segunda-feira, 7 de novembro de 2011
domingo, 6 de novembro de 2011
diário do último ano
Para mim? Para ti? Para ninguém. Quero atirar para aqui, negligentemente, sem pretensões de estilo, sem análises filosóficas, o que os ouvidos dos outros não recolhem: reflexões, impressões, ideias, maneiras de ver, de sentir - todo o meu espírito paradoxal, talvez frívolo, talvez profundo.
Foram-se, há muito, os vinte anos, a época das análises, das complicadas dissecações interiores. Compreendi por fim que nada compreendi, que mesmo nada poderia ter compreendido de mim. Restam-me os outros... talvez por eles possa chegar às infinitas possibilidades do meu ser misterioso, intangível, seco.
Nas horas que se desagregam, que desfio entre os meus dedos parados, sou a que sabe sempre que horas são, que dia é, o que faz hoje, amanhã, depois. Não sinto deslizar o tempo através de mim, sou eu que deslizo através dele e sinto-me passar com a consciência nítida dos minutos que passam e dos que vão se seguir. Como compreender a amargura dessa amargura Onde paras tu, ó Imprevisto, que vestes de cor-de-rosa tantas vidas.
Não tenho nenhum intuito especial ao escrever essas linhas, não viso nenhum objectivo, não tenho em vista nenhum fim. Quando morrer, é possível que alguém, ao ler estes descosidos monólogos, leia o que sente sem o saber dizer, que essa coisa tão rara neste mundo - uma alma - se debruce com um pouco de piedade, um pouco de compreensão, em silêncio, sobre o que eu fui ou o que julguei ser. E realize o que eu não pude: conhecer-me.
FLORBELA ESPANCA. DIÁRIO DO ÚLTIMO ANO.
ar
lamento ter retirado um pouco do seu ar. as pessoas morrem por falta ou excesso de oxigênio. o cálculo é impreciso, difuso, não mensurável. não se sabe nunca qual quantidade será capaz de matar.
lamento ter doado um pouco do meu ar. as pessoas se envolvem não porque querem preencher o outro de oxigênio, mas porque precisam esvaziar o peito. é sempre por si, mesmo se o coração é generoso.
lamento ter dificultado a nossa capacidade de respirar. o ar deveria ser mais democrático, calculado nas devidas proporções. mas a lógica não é essa. é por sentir falta ou por ter muito oxigênio que as relações se dão. pelos pulmões.
sábado, 5 de novembro de 2011
quinta-feira, 3 de novembro de 2011
quarta-feira, 2 de novembro de 2011
fluxo de afeto
pra você caberiam todas as vãs filosofias, as páginas gastas de um livro esquecido na estante do armário marrom, os jantares que não tivemos e ficaram na promessa.
eu não sou mesmo boa em declarações de amor. falta em mim qualquer capacidade mais lenta de deixar o rio correr. é o urgir do instante que corrói, o medo de perder, alguma imagem familiar, um quadro antigo. talvez seja o medo da morte ou de qualquer coisa que se assemelhe. parece que estamos sempre caminhando pra lá. não sei aonde foram parar seus olhos, mas guardo os dois no peito como frame de uma fotografia. velha. previsível.
congelei seu sorriso na saudade. estive perto mesmo quando estive longe. outros vieram mas foi em vão, vieram e foram como se não tivessem jamais existido. não tem cabido mais emoção nos meus dias, nem ninguém. é você quem ocupa a paisagem de frente da janela. abri as portas e também o corredor de frente da varanda e também a cozinha e a mesa de centro e deixei que entrasse sem fazer perguntas. não esperava tanto mar e é engraçado que tenhamos chegado até aqui. meus passos se movem adiante além muito a frente do infinito e quando esperam sozinhos procuram os seus - pés.
pra você caberia o silêncio se ele conseguisse ser tão denso quanto a minha vontade de te existir. na ausência de silêncio, façamos música. e deixemos que ela habite o nosso quarto escuro, trazendo mais vida pra dentro de casa.
Assinar:
Postagens (Atom)

