E não erra quem anda
Nessa terra da banda
Face oculta, azul do araçá

(...)

A outra banda da terra, Caetano Veloso

quarta-feira, 21 de maio de 2008

menina sem vento

-- Mamãe, estou com falta de ar! – a menina correu com as saias amarelas que balançavam naquilo que ela mesma dizia que sentia falta. A mãe, aflita como sempre ficava com qualquer problema, correu de volta em direção às saias amarelas da filha.

-- Falta de ar, filhinha? Como assim falta de ar? – Como assim falta de ar. Como assim falta de ar!? Falta de ar, oras. Uma menina de oito anos jamais saberia responder com precisão um “como” desses, mesmo que essa fosse uma menina que, como todas as outras meninas, gastasse seu tempo pensando a respeito das coisas.

-- Falta de ar, mamãe! Falta de ar e pronto. – Falta de ar e pronto. E ia ela, na mais pura incompreensão daquele período quase-fim da infância, dando batidinhas no peito, ficando ainda mais branquinha do que era, com os olhos menorzinhos ainda do que eram. A mãe aflita assoprava e tratava logo de preencher todo o ar da sala da casa com perguntas recheadas de “como”. Como assim? Como no peito? Como vamos resolver isso, meu Deus do céu? E agora? Melhorou um pouco? Como está?

A menina nada respondia e continuava com as batidinhas no peito. Até que.

-- Passou.

-- Passou? “Como” passou?

-- Passou, mamãe. Passou e pronto.

A mãe se aborrecia muito com a rapidez e a praticidade da menina responder as coisas. Para ela todas as respostas deveriam ser mais profundas que um “pronto” e uma mocinha de oito anos não podia continuar sentindo faltas dessa espécie – ainda mais que essa não era a primeira vez. A mãe, tomando um pouco de ar pra ficar mais calma, atacou.

- Filha, preste atenção. Preste muita atenção: você precisa me explicar melhor essas faltas que você anda tendo... Isso não pode acontecer o tempo todo, não pode. Falta de ar? Nessa idade?

-- Tá bom mamãe.

E foi brincar, já mais amarelinha, da cor das saias.

segunda-feira, 21 de abril de 2008

vôos


essa mania de esperar por quem não conheço

domingo, 23 de março de 2008

pequena abertura para o deserto



"Um girassol se apropriou de Deus: foi em Van Gogh"

sábado, 9 de fevereiro de 2008

de todas as cores

Estranho desejo firme. Longe, puro, concreto, possível. Inapropriado, duro, aço, vasto. Forte, maior que pude. Você, nada mais, silêncios guardados em olhares cruzados. Pavor, receio, êxtase. Saudade que fisga, loucura, falta do que não existiu. Interlíngua, contato, corte que perfura a pele. Marca eterna, cicatriz, lembrança, sentido, tatuagem. Aperto no peito, asas que batem forte em direção ao Atlântico. Voar até você, esquecer-me do resto. O resto, também incerto, te quero e te vibro e te marco e te guardo e te embalo e te coloro de todos os bons fluidos. Preenche-me de acalanto, marca neon. Fez-se um carregamento de mim no instante já.

quarta-feira, 26 de dezembro de 2007

compreende?



Minha vontade permitida proibida se permite se perde diante dos seus olhos e a minha não coragem de conseguir dizer tudo me faz dizer nada, calar-se em vergonhas e palavras soltas

sábado, 15 de dezembro de 2007

para um arcanjo sem volta

Depois da tempestade, de cada um ter seguido seu rumo, segue talvez uma saudade, ou uma talvez vontade-cara-de-pau-tímida de ligar só pra saber como você está. Sobre a saudade, posso dizer que ela não se relaciona ao amor ou à volta, esses, sem volta, sem saudade. O que posso tentar descrever aqui é uma espécie de falta, uma lembrança forte daquela presença e, talvez, uma negação humana de não se acostumar com o silêncio e com a distância de duas pessoas que já foram tão próximas e que, de repente, passaram a habitar vazios distintos. Vem daqui um desejo envergonhado, quase escondido, já que a dor passou e, agora, quem sabe, felicidade, paz, de trocar mais de "duas ou três frases sarcásticas" e de ter um carinho saudável, um pelo outro, outro pelo um, ambos; mesmo depois dos tombos, dos escorregões, das batidas fortes que nos atormentaram por noites e domingos.
Sinto uma vontade inexplicável de perdoar, mesmo sabendo que eu ainda não consigo, de fato, perdoar. Sinto vontade de pedir perdão, mas, também, inútil. Desejo o bem, de verdade. Até mesmo naqueles momentos em que o sarcasmo aparece, entre os amigos, entre os desconhecidos, em certas falas perdidas no meio da noite ou na falta de um assunto melhor. Porque ter raiva também é humano, não é? E errar também, frase quase banal. E também perdoar (e também pedir perdão).
Então talvez agora realmente seja o momento de buscar algum tipo de leveza que me conforte, que me acalme. Tenho mantido o lado esquerdo do peito em silêncio, não em seu nome, não em sua lembrança, mas para que ele se recomponha de forma saudável, tranqüila. E para que assim, depois de refeito, possa se abrir outra vez, sem vergonhas, sem medos, coração aberto para novos mergulhos. O silêncio não deve assustar, é pausa pra respiração.
Como num suspiro, vontade de te agradecer por ter sido meu primeiro tudo. Primeiro amor, primeiro salto, primeiro mergulho, primeiro carinho, primeira vontade, primeira falta, primeira mágoa, primeiro tombo. E por ter vivido primeiros tão bons momentos, ter me feito acreditar no amor e querer entregar pra você todas as coisas que todos os bobocas sentimentais desejam entregar para essa palavra tão cheia–vazia de significados: amor. Meu primeiro: queria pra você todas as alegrias e para mim nenhuma alegria seria maior do que estar com você.
Sei que caminhei até meus descaminhos e de nada me arrependo, nem mesmo de ter tropeçado tanto depois do depois. Se o amor é assim, como já disseram, intangível, talvez precise de silêncios espessos para se recompor. Mas a tal coisa, que já foi tão dita e tão pouco entendida, continuará persistindo até o fim dos dias e, ainda bem, creio ser o amor a cura de todas as coisas.
O amor se transformou, mesmo que se confunda. Virou outro. Metamorfose como de lagarta à borboleta.
Sem falsidades, mando bons fluidos para você. Desejo que seus olhos continuem se alargando por aí e que seu peito não se cale. Nunca.
Sinto falta da sua presença ou talvez, da presença daquele colorido que se dará de outras formas e cores a partir de agora. Desejo o bem, de bem e que, um dia, um dia sim, nos abraçaremos com verdade, com a mesma verdade daquele abraço que um dia nos uniu.