sexta-feira, 27 de julho de 2007

nostalgia da época em que jamais vivi

"Ocupar espaço:
espantar a caretice:
tomar o lugar:
manter o arco:
os pés no chão:
um dia depois
do outro."



Torquato Neto, coluna "Geléia Geral", Última Hora, terça-feira, 30/11/1971

segunda-feira, 16 de julho de 2007

e sim.

"Andei pensando coisas. O que é raro, dirão os irônicos. Ou "o que foi?" - perguntariam os complacentes. Para estes últimos, quem sabe, escrevo. E repito: andei pensando coisas sobre amor, essa palavra sagrada. O que mais me deteve, do que pensei, era assim: a perda do amor é igual à perda da morte. Só que dói mais. Quando morre alguém que você ama, você se dói inteiro(a)- mas a morte é inevitável, portanto normal. Quando você perde alguém que você ama, e esse amor - essa pessoa - continua vivo(a), há então uma morte anormal. O NUNCA MAIS de não ter quem se ama torna-se tão irremediável quanto não ter NUNCA MAIS quem morreu. E dói mais fundo- porque se poderia ter, já que está vivo(a). Mas não se tem, nem se terá, quando o fim do amor é: NEVER. Pensando nisso, pensei um pouco depois em Boy George: meu-amor-me-abandonou-e-sem-ele-eu-nao-vivo-então-quero-morrer--drogado. Lembrei de John Hincley Jr., apaixonado por Jodie Foster, e que escreveu a ela, em 1981: "Se você não me amar, eu matarei o presidente". E deu um tiro em Ronald Regan. A frase de Hincley é a mais significativa frase de amor do século XX. A atitude de Boy George - se não houver algo de publicitário nisso - é a mais linda atitude de amor do século XX. Penso em Werther, de Goethe. E acho lindo. No século XX não se ama. Ninguém quer ninguém. Amar é out, é babaca, é careta. Embora persistam essas estranhas fronteiras entre paixão e loucura, entre paixão e suicídio. Não compreendo como querer o outro possa tornar-se mais forte do que querer a si próprio. Não compreendo como querer o outro possa pintar como saída de nossa solidão fatal. Mentira: compreendo sim. Mesmo consciente de que nasci sozinho do útero de minha mãe, berrando de pavor para o mundo insano, e que embarcarei sozinho num caixão rumo a sei lá o quê, além do pó. O que ou quem cruzo entre esses dois portos gelados da solidão é mera viagem: véu de maya, ilusão, passatempo. E exigimos o terno do perecível, loucos. Depois, pensei também em Adèle Hugo, filha de Victor Hugo. A Adèle H. de François Truffaut, vivida por Isabelle Adjani. Adèle apaixonou-se por um homem. Ele não a queria. Ela o seguiu aos Estados Unidos, ao Caribe, escrevendo cartas jamais respondidas, rastejando por amor. Enlouqueceu mendigando a atenção dele. Certo dia, em Barbados, esbarraram na rua. Ele a olhou. Ela, louca de amor por ele, não o reconheceu. Ele havia deixado de ser ele: transformara-se em símbolo sem face nem corpo da paixão e da loucura dela. Não era mais ele: ela amava alguém que não existia mais, objetivamente. Existia somente dentro dela. Adèle morreu no hospício, escrevendo cartas (a ele: "É para você, para você que eu escrevo" - dizia Ana C.) numa língua que, até hoje, ninguém conseguiu decifrar.Andei pensando em Adèle H., em Boy George e em John Hincley Jr. Andei pensando nesses extremos da paixão, quando te amo tanto e tão além do meu ego que - se você não me ama: eu enlouqueço, eu me suicido com heroína ou eu mato o presidente. Me veio um fundo desprezo pela minha/nossa dor mediana, pela minha/nossa rejeição amorosa desempenhando papéis tipo sou-forte-seguro-essa-sou-mais-eu. Que imensa miséria o grande amor - depois do não, depois do fim - reduzir-se a duas ou três frases frias ou sarcásticas. Num bar qualquer, numa esquina da vida. Ai que dor: que dor sentida e portuguesa de Fernando Pessoa - muito mais sábio -, que nunca caiu nessas ciladas. Pois como já dizia Drummond, "o amor car(o,a,) colega esse não consola nunca de núncaras". E apesar de tudo eu penso sim, eu digo sim, eu quero Sins."

Pequenas Epifanias. Caio Fernando Abreu.

sexta-feira, 13 de julho de 2007

pierrot

os escafandristas virão explorar sua casa,
seu quarto, sua alma, desvãos





































quarta-feira, 11 de julho de 2007

ruína

“ Um monge descabelado me disse no caminho: `Eu queria construir uma ruína. Embora eu saiba que ruína é uma desconstrução. A minha idéia era de fazer alguma coisa ao jeito de tapera. Alguma coisa que servisse para abrigar o abandono, como as taperas abrigam. Porque o abandono pode não ser apenas um homem debaixo da ponte, mas pode ser também de um gato no beco ou de uma criança presa num cubículo. O abandono pode ser também uma expressão que tenha entrado para o arcaico ou mesmo de uma palavra. Uma palavra que esteja sem ninguém dentro. (O olho do monge estava perto de ser um canto). Continuou: digamos a palavra AMOR. A palavra amor está quase vazia. Não tem gente dentro dela. Queria construir uma ruína para salvar a palavra amor.Talvez ela renascesse das ruínas, como o lírio pode nascer de um monturo.´ E o monge se calou descabelado.”
caminho por manoel de barros

sábado, 30 de junho de 2007

ponto

Como numa caminhada rumo à uma avenida em que, logo a frente, vê-se o cruzamento que interrompe a rua principal, existe aquele momento específico em que avistamos o fim. Mesmo que não se tenha chegado ao ponto final de fato, é possível avistar, com temor e borboletas no peito, um dia tudo vai terminar. O final ou o cruzamento principal não aparecem de repente. Na verdade, eles vêm surgindo como a pontinha de um iceberg e trazem para cada vez mais perto os avisos prévios, os indícios, os sinais, as pistas, as intuições, mas não, não quero ver, não, prefiro fechar os olhos para enxergar claramente e enganar meu coração de que não, não, não. Prefiro acreditar que é interminável. Eterno. In finito. Forever. Não teria sido assim no instante do In ício?
Parece proibido pensar no fim quando se começa uma coisa importante e deliciosa. E é melhor que seja dessa forma, senão talvez não seja possível começar com tanta entrega. Para o mergulho, melhor assim, pensar que sempre se estará começando.
Porém, pouco a pouco, como uma vela que se apaga, como um silêncio saciado das manhãs de domingo, a pontinha do iceberg aparece. Branca. Gelada. Cruel.
Feche os olhos, mude o trajeto, pare no meio da avenida como se assim pudesse também parar os ponteiros corredores dos relógios. Por que é mesmo que as coisas boas terminam? Seríamos fracos demais para impedir tal acontecimento? Ou teríamos simplesmente desistido de tentar?
Silêncio de novo, preciso voltar a caminhar, não adianta mais mudar o trajeto, todos os caminhos dão no mesmo lugar, "todos os caminhos, nenhum caminho, muitos caminhos, nenhum caminho. Nenhum caminho", o fim é o mesmo. Ele se aproxima. E talvez seja necessário. E talvez também não importe se foi desistência ou fraqueza.
Por mais que doa lá no fundo, é preciso saber que, uma vez seguida a caminhada pela avenida, retornar ao início não é mais possível. Vamos nos aproximando, caminho rumo à desordem, ali está o cruzamento: branco, gelado, cruel, presente. Feche os olhos pra enxergar claramente: a vida começa no ponto final.

segunda-feira, 25 de junho de 2007

no instante do sorriso pleno

"Comece por quebrar os espelhos de sua casa, deixe cair os braços, olhe vagamente a parede, esqueça. Cante uma nota só, escute por dentro. Se ouvir ( mas isto acontecerá muito tempo depois ) algo como uma paisagem afundada no medo, com fogueiras entre as pedras, com silhuetas seminuas de cócoras, acho que estará bem encaminhado, e do mesmo modo de se ouvir um rio por onde descem barcos pintados de amarelo e preto, se ouvir um gosto de pão, um tato de dedos, uma sombra de cavalo.


Depois compre cadernos de solfejo e uma casaca e por favor não cante pelo nariz e deixe Schumann em paz."


Julio Cortázar, Histórias de Cronópios e Famas





sábado, 23 de junho de 2007

caia em caio

"Tarde demais, nunca esquecia. E respirava lento, medido, economizando sua quota kármica de prana ao estufar estômago-costelas-pulmões, nessa ordem. Devocional, búdico. Pois se ficara mesmo tarde demais para todas as coisas dos Viventes Inconscientes, como passara a chamar às Pessoas do Outro Lado- apenas para si mesmo, não queria parecer arrogante-, pois se ficara mesmo assim tragicamente tarde, acendia um cigarro culpado e, fodam-se, com toda a arrogância constatava: se era tarde demais, poderia também ser cedo demais, você não acha? perguntava sem fôlego para ninguém."

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“Veio num sonho, certa noite. Ela o amava. Ele a amava também. E ainda que essa coisa, o amor, fosse complicada demais para compreender e detalhar nas maneiras tortuosas como acontece, naquele momento em que acontecia dentro do sonho, era simples. Boa, fácil, assim era. Ela gostava de estar com ele, ele gostava de estar com ela. Isso era tudo.”
Caio Fernando Abreu.