sábado, 10 de dezembro de 2011

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

coisas sagradas permanecem

e eis que era um peixe dourado. pequenino, os olhos fulminantes delicados. um peixe pequenino, dourado, frágil, guardado nas minhas mãos que chegaram da rua pra casa. soube acolher o peixe. soube dar-lhe vida. trouxe pra dentro de casa, era noite, o peixe cabia na ponta dos meus dedos. coloquei ele em um pote d´água. cobri o pote de água limpa e ele escapuliu. entrou pelo cano do tanque. consegui puxar a barbatana que sobrava do lado de fora do cano. coloquei ele de novo no pote. eu estava a procura de um aquário, um lugar ideal pro peixe. não conseguia encontrar. tentei fazer do pote a sua casa. coloquei comida. os olhos do peixe eram sempre fulminantes, vivos. eu sabia da importância do peixe. eu sabia que um peixe dourado não se encontra todo dia. voltei a procurar um aquário. encontrei na sala de casa. soube acolher o peixe. coloquei ele dentro do aquário, tentei dizer-lhe baixinho "pois cresça doce, essa é sua casa." e eis que o peixe começou a crescer. começou a crescer desesperadamente, numa rapidez impressionante. o peixe crescia, engordava, crescia e eis que o aquário ia ficando muito pequeno. o peixe transbordava do aquário e ia deixando de ser dourado. a textura delicada se transformava num couro forte, pardo, grosseiro. o peixe estava se tornando peixe-boi. a nova criatura era pesada demais, grande demais e ao olhá-la eu sentia medo. sentia medo porque aquilo era pesado demais pra guardar dentro de casa. pensei que não poderia ter um peixe boi no meu apartamento. não seria adequado ou o fato é que simplesmente eu não conseguiria sustentar. olhava pro novo animal com compaixão. sentia pena dele. não queria abandoná-lo no meio da rua. apesar de ser feio, ele parecia dócil. mas era isso e era simples: eu não poderia ficar com ele. com um pouco de força consegui puxar a criatura pela cabeça. metade do corpo já se encontrava fora do aquário, a outra metade soube sair sem demora. peguei nas costas do peixe-boi e fui empurrando-o pela sala. abri a porta. ele não descia. entendi que era difícil para ele partir. resolvi ter paciência. resolvi ajudá-lo. e eis que fui empurrando o peixe-boi pelas escadas do prédio. às vezes ele me olhava com um olhar de piedade, como quem pede pra ficar. eu sentia mesmo que ele me olhava como se dissesse que poderia ser delicado e poderia até mesmo tentar ser dourado e aí eu tive pena do peixe boi. mas sustentei. não é que não gostasse dele, mas simplesmente não seria capaz de tê-lo perto de mim. às vezes o próprio limite não está no desgosto. e eu precisava aprender a perder. o peixe boi chegou no último degrau da escada. dei-lhe um abraço rápido, como quem despede de um amigo que está atrasado. ele deu o último olhar de piedade e eu virei de costas. respirei fundo. deixei a compaixão de lado. coisas sagradas permanecem. subi as escadas devagar, passo a passo. olhei pra cima. tive vontade de chorar, mas não chorei.

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

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da importância das coisas

"que a importância de uma coisa não se mede com fita métrica nem com balança nem barômetros etc.
que a importância de uma coisa há que ser medida pelo encantamento que a coisa produza em nós."

manoel de barros.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

domingo, 4 de dezembro de 2011

nove passos na escuridão (2005)

"deixo, em cima da mesa, um caderno em branco onde possas guardar,
sempre que queiras, coisas da ordem do incomunicável ao próximo.
depois da morte, voltaremos ambos a estas páginas.
e procuraremos renascer no apagar das palavras.

o prédio está em silêncio, no seu repouso
erigido à beira da estrada.
sou capaz de imaginar alguma brisa,
folhas de arbustos a correr assustadas.
no quarto ao lado, tu, adormecida e ausente,
em sonhos. levanto-me e apalpo
o trajecto reconhecido, a luz apagada.

na cozinha, sento-me perto da janela.
o frigorífico remexe-se, eléctrico e molhado.
não sei o que espero, quero ler na escuridão
das casas vizinhas muitas outras sombras sentadas.
o prédio como hospício de pessoas perdidas.
reconheço a cidade por um avião que passa,
ao alto. só nos perdemos assim, silenciosos.
de dia, ninguém ouve os aviões.

podia fechar os olhos, um escuro mais escuro,
a fingir-se tela de imaginações. ouviria um rio.
o frigorífico. pressinto a electricidade, no silêncio
impossível desta casa. penso em nomes,
Miguel, Pedro, Sérgio, Alexandre. penso em movimentos,
ataque, defesa, lateralização. cinco da manhã
de uma noite por existir, não pode haver distracção.

para voltar ao meu colchão, passo pela porta do quarto
onde dormes. sim, estás lá. procuro, no monte de roupa suja
que deixei na sala, as peças suficientes para sair à rua.
para não me denunciar, a escuridão. paro junto à porta,
afinal irrompe a respiração na ausência de sons.

a casa, de noite, é uma sinfonia.
nunca estamos sós, apagados.
sempre alguém, algo,
para nos dizer que existimos.

encontro as peças de roupa.
não faço malas, não sei se me apetece voltar.
a carteira, os pensamentos de que não me consigo separar.
mantenho as chaves do lado de dentro da porta.
não faço barulhos.

olho o poema, não me entendo na decisão do seu início.
talvez o poema não comece exactamente na primeira palavra.
talvez devêssemos virar tudo isto ao contrário.

deixo, em cima da mesa, um caderno em branco,
o meu recado. vais fingir que eu nunca existi
e eu não vou voltar a procurar como dizer
coisas que me doem. depois da morte,
talvez."

Luis Filipe Cristóvao

quatro de dezembro

salve oyá!

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011