quinta-feira, 27 de agosto de 2009

menina caminho

"uma estrada é deserta por dois motivos: por abandono ou por desprezo.
essa que eu ando agora é por abandono."

***

"Apaga-te.
O rio não está diante de ti
Como imaginas.
Há apenas o fosso
E a mesa inundada de papéis:
Conjeturas lassas
Sobre a aspereza das palavras.

O rio não está diante de ti
Está além. Viaja."

Hilda Hilst. Estar sendo ter sido.

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

perdeu?

Pois adiante havia o abismo, ela, abismo, ela, lançar-se ao infinito, ela, infinito, abismo, infinito. O vazio do amor completo.
Pois adiante haviam escolhas e escolhas acarretavam em perdas e perdas traziam o vazio e talvez no vazio alguma coisa acontecesse. Eu vou lhe dar a decisão, botei na balança, você não pesou. Pra que rimar amor e dor?
Pois adiante havia o abismo, ela, abismo, ela, lançar-se ao infinito, ela, infinito, abismo, infinito. O vazio do amor completo. O início.
Em volta da mesa, longe do quintal, a vida começa no ponto final.
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domingo, 9 de agosto de 2009

Rosa

A rosa do amor perdi-a nas águas
No imenso azul que ali cercava
Guardado em solfejo, pedi em silêncio
Aos monges, aos poetas e às crianças
Aos pássaros, aos loucos e aos outros
Tragam-me rosas inteiras, acesas
Crepúsculos de manhãs perdidas
Fatias do tempo
Navegantes de luz, navegantes

domingo, 2 de agosto de 2009

ah, Manoel...

"É a ciência da poesia: amarrar o tempo no poste para ser eterno."

Manoel de Barros.

quinta-feira, 23 de julho de 2009

Janelas

Janela um: Uma grande avenida de uma cidade feia. Milhões de árvores arrancadas no canteiro central. Sobram troncos. Um senhor que coloca uma cruz de madeira, feita por ele mesmo, em cada tronco – ou cada resto de árvore. Ele jamais foi à Igreja e também não sabe quem é Deus. Entende de madeira. Coisas feito dela.

Janela dois: Uma praça que dizem causar liberdade nos outros. Uma senhora gorda leva seu passarinho para passear. O passarinho dentro da gaiola, amarelinho, cor de vida inventada. A senhora carrega a gaiola para todos os cantos da praça, conversa com o bichinho, silencia, coloca-o próximo das árvores. Caminha até o chafariz, posiciona a gaiola de acordo com o lado em que a água atinge. O passarinho nada.

Janela três: Um homem sozinho que escreve letras de música. Nunca tocou um instrumento e também não conhece muitas canções. Nas letras que escreve têm um pouco de saudade, de abandono, de desejo, de sonhos, sonhos, sonhos. Ama uma mulher que não cabe em melodias. O homem cantarola em silêncio lamentos de um amor não vivido.

Janela quatro: Um senhor que gosta de ficar na porta do teatro escutando rádio. Jamais foi ao teatro e também não tem muita curiosidade, prefere mesmo é acompanhar a pressa das pessoas que entram e saem dali. Gosta de relacionar cada pessoa à alguma canção que escuta no rádio (mas isso ele não conta pra ninguém). Já foi convidado para vários espetáculos, nunca quis. Diz que tem taquicardia e não suporta locais fechados.

domingo, 19 de julho de 2009

branco, o rosto branco

Branco, branco, o rosto branco
Era calando que me distanciava
A cada passo
Branco, branco, o rosto branco
E se acaso distraída eu perguntasse: "pra onde?"
Não importava que erguendo os olhos
Avistasse paisagens
Regiões afastadas
Quem sabe
Branco, branco, o rosto branco
Haveria sempre de ouvir
Um juízo
Um cascalho
Um osso rígido
Desprovidos de qualquer dúvida
"Estamos indo sempre pra casa".