segunda-feira, 9 de setembro de 2013


instável

tudo roda
tudo roda
tudo roda
tonta
todos os dias
o meu corpo
revira.

julia não está aqui

julia não está aqui. julia e a janela, uma vidraça, alguma passarela, um vestígio, um tempo. julia vestida de nada, de saudade, de flores, de medo adiantado. julia insegura atravessando o portão. julia diante da porta, comendo algum doce, desejando o mundo, julia sozinha, o quarto vazio, a mesma casa, a imensidão. julia na cama da infância, julia e seu amor que parte - se deus quiser, ele volta - julia sem volta, julia sem vinda. julia ainda, julia não está aqui. julia não está no cobertor, na pele, nas cordas do violão, nem nos ossos das costelas. julia respira, julia não está no silêncio. julia é julia quando é voz. julia é a voz. julia não está aqui. julia não está do lado esquerdo do peito, julia habita o coração de alguns, a mágoa de outros, julia não fala sempre a verdade. julia esconde, julia omite, julia cala. julia não é julia quando cala. julia não está aqui. a melancolia, a tensão, julia e o medo das julias, julia e todos os amores que a abandonam, julia e o medo do abandono. julia e a vontade de ser mãe, julia e a mãe que tudo habita, julia e o corpo - complexo enigma. julia e todos aqueles que a traíram, julia e as coisas esquecidas, julia e o engano, a inocência, as olheiras nos olhos fundos, o seio direito maior que o esquerdo, o sufoco. julia não está aqui. julia e a morte, julia e a vida, julia e o pai sentado na cabeceira da mesa, julia e os pensamentos que matam, julia e os olhos, os sonhos. julia não está aqui quando acorda. julia e a rua, julia e as paixões, os amores impossíveis, a eterna aflição, a urgência. julia e tudo que urge. julia veloz, julia percorre as cidades, os países, os continentes, os céus, julia e as crianças, as vontades que ficaram por dizer, julia não está aqui. julia não está aqui. julia não está aqui. julia e as dúvidas, o futuro incerto, a opção pelo sim. julia e a alegria, a alergia, julia sozinha tendo que se a ver com a própria questão. julia não está aqui. julia e o nó da questão. julia não está aqui. julia e a raiva, o grito mudo. julia não está aqui. julia e a força, a potência, a delicadeza. julia não está aqui. por delicadeza perdi minha vida. julia não está aqui. pra delicadeza dedico a vida. julia não está aqui. do lado de lá, julia. julia inteira. julia e o erro. não está aqui. julia e o berro. julia e o berro. julia e o berro. 

terça-feira, 20 de agosto de 2013

delicadeza

"sussurrava o vento coincidente.
silenciosos e em química,
encontramo-nos neste setembro.
é primavera!
e houve o toque.
a pele.
houve o impávido e suave acaso à porta,
o inesperado presente.
instantes.
o inevitável desejo à espreita:
revelação.
sentido antigo que esvai, sinto.
sentido antigo que esvai, vai...

existem flores do lado de lá,
talvez existam de cá também.
eu em busca de mim e da leveza impalpável,
ao encontro do meu corpo.
tu em busca de ti e da tua verdadeira face,
dos teus verdadeiros gestos,
do teu mais sincero e estúpido gozo.
límpido!
quero-te em pitadas. quero-te limpa. quero-te tua. 
queira-me como podes, ou como queres, ou como podes querer-me. 
nu.
queiramo-nos como pudermos ser: 
leves.

não há urgência. mas há sinais.
o corpo fala, diz muito.
tem vezes grita.
urra! _________,
sentido vem.
vem...
palavras-tom.
som!
queira-me em silêncio. querer-te-ei assim também.
não me prometa muito,
não me prometa nada,
mas lhe prometo vida.

apenas venha fresta e olha-me nos olhos,
beije-me o teu beijo vermelho, a tua boca vermelha,
os teus lindos lábios vermelhos.
suja-me todo e sinta-me em teu corpo.
tocar-te-ei sem cócegas, então,
como tocam o céu as andorinhas,
como os mais puros acordes arranham-te as costelas.
tocar-te-ei as entranhas até o gozo mais estúpido e límpido da tua alma,
vivo.
e olhar-te-ei enfim como olham os olhos mais possíveis desse impávido e suave acaso:
livres.

sinta-se no instante, deixe se impor sobre o tempo.
o tempo. o tempo. o tempo.
relógio-tempo.
entrega-me um conto e devolver-te-ei uma carta.
sinta-te em teu corpo e suja-te toda com os teus dedos,
olha-te em teu beijo e beije o teu próprio rosto com as tuas palavras doces,
a tua boca vermelha,
os teus lindos lábios vermelhos.
despeça-se viva e toque-se na medida mais estreme da leveza encontrada.
me encontrarás por lá também.

sintamos os sintomas.
sintamos.
sintomas.
uma flor do lado de cá,
uma rosa do lado de lá:
papeis em branco a preencher.
deixe impor-se tácito o tempo
no tempo, no tempo,
relógio-tempo.
e seja como for mesmo no breu do presente:
__________, nova!

escorra-me os teus beijos vermelhos, os teus lábios vermelhos,
a tua boca vermelha, o teu ventre vermelho.
escorra-me toda a delicadeza e a tua verdade impregnadas no teu corpo,
jorra-me!, goza-me!,
goza-me todo!
todo!
delicadeza!
limpa-te e goza-me o teu gozo mais estúpido e límpido sem a pressa de termos,
ou sem a pressa de sermos,
ou de tocarmos as nossas entranhas impalpáveis.
aceitemo-nos sem os espinhos do relógio-tempo no que nos há de melhor por agora,
impávidos.

chamemo-nos suave acaso, ao acaso, e sejamos então.
e enfim.
a urgência mata.
mata.
mata.
goza-me inteiro, 
e por agora.
______________!
dois pontos:

---"

(leonardo beltrão)

amor

"vou aprimorar meu jeito de existir. só pra te ver feliz."