terça-feira, 1 de junho de 2010

até agora

Dia frio, onze graus. Falta quase um mês pro que tanto espero. Desespero. Disparo. Discorro.
Sigo.
Das janelas do meu carro vejo somente homens de gravata e chapéu. Mulheres gordas. Velhinhos sujos. Ônibus, outros carros, ruídos de um interior que teima em ser cidade. E já é.
É quase hora de ser gente grande. Seguir nesse caminho soa duro. Tomarei as rédeas mesmo assim, tomando cuidado pra não atravancar o coração.
Luis Filipe Cristóvao me arrebatou novamente essa tarde. As palavras dele cabem milimetricamente na minha boca. Quase desejo tê-las inventado.
Invento silêncios, movimento puro. Sinto tanto medo que suponho já ter virado coragem.  Medo do medo que não há mais.
O ano começou intenso. Na divisão exata entre amor e dor. Na experiência não narrável do encontro. Na decepção absoluta - pisaram sobre a minha cabeça às gargalhadas.
Sigo Belíssimo horizonte, São Paulo é como o mundo todo.
Ainda planejo morada futura, apesar dos paulistas. Talvez não: apesar dos mineiros. Talvez assim: apesar de mim.
Tem começo um novo instante, quando o corpo já não é mais corpo, as palavras já não são as palavras, e o que sou já é outra coisa.
É isso que assusta tanto. Apesar da coragem.

ah, menina!

quinta-feira, 27 de maio de 2010

amargo abril

"Há alguns dias, Deus — ou isso que chamamos assim, tão descuidadamente, de Deus —, enviou-me certo presente ambíguo: uma possibilidade de amor. Ou disso que chamamos, também com descuido e alguma pressa, de amor. E você sabe a que me refiro. 

Antes que pudesse me assustar e, depois do susto, hesitar entre ir ou não ir, querer ou não querer — eu já estava lá dentro. E estar dentro daquilo era bom. Não me entenda mal — não aconteceu qualquer intimidade dessas que você certamente imagina. Na verdade, não aconteceu quase nada. Dois ou três almoços, uns silêncios. Fragmentos disso que chamamos, com aquele mesmo descuido, de "minha vida". Outros fragmentos, daquela "outra vida". De repente cruzadas ali, por puro mistério, sobre as toalhas brancas e os copos de vinho ou água, entre casquinhas de pão e cinzeiros cheios que os garçons rapidamente esvaziavam para que nos sentíssemos limpos. E nos sentíamos. 

Por trás do que acontecia, eu redescobria magias sem susto algum. E de repente me sentia protegido, você sabe como: a vida toda, esses pedacinhos desconexos, se armavam de outro jeito, fazendo sentido. Nada de mal me aconteceria, tinha certeza, enquanto estivesse dentro do campo magnético daquela outra pessoa. Os olhos da outra pessoa me olhavam e me reconheciam como outra pessoa, e suavemente faziam perguntas, investigavam terrenos: ah você não come açúcar, ah você não bebe uísque, ah você é do signo de Libra. Traçando esboços, os dois. Tateando traços difusos, vagas promessas. 

Nunca mais sair do centro daquele espaço para as duras ruas anônimas. Nunca mais sair daquele colo quente que é ter uma face para outra pessoa que também tem uma face para você, no meio da tralha desimportante e sem rosto de cada dia atravancando o coração. Mas no quarto, quinto dia, um trecho obsessivo do conto de Clarice Lispector "Tentação" na cabeça estonteada de encanto: "Mas ambos estavam comprometidos. Ele, com sua natureza aprisionada. Ela, com sua infância impossível". Cito de memória, não sei se correto. Fala no encontro de uma menina ruiva, sentada num degrau às três da tarde, com um cão basset também ruivo, que passa acorrentado. Ele pára. Os dois se olham. Cintilam, prometidos. A dona o puxa. Ele se vai. E nada acontece. 

De mais a mais, eu não queria. Seria preciso forjar climas, insinuar convites, servir vinhos, acender velas, fazer caras. Para talvez ouvir não. A não ser que soprasse tanto vento que velejasse por si. Não velejou. Além disso, sem perceber, eu estava dentro da aprendizagem solitária do não-pedir. Só compreendi dias depois, quando um amigo me falou — descuidado, também — em pequenas epifanias. Miudinhas, quase pífias revelações de Deus feito jóias encravadas no dia-a-dia. 

Era isso — aquela outra vida, inesperadamente misturada à minha, olhando a minha opaca vida com os mesmos olhos atentos com que eu a olhava: uma pequena epifania. Em seguida vieram o tempo, a distância, a poeira soprando. Mas eu trouxe de lá a memória de qualquer coisa macia que tem me alimentado nestes dias seguintes de ausência e fome. Sobretudo à noite, aos domingos. Recuperei um jeito de fumar olhando para trás das janelas, vendo o que ninguém veria. 

Atrás das janelas, retomo esse momento de mel e sangue que Deus colocou tão rápido, e com tanta delicadeza, frente aos meus olhos há tanto tempo incapazes de ver: uma possibilidade de amor. Curvo a cabeça, agradecido. E se estendo a mão, no meio da poeira de dentro de mim, posso tocar também em outra coisa. Essa pequena epifania. Com corpo e face. Que reponho devagar, traço a traço, quando estou só e tenho medo. Sorrio, então. E quase paro de sentir fome."

Dois ou três almoços, uns silêncios - Fragmentos disso que chamamos de "minha vida". 
Caio Fernando Abreu

pensamento aleatório e sem poesia

>drinking champanhe by myself
Ando incentivando as pessoas a beberem champanhe sozinhas. Não que eu esteja levantando uma bandeira em prol da solidão. Não, não e não. Só acho que a gente não precisa depender de outros pra fazer as coisas boas da vida.

Tim tim!

sexta-feira, 21 de maio de 2010

trocadilho de filme

temo
te(a)mo

grito da montanha

é tempo de hipocrisia
de sujeira debaixo dos panos
de solidariedade no câncer


é tempo de absoluta mineirice.
(e, nesse tempo, não me encontro mais.)

quinta-feira, 20 de maio de 2010