domingo, 25 de novembro de 2007

pra ela

Síncope
Sístole ( Diástole )
Pedaço de tudo, de nada
Paisagem recortada.
Inteira, enorme, miúda
seu nome quer dizer mil.
Bi única, Bi muitas, Bi mais
Inspiração, Transpiração
Ar, ar, ar.
O mergulho vem antes do salto
Expira lento, extenso, transtorna
Transmissão de pensamento
Melodias sem rumo, partitura do coração
Caminhei pra escutar: ir fundo
Me dê mais música pra respirar.

sábado, 3 de novembro de 2007

tentativa número um

- Vamos tentar mais uma vez. Você consegue.
- Eu...
- Isso! ...Você... ?
- E... e..... eu....
- ... você...??
- Eu.. eu..
- ???
- Eu... Eu não consigo.
- Você consegue. Vai.
- Eu...
- Você consegue, você consegue. Um... dois... três... E pluft! Vai.
- ...
- ??
- ... Eu... Eu... Droga!
- Calma, calma... Vamos por partes. Você vai conseguir, eu juro. Não é tão difícil assim.
- Eu... eu.. Eu não consigo.
- Não diga isso. Você consegue. Você sente.
- Eu... eu... eu sinto... eu sinto sim.
- Você sente e você consegue. Vamos devagar.
- Devagar?
- Devagar. Feche os olhos. Feche. Isso, muito bem. Agora pense em uma coisa agradável, tranqüila. Numa coisa que você goste muito.
- ...
- Está pensando?
- ...Eu....
- Você consegue. Fixe seu pensamento. Isso. Agora, transfira essa sensação de tranqüilidade pro que você quer dizer. Você quer dizer, não quer?
- Eu... Eu... eu quero.
- Ótimo, você quer. Você sente, não sente?
- ...Eu sinto.
- Muito bem. Vamos. Respira fundo e diga de uma vez.
- ...Eu... eu... eu...
- Você...?
- ... Eu.... eu... Me desculpe. Eu não consigo.
- Pára com isso! Você consegue! Você sente, não sente?
- Eu... eu sinto... Eu sinto sim. Mas.. desculpa. Eu não consigo dizer. Não consigo.
- Você consegue, vai. 1...2...3...
- Eu... eu.... eu.............................................................................................................
- Pelo amor de Deus! São só três frases. Fecha os olhos e diz. Diz pensando em outra coisa... Já sei! Pense em metáforas! Pense que isso que você vai dizer pode ser uma metáfora!
- Eu... eu... te....
- Isso! Isso! Isso! Você....?
- Eu... te.........................
- Vamos, vamos, vamos! Ta quase! Você... me...???
- Eu.... te.... a....
- Isso, isso, isso... Você... me... 2 letrinhas, 2 letrinhas que faltam...
- Eu.... eu....
- Vamos, você já está quase conseguindo!!!!!!!!! Vamos !!!! Vamos!!!!!!
- Eu... eu...
- ???????
- Eu.... Desculpe.
- Pelo amor de Deus!!!!!!!! Você está quase, está quase...!
- Eu não consigo.
- ( quase chorando ). Você consegue. Você quase conseguiu. E você sente, não sente?
- Eu sinto... Eu sinto sim. Mas me desculpe. Eu não sei dizer. Eu não posso dizer.

sexta-feira, 19 de outubro de 2007

sexta-feira, 5 de outubro de 2007

acorde de coeur

Decidi que vou escutar meu coração.
Não daquela maneira que todos costumam dizer, um conselho quase banal e mentiroso da sociedade. Quero escutar a sonoridade exata que venha do meu peito. O tum tum tum no acorde perfeito. A nota que começa e a que termina para que depois comece outra. Meu coração em nota Sol. Qual será seu timbre?
Para ouvir a melodia que meu coração carrega em Si, preciso fechar as janelas do quarto e dos pensamentos e fechar os olhos e parar. Respiro. Paro. Escuto.
Meu coração é quase um poliedro de sons. Notas, acordes, pausas, fermatas. Melodias inúmeras que se misturam. Envolto de um timbre grave, escuro. Por dentro é agudíssimo, soprano, tenor. Meu coração: mistura de Billie Holiday com Gal Costa. Canções de ópera nas bordas. Batidas de pandeiro no fundo. Dorival Caymmi em camadas. Piazzolla de vez em quando. Bjork pra respirar mais fundo. A canção do dia é Gabriela.
Meu coração tem também sons indecifráveis. Alguns estranhos, outros comuns. Em algumas horas do dia ele produz uma batida diferente só pra me enganar. Logo percebo: fingimento. O coração gosta de criar músicas mentirosas.
Meu coração tem um constante tic-tac de ansiedade. Apesar de detestar relógios e datas, o tic-tac espera por alguma coisa que eu não sei bem o que é. Espera ansioso, mentiroso. Não sabe o que quer. Quer muito. Quer demais.
Meu coração precisa de silêncios pra que novas estruturas melódicas se criem. Algumas vezes se cala, finge de mudo. Psiu. Parece endurecer, mas está ali. Forte. Presente. Foi calado que meu coração aprendeu a ouvir. Observa o mundo de longe. Espera quietinho, escuta. Aprendi a escutar os silêncios. Escutei: “quanto mais amo mais calo”. Me calei.
O tic –tac se mistura com os tum tum tums das possíveis batidas. Meu coração não se cansa, não sei bem porquê. Bate feliz, é verdade. E quer muito. Quer demais. Novas melodias, outros silêncios, batidas indecifráveis, acordes dissonantes, tudo ao mesmo tempo. Meu coração atrás de um tic-tac imperfeito.

quarta-feira, 3 de outubro de 2007

domingo, 16 de setembro de 2007

tempo forte


Hoje amanhã depois
desde quando?
pausa melódica entre dois
mudos
mútuos
você longe.



Fermata.

quarta-feira, 5 de setembro de 2007

centro-me

Fiquei o dia todo a sua espera.

Quem você é, não sei. O que é também não me interessa. Fiquei a espera Disso: uma sacudida, um espasmo, um barulho incompreensível, uma pausa. Fiquei a espera de uma flecha que atingisse o centro do meu corpo – não o umbigo, que todos imaginam ser o centro do corpo, mas aquela parte que fica logo acima do estômago, logo abaixo do intervalo que existe entre os seios, aquele ponto do corpo que dói quando sentimos angústia. O centro do corpo é aí: no ponto da angústia. Angústia pura: fiquei a espera.
Eu queria uma voz que me acalmasse, uma melodia nova, uma cor de laranja no céu. Queria um instante em que tudo fosse possível – ou impossível. Queria um espanto, uma tosse, uma pontada nos ouvidos, um mergulho no intangível, um riso fantasiado, um escorregão, um salto na penumbra, um sabor novo e comum. Queria um aperto forte nos ombros, desses que erguem a gente para as nuvens. Queria um caminho atravancado que me fizesse mudar de direção, queria tornar a visão tortuosa por lágrimas, pálpebras de neblina. Queria um espirro, um grito ou simplesmente, um silêncio. Um silêncio com presença. Queria assim, simplesmente: algo que me arrebatasse.
Fiquei o dia todo a sua espera.

Espero.
título criativa : mil-ena

sábado, 1 de setembro de 2007

água


me lembrei de ofélia.