sábado, 9 de fevereiro de 2008

de todas as cores

Estranho desejo firme. Longe, puro, concreto, possível. Inapropriado, duro, aço, vasto. Forte, maior que pude. Você, nada mais, silêncios guardados em olhares cruzados. Pavor, receio, êxtase. Saudade que fisga, loucura, falta do que não existiu. Interlíngua, contato, corte que perfura a pele. Marca eterna, cicatriz, lembrança, sentido, tatuagem. Aperto no peito, asas que batem forte em direção ao Atlântico. Voar até você, esquecer-me do resto. O resto, também incerto, te quero e te vibro e te marco e te guardo e te embalo e te coloro de todos os bons fluidos. Preenche-me de acalanto, marca neon. Fez-se um carregamento de mim no instante já.

quarta-feira, 26 de dezembro de 2007

compreende?



Minha vontade permitida proibida se permite se perde diante dos seus olhos e a minha não coragem de conseguir dizer tudo me faz dizer nada, calar-se em vergonhas e palavras soltas

sábado, 15 de dezembro de 2007

para um arcanjo sem volta

Depois da tempestade, de cada um ter seguido seu rumo, segue talvez uma saudade, ou uma talvez vontade-cara-de-pau-tímida de ligar só pra saber como você está. Sobre a saudade, posso dizer que ela não se relaciona ao amor ou à volta, esses, sem volta, sem saudade. O que posso tentar descrever aqui é uma espécie de falta, uma lembrança forte daquela presença e, talvez, uma negação humana de não se acostumar com o silêncio e com a distância de duas pessoas que já foram tão próximas e que, de repente, passaram a habitar vazios distintos. Vem daqui um desejo envergonhado, quase escondido, já que a dor passou e, agora, quem sabe, felicidade, paz, de trocar mais de "duas ou três frases sarcásticas" e de ter um carinho saudável, um pelo outro, outro pelo um, ambos; mesmo depois dos tombos, dos escorregões, das batidas fortes que nos atormentaram por noites e domingos.
Sinto uma vontade inexplicável de perdoar, mesmo sabendo que eu ainda não consigo, de fato, perdoar. Sinto vontade de pedir perdão, mas, também, inútil. Desejo o bem, de verdade. Até mesmo naqueles momentos em que o sarcasmo aparece, entre os amigos, entre os desconhecidos, em certas falas perdidas no meio da noite ou na falta de um assunto melhor. Porque ter raiva também é humano, não é? E errar também, frase quase banal. E também perdoar (e também pedir perdão).
Então talvez agora realmente seja o momento de buscar algum tipo de leveza que me conforte, que me acalme. Tenho mantido o lado esquerdo do peito em silêncio, não em seu nome, não em sua lembrança, mas para que ele se recomponha de forma saudável, tranqüila. E para que assim, depois de refeito, possa se abrir outra vez, sem vergonhas, sem medos, coração aberto para novos mergulhos. O silêncio não deve assustar, é pausa pra respiração.
Como num suspiro, vontade de te agradecer por ter sido meu primeiro tudo. Primeiro amor, primeiro salto, primeiro mergulho, primeiro carinho, primeira vontade, primeira falta, primeira mágoa, primeiro tombo. E por ter vivido primeiros tão bons momentos, ter me feito acreditar no amor e querer entregar pra você todas as coisas que todos os bobocas sentimentais desejam entregar para essa palavra tão cheia–vazia de significados: amor. Meu primeiro: queria pra você todas as alegrias e para mim nenhuma alegria seria maior do que estar com você.
Sei que caminhei até meus descaminhos e de nada me arrependo, nem mesmo de ter tropeçado tanto depois do depois. Se o amor é assim, como já disseram, intangível, talvez precise de silêncios espessos para se recompor. Mas a tal coisa, que já foi tão dita e tão pouco entendida, continuará persistindo até o fim dos dias e, ainda bem, creio ser o amor a cura de todas as coisas.
O amor se transformou, mesmo que se confunda. Virou outro. Metamorfose como de lagarta à borboleta.
Sem falsidades, mando bons fluidos para você. Desejo que seus olhos continuem se alargando por aí e que seu peito não se cale. Nunca.
Sinto falta da sua presença ou talvez, da presença daquele colorido que se dará de outras formas e cores a partir de agora. Desejo o bem, de bem e que, um dia, um dia sim, nos abraçaremos com verdade, com a mesma verdade daquele abraço que um dia nos uniu.

domingo, 25 de novembro de 2007

pra ela

Síncope
Sístole ( Diástole )
Pedaço de tudo, de nada
Paisagem recortada.
Inteira, enorme, miúda
seu nome quer dizer mil.
Bi única, Bi muitas, Bi mais
Inspiração, Transpiração
Ar, ar, ar.
O mergulho vem antes do salto
Expira lento, extenso, transtorna
Transmissão de pensamento
Melodias sem rumo, partitura do coração
Caminhei pra escutar: ir fundo
Me dê mais música pra respirar.

sábado, 3 de novembro de 2007

tentativa número um

- Vamos tentar mais uma vez. Você consegue.
- Eu...
- Isso! ...Você... ?
- E... e..... eu....
- ... você...??
- Eu.. eu..
- ???
- Eu... Eu não consigo.
- Você consegue. Vai.
- Eu...
- Você consegue, você consegue. Um... dois... três... E pluft! Vai.
- ...
- ??
- ... Eu... Eu... Droga!
- Calma, calma... Vamos por partes. Você vai conseguir, eu juro. Não é tão difícil assim.
- Eu... eu.. Eu não consigo.
- Não diga isso. Você consegue. Você sente.
- Eu... eu... eu sinto... eu sinto sim.
- Você sente e você consegue. Vamos devagar.
- Devagar?
- Devagar. Feche os olhos. Feche. Isso, muito bem. Agora pense em uma coisa agradável, tranqüila. Numa coisa que você goste muito.
- ...
- Está pensando?
- ...Eu....
- Você consegue. Fixe seu pensamento. Isso. Agora, transfira essa sensação de tranqüilidade pro que você quer dizer. Você quer dizer, não quer?
- Eu... Eu... eu quero.
- Ótimo, você quer. Você sente, não sente?
- ...Eu sinto.
- Muito bem. Vamos. Respira fundo e diga de uma vez.
- ...Eu... eu... eu...
- Você...?
- ... Eu.... eu... Me desculpe. Eu não consigo.
- Pára com isso! Você consegue! Você sente, não sente?
- Eu... eu sinto... Eu sinto sim. Mas.. desculpa. Eu não consigo dizer. Não consigo.
- Você consegue, vai. 1...2...3...
- Eu... eu.... eu.............................................................................................................
- Pelo amor de Deus! São só três frases. Fecha os olhos e diz. Diz pensando em outra coisa... Já sei! Pense em metáforas! Pense que isso que você vai dizer pode ser uma metáfora!
- Eu... eu... te....
- Isso! Isso! Isso! Você....?
- Eu... te.........................
- Vamos, vamos, vamos! Ta quase! Você... me...???
- Eu.... te.... a....
- Isso, isso, isso... Você... me... 2 letrinhas, 2 letrinhas que faltam...
- Eu.... eu....
- Vamos, você já está quase conseguindo!!!!!!!!! Vamos !!!! Vamos!!!!!!
- Eu... eu...
- ???????
- Eu.... Desculpe.
- Pelo amor de Deus!!!!!!!! Você está quase, está quase...!
- Eu não consigo.
- ( quase chorando ). Você consegue. Você quase conseguiu. E você sente, não sente?
- Eu sinto... Eu sinto sim. Mas me desculpe. Eu não sei dizer. Eu não posso dizer.

sexta-feira, 19 de outubro de 2007

sexta-feira, 5 de outubro de 2007

acorde de coeur

Decidi que vou escutar meu coração.
Não daquela maneira que todos costumam dizer, um conselho quase banal e mentiroso da sociedade. Quero escutar a sonoridade exata que venha do meu peito. O tum tum tum no acorde perfeito. A nota que começa e a que termina para que depois comece outra. Meu coração em nota Sol. Qual será seu timbre?
Para ouvir a melodia que meu coração carrega em Si, preciso fechar as janelas do quarto e dos pensamentos e fechar os olhos e parar. Respiro. Paro. Escuto.
Meu coração é quase um poliedro de sons. Notas, acordes, pausas, fermatas. Melodias inúmeras que se misturam. Envolto de um timbre grave, escuro. Por dentro é agudíssimo, soprano, tenor. Meu coração: mistura de Billie Holiday com Gal Costa. Canções de ópera nas bordas. Batidas de pandeiro no fundo. Dorival Caymmi em camadas. Piazzolla de vez em quando. Bjork pra respirar mais fundo. A canção do dia é Gabriela.
Meu coração tem também sons indecifráveis. Alguns estranhos, outros comuns. Em algumas horas do dia ele produz uma batida diferente só pra me enganar. Logo percebo: fingimento. O coração gosta de criar músicas mentirosas.
Meu coração tem um constante tic-tac de ansiedade. Apesar de detestar relógios e datas, o tic-tac espera por alguma coisa que eu não sei bem o que é. Espera ansioso, mentiroso. Não sabe o que quer. Quer muito. Quer demais.
Meu coração precisa de silêncios pra que novas estruturas melódicas se criem. Algumas vezes se cala, finge de mudo. Psiu. Parece endurecer, mas está ali. Forte. Presente. Foi calado que meu coração aprendeu a ouvir. Observa o mundo de longe. Espera quietinho, escuta. Aprendi a escutar os silêncios. Escutei: “quanto mais amo mais calo”. Me calei.
O tic –tac se mistura com os tum tum tums das possíveis batidas. Meu coração não se cansa, não sei bem porquê. Bate feliz, é verdade. E quer muito. Quer demais. Novas melodias, outros silêncios, batidas indecifráveis, acordes dissonantes, tudo ao mesmo tempo. Meu coração atrás de um tic-tac imperfeito.

quarta-feira, 3 de outubro de 2007