Meu querido, não te aborreças
Não há em mim uma procura infindável por seus passos
Não te aborreças.
O gostar só se dá quando se deu
E o silêncio é inteiro, mútuo.
Não mude, não tema, não te aborreças
Prossiga a caminhada
Música, dois, uma estrada
O gostar só se dá quando se deu
E se vem, inevitável, fica.
Não te aborreças, meu querido.
Viva.
quarta-feira, 17 de setembro de 2008
outros passos
sexta-feira, 29 de agosto de 2008
domingo, 27 de julho de 2008
ser dois
Qualquer tempo que tivéssemos seria Insuficiente.
Um tempo justo pra nos tornar mais juntos.
Um tempo junto pra caber nos braços.
Eu atrás de braços que não sei de onde
Me aquecem.
Me esquecem.
Vontade de sentir que as mãos vão juntas
Uma querendo a outra como se quer o outro
E pronto.
Sem tempo pra pensar demais
Vontade de arriscar querer sentir de novo
Sentir que se tem um outro
E que é o que é
E ponto.
terça-feira, 8 de julho de 2008
))<>((
"e se realmente gostarem? se o toque do outro de repente for bom? bom, a palavra é essa. se o outro for bom para você. se te der vontade de viver. se o cheiro do suor do outro também for bom. se todos os cheiros do corpo do outro forem bons. o pé, no fim do dia. a boca, de manhã cedo. bons, normais, comuns. coisa de gente. cheiros íntimos, secretos. ninguém mais saberia deles se não enfiasse o nariz lá dentro, a língua lá dentro, bem dentro, no fundo das carnes, no meio dos cheiros. e se tudo isso que você acha nojento for exatamente o que chamam de amor? quando você chega no mais íntimo, no tão íntimo, mas tão íntimo que de repente a palavra nojo não tem mais sentido. você também tem cheiros. as pessoas têm cheiros, é natural. os animais cheiram uns aos outros. no rabo. o que é que você queria? rendas brancas imaculadas? será que amor não começa quando nojo, higiene ou qualquer outra dessas palavrinhas, desculpe, você vai rir, qualquer uma dessas palavrinhas burguesas e cristãs não tiver mais nenhum sentido? se tudo isso, se tocar no outro, se não só tolerar e aceitar a merda do outro, mas não dar importância a ela ou até gostar, porque de repente você até pode gostar, sem que isso seja necessariamente uma perversão, se tudo isso for o que chamam de amor. amor no sentido de intimidade, de conhecimento muito, muito fundo. da pobreza e também da nobreza do corpo do outro. do teu próprio corpo que é igual, talvez tragicamente igual. o amor só acontece quando uma pessoa aceita que também é bicho. se amor for a coragem de ser bicho. se amor for a coragem da própria merda. e depois, um instante mais tarde, isso nem sequer será coragem nenhuma, porque deixou de ter importância. o que vale é ter conhecido o corpo de outra pessoa tão intimamente como você só conhece o seu próprio corpo. porque então você se ama também."
(Caio Fernando Abreu)
terça-feira, 1 de julho de 2008
do se dizer adeus
Esperar por você é esperar Godot.
Seus olhos, seu cheiro, seu medo, sua boca. Não passam de ilusões que têm me mantido com alguma perspectiva.
Sem perspectiva, vejo de perto. Sua condição será essa, sempre.
Inútil esperar mais dos seus sorrisos e abraços, sendo que eles jamais passarão de sorrisos, e de abraços.
Aos poucos percebi que você nunca virá.
Que rufem os tambores no silêncio do seu nome.
Não te espero mais.
quarta-feira, 11 de junho de 2008
dia hoje
quarta-feira, 21 de maio de 2008
menina sem vento
-- Mamãe, estou com falta de ar! – a menina correu com as saias amarelas que balançavam naquilo que ela mesma dizia que sentia falta. A mãe, aflita como sempre ficava com qualquer problema, correu de volta em direção às saias amarelas da filha.
-- Falta de ar, filhinha? Como assim falta de ar? – Como assim falta de ar. Como assim falta de ar!? Falta de ar, oras. Uma menina de oito anos jamais saberia responder com precisão um “como” desses, mesmo que essa fosse uma menina que, como todas as outras meninas, gastasse seu tempo pensando a respeito das coisas.
-- Falta de ar, mamãe! Falta de ar e pronto. – Falta de ar e pronto. E ia ela, na mais pura incompreensão daquele período quase-fim da infância, dando batidinhas no peito, ficando ainda mais branquinha do que era, com os olhos menorzinhos ainda do que eram. A mãe aflita assoprava e tratava logo de preencher todo o ar da sala da casa com perguntas recheadas de “como”. Como assim? Como no peito? Como vamos resolver isso, meu Deus do céu? E agora? Melhorou um pouco? Como está?
A menina nada respondia e continuava com as batidinhas no peito. Até que.
-- Passou.
-- Passou? “Como” passou?
-- Passou, mamãe. Passou e pronto.
A mãe se aborrecia muito com a rapidez e a praticidade da menina responder as coisas. Para ela todas as respostas deveriam ser mais profundas que um “pronto” e uma mocinha de oito anos não podia continuar sentindo faltas dessa espécie – ainda mais que essa não era a primeira vez. A mãe, tomando um pouco de ar pra ficar mais calma, atacou.
- Filha, preste atenção. Preste muita atenção: você precisa me explicar melhor essas faltas que você anda tendo... Isso não pode acontecer o tempo todo, não pode. Falta de ar? Nessa idade?
-- Tá bom mamãe.
E foi brincar, já mais amarelinha, da cor das saias.


