segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

sofá silêncio

Eu, você em casa e aquele sofá. Uma festa em que não necessariamente fui convidada, ou melhor, fui, mas não fora um daqueles convites cor-de-rosa Bordeaux que quase gritam ao serem abertos com luzinhas e brilhantes "venha, sweetheart, venha". Não recebi convite cor-de-rosa mas fui, mesmo assim, disposta a encontrar de tudo e de todos e também porque muitos dali me faziam saudades há tempos, então fui, coração aberto, postura ereta, tentando ter o mesmo sorriso que tinha quando estávamos em dois, abro a porta e vejo você em casa e aquele sofá. Ninguém na festa saberia, pudera você, o quanto aquele sofá. Era sabido ali de um amor que não aconteceu, ou que aconteceu e teve medo. Todos os medos nossos, que nos distanciaram ou quiçá nos aproximaram por milhões e milhões de instantes.

Cheguei na festa querendo ser eu, absolutamente. Olhava pra todo aquele lugar como se não reconhecesse, ou como se tivesse bastante tempo, embora nem tivesse tanto tempo assim. As situações eram outras, eu era outra, você, outro. E também outras novas pessoas ali, que não existiam ou nem apareciam há um ano atrás. "Agir naturalmente, seja legal, tudo é completamente cool", era o que eu pensava quando me aproximava do sofá.

Todo esse tempo dizendo pra mim mesma que você nunca me significou um amor e que foi, na verdade, uma grande amizade, um companheiro, um vizinho pra quem se pede uma xícara de açúcar no fim da manhã, esse sofá já sabia que tudo isso era balela? Isso mesmo, balela. Quantas vezes a gente fingiu não querer nada? Quantas vezes a gente agiu como se nada de mais profundo entre nós existisse? Profundo é profundo demais, e não sei se é isso que eu quero dizer.

Estou confusa. O que queria dizer na verdade é que ao chegar naquela casa, de frente pra aquele sofá, todos aqueles outros em torno, tive um sentimento incômodo, uma espécie de angústia, nostalgia. Uma saudade. Essa saudade que eu sempre classifiquei no nível da amizade ou da carência, afinal, nada muito extraordinário tem me acontecido nos últimos tempos. Só que ali senti, era uma saudade de mim mesma, de alguma coisa que ficou lá atrás mal resolvida e mal falada e enquanto caminhava pela festa refletia: "existe algum tipo de relação que se resolve?" Relação também é forte demais, e eu não se é isso que eu quero dizer.

Eu sempre soube que o que existiu entre eu e você foi maior que namoro, que amizade, que relação, que. Pra mim é difícil classificar em palavras ou sentimentos o que eu sempre senti, só sei que um ano depois, nessa festa, nesse sofá, me dá assim uma falta. Conversar com você não é o mesmo e é como se minha palavras jamais te alcançassem, você também sente assim? E eu continuo fazendo piadas à todo tempo, vou te fazer rir pra que nada mais sério venha, nada mais.

Não me olhe nos olhos, não converse comigo sozinho, não me leve até a porta na hora de ir embora. Ela está olhando, ela não tem culpa nenhuma, ela é até doce, já disse à você que acho ela doce? Ela talvez seja realmente a melhor pessoa pra você. Ela gosta de você e não tem medo de dizer.

Só um amor não concretizado pode ser romântico.

Admitindo diante do sofá, sinto sua falta. E quero.

sábado, 13 de dezembro de 2008

passagem

e talvez compreender que essa passarela tão estreita deva ser atravessada completamente só, como quem atravessa um coração ou uma vida inteira; e que este é um momento de passagem, de conhecimento tão profundo que só pode ser adquirido na total solidão de si mesmo. perceber a grandeza do instante sozinho é um dom e é preciso acreditar que tudo é uma questão de momento e que, dentro de dias, semanas, meses, anos, quiçá; mas dentro de uma margem de algo que se denomina temporário, alguém segurarará sua mão outra vez.

domingo, 23 de novembro de 2008

sol em câncer



"Só um amor não concretizado pode ser romântico."

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

Dia: a solidão me dói como uma bofetada ou subitamente doce


Acordou, há tempos não acordava assim. Sol de relance na cama, calor, muito calor, espreguiçada (três vezes), bocejos (também três). Erguer-se do leito como uma leoa, cabelos ao vento ou a ausência dele, ainda muito calor, rumo ao chuveiro. Ducha gelada, pensamentos sóbrios cor de rotina. Melhor vestir uma blusa vermelha pra combater tanto cinza, e o engraçado é que lá fora o céu está colorido, mas ainda assim, cara de rotina. Lavar o rosto com sabonete de argila, “isso hidrata e melhora sua cara amassada, minha filha”, silêncio profundo, ninguém disse nada. A casa tem muitos ruídos, mas o silêncio profundo, vem de dentro. Os pés quentes de tanto calor ou seria vontade de andar? Colocar sandálias antigas pros pés respirarem. Inspira, respira, suporta. Uma nova espreguiçada e se sentar prum café primavera. Comer pelas manhãs sempre me dá uma alegria incalculável, o senhor também não sente essa alegria? O café sozinha, cheiro de companhia à mesa, há tempos seu café seria também sua maior companhia, algo quente e próximo como um cigarro, o melhor amigo de tanta gente. Mas, neste caso, apenas café, a criatura aqui não gostava muito de fumar. Cigarros nunca cheiraram como flores.

Comeu logo, será que devo escovar os dentes ou deixar esse gosto de café ainda aqui, mais um pouco? Preferiu escovar os dentes. Desabotoou a gola da blusa vermelha. Não calçou sapatos. Fingiu se esquecer das horas, mas lembrou.

Chaves na mão, gritou tchau! pro vizinho que regava as flores, embora não existissem o vizinho nem as flores. Mesmo assim, colorida azul margarida, desceu às escadas em direção à rotina, carregando as chaves na mão direita e algum sentimento na mão esquerda, sentimento que não distinguia nem sequer sentia. Fingia, doce que era, fingia sentir, fechava os olhos pensando nas primaveras.

Pela rua, muitas pessoas e também nenhuma, não havia trabalho, não havia ocupação, não havia dor de cabeça. Sentia-se egoísta por isso, como poderia estar mais tranqüila do que os outros? Inspira, expira, suporta. Todo mundo com tantas sacolas e tantas idéias, e eu aqui andando em círculos pelo asfalto? Parou na praça da frente de frente à estátua da fonte, estátua de dois anjos que se beijavam. Anjos se amam até o fim dos dias? Preferiu acreditar que sim. Sentou-se ao pé do hidrante e almoçou pêssegos. Pensou que era um pouco cedo para comer de novo, mas só pensou mesmo, e comeu.

Sentiu cheiro de magnólia e lembrou que gostava de verde. Decidiu comprar gardênias e quem sabe um vestido? Sobre o vestido sabia que deveria ser cor de verde, tudo pra combater o cinza. Passou por galerias, cruzou vitrines, quis casar com Chico Buarque e não entrou em lugar nenhum. Melhor imaginar um vestido verde do que encontrá-lo dando sopa por aí. Sentiu-se verde, leve e teve uma vontade absoluta de abraçar alguém. Abraçou as idéias e logo se esqueceu do que pensava. Aborreceu-se com o cachorro da senhora bem de frente ao banco, por que os cachorros parecem estar menos sozinhos nesse mundo cão? Tinha raiva dos cachorros porque queria ser um deles. A maior frustração era não ter um focinho gelado e não ser capaz de encostar nos outros com todo aquele ar de plenitude.

Continuou a caminhar, agora um pouco cansada, desejou ser diferente e quis deitar bem no meio do centro da cidade, sendo envolta por arranha céus e pessoas apressadas com sacolas. Deitou. Logo levantou. Nada disso era absolutamente inédito.

Olhou pra cima, viu pombos, riu deles. Haveria algo mais patético que um pombo? Riu de novo e, com medo, suspeitou que sim.

Entrou numa galeria de arte e imaginou que os artistas deveriam ser os mais ocupados de todas as pessoas. Por um instante desejou que os pensamentos fossem ocupações, mas logo respirou aliviada por não serem. Gostava de pensar em vão. Olhava quadros e pensava que a estátua da fonte era tão mais bonita. Sentiu raiva dos artistas com sua prepotência, eles nunca haviam percebido tamanha a pequenez de um amarelo diante de uma primavera? Sorriu porque sabia que era amarela. Chorou depois, por três horas. Alguns minutos.

Fechou os olhos e lembrou de um beijo. Sabia de todos os perigos dos beijos e lembrava com nostalgia das borboletas na barriga, bem assim, sounding like hollywood. Inspira, respira, suporta. Suspira. Menina, pare de procurar amor em toda esquina! Ela sabia que nenhum sentimento viria numa caixinha de leite mas, ainda assim, procurava.

Parou diante do xerox e pediu que copiassem sua temperança. O velho dono da papelaria zombou dela, disse que ali só tiravam xerox da soberba. Ela saiu em silêncio, aquele mesmo silêncio de dentro, o único ruído vinha das chaves que balançavam nos bolsos.

Perdeu-se sem saber pra onde ir. Abriu os bolsos, despejou tudo o que tinha, queria voltar pra casa. Ela já não sabia que desde o início aquele dia seria cinza? Fechou os olhos com rapidez, respirou fundo, altiva. Não queria voltar pra casa. Passou por um velhinho de cabelos cor de orquídea e pediu que ele segurasse fortemente as suas duas mãos, por três minutos. O velhinho tremia e de tanto trupicar, soltou-se. Tranqüila, ela aceitou os fatos, relaxou os ombros e engoliu todo o doce que tinha da goela até o estômago. Apesar de conhecer o doce que tinha todos os dias por dentro de si, só ali se deu conta. Se alegrou, quase saltou. Vibrou por saber que a primavera estava era ali mesmo, perto da boca, e gargalhou como ainda não tinha gargalhado o dia todo. Inspira, inspira, inspira. Quis gritar, mas não teve som. Quis correr, mas sentiu que era parada que ela se sentia presente. Ficou os pés no chão, no presente. Despreocupa, pensa no essencial. Acorda, acorda, acorda. Respira, respira, respira. Rapidamente e deixando de lado todo o resto, soltou o sentimento da mão esquerda, jogou as chaves pro alto e abriu os braços no meio da avenida.

Quis ser.

domingo, 5 de outubro de 2008

quarta-feira, 17 de setembro de 2008

outros passos

Meu querido, não te aborreças
Não há em mim uma procura infindável por seus passos
Não te aborreças.
O gostar só se dá quando se deu
E o silêncio é inteiro, mútuo.
Não mude, não tema, não te aborreças
Prossiga a caminhada
Música, dois, uma estrada
O gostar só se dá quando se deu
E se vem, inevitável, fica.
Não te aborreças, meu querido.
Viva.