quinta-feira, 31 de julho de 2014

madrugada

já em casa, me sento, respiro, há uma pulsação forte que não me deixa dormir. deveria tomar um chá, faço um café. assim, pouco a pouco, no embalo da música das minhas células, fica mais difícil pegar no sono. eu deveria tentar, mas há uma vida imensa me chamando aqui dentro e essa vida quase não tem nome quase não tem cheiro quase não tem forma. apenas vivo e isso é uma alegria mansa. me lembro de clarice, talvez fosse a hora de reler "água viva", esse livro que me faz sonhar e crer numa vida que seja sempre sonho. errei muitas vezes por sempre sonhar demais, mas sei que o tamanho das coisas é maior. as coisas são maiores. maiores. as pessoas deveriam saber. 
tomo um café, lentamente, pego um papel, acho que vou começar a escrever. não: acho que vou ensaiar uma melodia. alguma coisa forte que me guie. as melhores memórias vêm à cavalo e elas cavalgam em meu corpo como explosões de desejo. sou fluxo em velocidade alta, devaneio em carne viva, sopro de melodia. sou um instante inaugural.
a casa está vazia, não há ninguém. há minha respiração, minha mente que corre como quem desbrava um campo inteiro. há plantas, há água. há espaço para o delírio, para a falta de jeito. há espaço para o fracasso, que é sempre um caminho. o fracasso é sempre um caminho.
sinto saudades de tudo. consigo sentir que meu peito persegue por algo que ainda não vejo. sei que virá uma primavera ainda maior que meus poros possam sentir. sei que o amor está em tudo que faço e farei. e isso não é nenhum clichê, embora pareça. todo mundo fala sobre o amor e sobre as coisas que as pessoas fazem para amar e pra se sentirem amadas, mas o amor é maior, bem maior. as pessoas deveriam saber.
meu café está quase no fim e, se eu fumasse, agora acenderia um cigarro. tenho uma leve inveja das pessoas que fumam. deve ser prazeroso este instante de se descolar do tempo para habitar um tempo seu. é como se quem fuma não tivesse angústia e, quase que singelamente, trocasse aquele instante de perturbação por um hiato no passar das horas. e os fumantes fumam. e fumam. e fumam. e mergulham inteiramente na fumaça, ainda que seja tóxica, ainda que seja matável, ainda que seja cinza.
acho que vou me deitar, vou me dirigir para a cama, estou me dirigindo para a cama. me deitei. meu corpo é uma realidade que atravesso diariamente. desconheço o que existe aqui. talvez existam cavalos, talvez plantas, talvez vazios. vou fechar os olhos, ensaio o colar lento das pálpebras e, sim, quase que subitamente, uma pitada de solidão parece querer me visitar. sinto aquela cutucada no plexo solar, uma sutil falta de respiração, uma mini-melancolia, dessas que a gente nem se preocupa muito, mas que podem fazer pequenas lágrimas dos olhos escorrerem e um desconforto nascer. mas as pálpebras estão fechadas e as lágrimas não escorrem, a pele está seca e quer dormir. hoje é isso e é tudo que tenho para existir. e, sei, estou feliz demais para ficar triste. 

domingo, 13 de julho de 2014

possíveis títulos para uma inspiração

exercício para um fracasso.
desastre cósmico.
retorno de saturno e tudo que não vem.
vontades inacabadas.
pequenas grandes realizações.
aquilo que ficou por dizer.
a raiva sem lugar pra coragem.
o cuidado de si.
ainda que sempre.
fronteiras de um diálogo.
a enorme distância de ti.
o silêncio necessário.
a saudade é um berro.
algumas palavras soltas.
até que o mundo acabe.
espelho sem reflexo.
feliz ano novo.
clarividência necessária.

domingo, 22 de junho de 2014

enquanto espero

enquanto você percorre as paredes do deserto, me pergunto qual é o tamanho do silêncio que você já não consegue ouvir. há uma devastação em mim, assim como um campo limpo, aberto, vivo, frutífero, ainda que em estado de pausa.
enquanto você percorre de longe os caminhos de quem parece saber pra onde ir, eu me perco entre acasos, noites e sonhos vazios. sinto de perto as vontades mais cruéis. os desejos inacabados. a sincera contradição. a minha. a nossa. a contraluz.
enquanto você vive aos quatro ventos do universo, eu tento encontrar em mim alguma coerência, alguma sílaba que me absolva de sentido, algum nome, alguma afirmação. espalho meu corpo na casa fria. sou aquela que dorme enquanto os outros caminham adiante.
enquanto você vibra, eu mergulho. enquanto você foge, eu descubro. enquanto você encontra, eu percebo. há um amor aceso ainda que na penumbra. ainda que frágil. ainda que só. enquanto vivo.

Sob uma estrela pequenina

"Me desculpe o acaso por chamá-lo necessidade.
Me desculpe a necessidade se ainda assim me engano.
Que a felicidade não se ofenda por tomá-la como minha.
Que os mortos me perdoem por luzirem fracamente na memória.
Me desculpe o tempo pelo tanto de mundo ignorado por segundo.
Me desculpe o amor antigo por sentir o novo como primeiro.
Me perdoem, guerras distantes, por trazer flores para casa.
Me perdoem, feridas abertas, por espetar o dedo.
Me desculpem os que clamam das profundezas pelo disco de minuetos.
Me desculpem a gente nas estações pelo sono das cinco da manhã.
Sinto muito, esperança açulada, se às vezes me rio.
Sinto muito, desertos, se não lhes levo uma colher de água.
E você, falcão, há anos o mesmo, na mesma gaiola,
fitando sem movimento sempre o mesmo ponto,
me absolva, mesmo se você for um pássaro empalhado.
Me desculpe a árvore cortada pelas quatro pernas da mesa.
Me desculpem as grandes perguntas pelas respostas pequenas.
Verdade, não me dê excessiva atenção.
Seriedade, me mostre magnanimidade.
Ature, segredo do ser, se eu puxo os fios das suas vestes.
Não me acuse, alma, por tê-la raramente.
Me desculpe tudo, por não estar em toda parte.
Me desculpem todos, por não saber ser cada um e cada uma.
Sei que, enquanto viver, nada me justifica
já que barro o caminho para mim mesma.
Não me julgues má, fala, por tomar emprestado palavras patéticas,
e depois me esforçar para fazê-las parecer leves."

(Wislawa Szymborska)