domingo, 4 de abril de 2010

trecho de fulgor

"Coisas em que não se pode confiar:

- No homem que esquece facilmente seus amores
- No poeta ávido por sucesso
- Nas pessoas que falam muito alto, tentando nos convencer
- Na amiga que quer ser exatamente como a outra
- No jogo, quando ganhamos facilmente, a primeira partida
- No barco com a vela içada, quando o vento sopra"

e em alguns silêncios.

Otto entenderia

Há sempre um lado que pesa e um outro lado que flutua. Tua pele é crua.
Dificilmente se arranca lembrança, lembrança, lembrança, lembrança...
Por isso da primeira vez dói, por isso não se esqueça: dói.
E ter que acreditar num caso sério e na melancolia que dizia

Mas naquela noite que eu chamei você fodia.
Fodia.
Mas naquela noite que eu chamei você fodia de noite e de dia.

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(Porque às vezes são necessárias palavras de baixo calão. Porque certa noite acordei de sonhos intranquilos e, meu Deus, não era sonho, meu Deus, não era pesadelo, meu Deus do céu, era tudo verdade.)

sábado, 3 de abril de 2010

você deveria vir mais vezes


"Quem acha doce a terra natal ainda é um tenro principiante;

aquele para quem toda terra é natal já é forte;

mas é perfeito aquele para quem o mundo inteiro é um lugar estrangeiro.

A alma tenra fixou seu amor num único ponto do mundo;

a pessoa forte estendeu seu amor a todos os lugares;

o homem perfeito extinguiu o seu."

hugo de st. victor, monge saxão do século XII, citado por edward said (já sabiam das coisas).

segunda-feira, 29 de março de 2010

repito

porque as palavras podem mudar de direção

(texto escrito em 2009 no meu outro blog com o Luiz Rocha: www.cinemamor.blogspot.com)


num fluxo contínuo eu quero conseguir dizer
isso tudo
isso mesmo
isso nada
isso tudo que por ser tudo não faz
sentido junto
sentido justo
sentido mata
eu não entendo as palavras
eu não entendo nada
eu não entendo a conduta
eu não entendo as coordenadas


porque foi você quem telefonou de madrugada
palavras soltas
palavras claras
pra dizer um pouco de muito
e de um pouco de falta
numa saudade única
numa saudade errada
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e nessa vontade mútua
do improvável
existe uma distância
quem sabe uma cilada
e é calando que talvez
possamos ser juntos
o impensável.

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domingo, 28 de março de 2010

sem lugar

Perdi alguma coisa que me era essencial. Alguma coisa preciosa, alguma coisa viva, algum estado ou lugar de onde é possível olhar e reconhecer.
Perdi alguma coisa que angariava grandes certezas. Perdi solos conquistados com prontidão. Perdi afirmações concretas. Perdi pessoas, amizades garantidas, promessas de amores.
Perdi o conforto, perdi a total pureza, perdi o sorriso infantil. Não se trata somente de crescer. Se trata de estar.
São muitos os lugares, muitas as pessoas e de toda a perda resta uma solidão quase incompreendida. É como se contar pro outro não adiantasse. É como se o que perco estivesse ao nível da experiência. Experiência essa que a cada dia atravessa o meu corpo, minhas pernas, meus olhos, minha boca, minha palavra. Vivência direta na pele. Não narrável.
Estou com os pés fincados em algum sítio incerto que aponta novos caminhos (incertos). Na mão direita há uma mala, na mão esquerda, uma gaiola. Elevo o pescoço em direção ao céu, peço ajuda aos antepassados.
Perdi alguma coisa que me era essencial. No peito restam qualidades quase opostas que coexistem juntas na direção dos passos. Medo coragem medo coragem medo coragem medo coragem medo coragem - em pêndulo.
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Há uma travessia a ser percorrida pelas minhas duas pernas, e somente por elas.

quinta-feira, 25 de março de 2010

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"Que avenida tão limpa é essa que vai ser erguida sobre um chão de sangue?"