quarta-feira, 5 de setembro de 2007

centro-me

Fiquei o dia todo a sua espera.

Quem você é, não sei. O que é também não me interessa. Fiquei a espera Disso: uma sacudida, um espasmo, um barulho incompreensível, uma pausa. Fiquei a espera de uma flecha que atingisse o centro do meu corpo – não o umbigo, que todos imaginam ser o centro do corpo, mas aquela parte que fica logo acima do estômago, logo abaixo do intervalo que existe entre os seios, aquele ponto do corpo que dói quando sentimos angústia. O centro do corpo é aí: no ponto da angústia. Angústia pura: fiquei a espera.
Eu queria uma voz que me acalmasse, uma melodia nova, uma cor de laranja no céu. Queria um instante em que tudo fosse possível – ou impossível. Queria um espanto, uma tosse, uma pontada nos ouvidos, um mergulho no intangível, um riso fantasiado, um escorregão, um salto na penumbra, um sabor novo e comum. Queria um aperto forte nos ombros, desses que erguem a gente para as nuvens. Queria um caminho atravancado que me fizesse mudar de direção, queria tornar a visão tortuosa por lágrimas, pálpebras de neblina. Queria um espirro, um grito ou simplesmente, um silêncio. Um silêncio com presença. Queria assim, simplesmente: algo que me arrebatasse.
Fiquei o dia todo a sua espera.

Espero.
título criativa : mil-ena

sábado, 1 de setembro de 2007

sexta-feira, 17 de agosto de 2007

palavras da andorinha


"Eu me apego ao amor pra compensar todas as outras coisas que sei que não sei fazer. Esse mecanismo que a gente aprende: amenizar as falhas."





sexta-feira, 10 de agosto de 2007

"mil perdões"

Eu estou aqui para te pedir perdão.

Sem moralismos, sem demagogias, sem fingimentos, venho te pedir perdão por tudo isso e um pouco mais, e são tantos issos e tantos mais que tudo parece não caber nessa pequena palavra - palavra tão sonora, tão pesada: Perdão. Palavra pesada que busca leveza. Já disseram por aí que “é preciso ser leve como o pássaro e não como a pluma” e isso talvez signifique que para se alcançar a leveza é necessário uma espécie de vôo para um outro espaço, outro instante, outra ótica. Outra perda? Preciso pedir perdão para me tornar mais leve.
Diante disso tudo e um pouco mais, peço antes de qualquer coisa, perdão por isso: o demais. Os mais velhos sempre me alertaram: “É bom evitar os excessos” e eu, desde menina, cheia de vontades, decidi que seria muito. Sempre muito. E assim fui muita coisa, mergulhei em tudo que queria mergulhar. Mergulhei você.
Você também queria ser muito e nunca conseguiu. Havia em você uma falsa vontade de querer algo, qualquer coisa, e nada. Você nada queria. Assim, talvez por causa disso, resolvi pra mim mesma que viveria tudo quase em dobro, em triplo, para compensar as suas fraquezas em querer.
O desejo perigoso de se lançar fez com que eu me lançasse a você e a tudo. Perdão: foi demais. Queria te ter por inteiro, queria que me tivesses por inteira. Queria que você conseguisse tudo aquilo que pudesse, em algum instante, querer.
Perdão. Você nunca quis nada.
Depois dum mergulho tão fundo você passou a querer menos ainda as coisas. Se já nada queria, passou a negar até isso mesmo: o nada. Perdão. Eu sempre tive essa mania de querer preencher o “nada” com poesia.
Em tudo ou nada, sempre o mesmo, os mais velhos me alertavam: “É bom evitar os excessos. Não se pode doar por inteiro para ninguém”
Preciso pedir pra me tornar mais leve: Perdão.


E agora, um vôo.

quinta-feira, 2 de agosto de 2007

os amantes

Começou num abraço. A partir do gesto, tão simples e tão de repente, fez-se uma virada que logo se seguiu no resto que viria adiante. Ele apareceu pra curar Ela ( e Ela para curar Ele também ). Ela guardava consigo todas as feridas do mundo – feridas de um amor incurável – e Ele guardava os ouvidos, os olhinhos pequenos, os cabelos fartos e os braços. Os braços estendidos. E ali, naquele início que começava pelo colo, Ele quase se esquecia da ferida que também precisava se curar – ferida de um amor. Incurável?
Começaram assim, pelo colo, pelos braços, pela cura de ambos. Cúmplices de uma mesma dor, de um mesmo sentimento intangível, consolavam-se juntos, pouco a pouco. Um no colo do outro, braços entre-laçados, lá estavam os dois a compartilhar feridas abertas. Ele soprava a ferida Dela com uma lentidão que a acalmava. Ela apenas sorria para Ele - e isso era tudo.
Compartilhavam as feridas e assim iam também compartilhando braços, beijos, sonhos, sonos, idéias, olhares, toques, melodias, silêncios. Se entendiam muito bem durante as conversas. Se entendiam melhor ainda nos silêncios.
À medida que iam se entendendo, iam também se adorando, mais e mais. Porém, mesmo um precisando tanto do colo do outro, tanto Ela quanto Ele colocavam ali um limite de envolvimento, uma linha tênue quase-transparente que os impedia de ir muito adiante – ainda não estavam curados. Ambos sabiam que tinham se conhecido apenas para isso mesmo – a cura – e não podiam nem deviam ir muito além. Ele não era pra Ela. Ela não era pra Ele.
Leveza. Tinha ali algo quase melhor do que o amor: cumplicidade, carinho, colo, abraço. E mais: a linha tênue quase-transparente impedia qualquer mergulho. Ele adorava Ela. Ela adorava Ele. E os dois se guardavam no ar, longe do sofrimento. Cúmplices amantes que não podiam se amar.
Se enchiam de abraços: um abraçando a dor do outro, outro curando a ferida de um. Ela só gostava de conversar com Ele. Ele só queria confiar Nela. E os braços de ambos se mantinham fora d´água.
Iam se adorando no calor dos braços entre-laçados e dos sorrisos.
Até que teve um dia.
Choveu. Tempestade. Se entenderam demais. Os abraços se tornaram muito apertados, sufocantes. Um movimento atípico no peito revelava tanto para Ele quanto para Ela a possibilidade de perigo. Insegurança e medo. A linha tênue já não era quase transparente e sim, quase colorida, quase azul. Os sábios dizem o tempo todo: é azul a cor do amor.
Oceano. Justamente à partir daquele ponto começava-se a avistar, cada vez mais de perto: tanta água.
A água inundou. Inundou os ouvidos, os olhinhos pequenos, os cabelos fartos Dele. Inundou o sorriso Dela. Os abraços ala(r)gados se debatiam contra a possibilidade do mergulho. Tarde demais, água demais.
Nunca mais Ele curaria Ela. Nunca mais Ela curaria Ele. O medo de uma outra ferida fez com que cada um seguisse o curso de seu próprio rio e os braços se repartiram, cada um pro seu lado.
Separaram-se em ilhas. Ela, com seu sorriso. Ele, com os olhinhos pequenos demais para enxergar o tamanho do oceano.
Sem os braços dados, às vezes se escutam. Quando alguma ferida ameaça se abrir, Ele acena pra Ela, Ela sorri pra Ele. Se entendem muito bem - melhor ainda nos silêncios.
Cada um segue o curso de seu rio fingindo não se dar conta de tanta água. Mantêm-se secos – cúmplices amantes que não podem se amar.
No entanto, quando estão sozinhos, cada um na sua ilha, param de fingir pro mundo: gotinhas minúsculas escorrem pelos braços de ambos.
Ele com seus olhinhos. Ela com seu sorriso.
Inundados.
Incuráveis.

sexta-feira, 27 de julho de 2007

nostalgia da época em que jamais vivi

"Ocupar espaço:
espantar a caretice:
tomar o lugar:
manter o arco:
os pés no chão:
um dia depois
do outro."



Torquato Neto, coluna "Geléia Geral", Última Hora, terça-feira, 30/11/1971

segunda-feira, 16 de julho de 2007

e sim.

"Andei pensando coisas. O que é raro, dirão os irônicos. Ou "o que foi?" - perguntariam os complacentes. Para estes últimos, quem sabe, escrevo. E repito: andei pensando coisas sobre amor, essa palavra sagrada. O que mais me deteve, do que pensei, era assim: a perda do amor é igual à perda da morte. Só que dói mais. Quando morre alguém que você ama, você se dói inteiro(a)- mas a morte é inevitável, portanto normal. Quando você perde alguém que você ama, e esse amor - essa pessoa - continua vivo(a), há então uma morte anormal. O NUNCA MAIS de não ter quem se ama torna-se tão irremediável quanto não ter NUNCA MAIS quem morreu. E dói mais fundo- porque se poderia ter, já que está vivo(a). Mas não se tem, nem se terá, quando o fim do amor é: NEVER. Pensando nisso, pensei um pouco depois em Boy George: meu-amor-me-abandonou-e-sem-ele-eu-nao-vivo-então-quero-morrer--drogado. Lembrei de John Hincley Jr., apaixonado por Jodie Foster, e que escreveu a ela, em 1981: "Se você não me amar, eu matarei o presidente". E deu um tiro em Ronald Regan. A frase de Hincley é a mais significativa frase de amor do século XX. A atitude de Boy George - se não houver algo de publicitário nisso - é a mais linda atitude de amor do século XX. Penso em Werther, de Goethe. E acho lindo. No século XX não se ama. Ninguém quer ninguém. Amar é out, é babaca, é careta. Embora persistam essas estranhas fronteiras entre paixão e loucura, entre paixão e suicídio. Não compreendo como querer o outro possa tornar-se mais forte do que querer a si próprio. Não compreendo como querer o outro possa pintar como saída de nossa solidão fatal. Mentira: compreendo sim. Mesmo consciente de que nasci sozinho do útero de minha mãe, berrando de pavor para o mundo insano, e que embarcarei sozinho num caixão rumo a sei lá o quê, além do pó. O que ou quem cruzo entre esses dois portos gelados da solidão é mera viagem: véu de maya, ilusão, passatempo. E exigimos o terno do perecível, loucos. Depois, pensei também em Adèle Hugo, filha de Victor Hugo. A Adèle H. de François Truffaut, vivida por Isabelle Adjani. Adèle apaixonou-se por um homem. Ele não a queria. Ela o seguiu aos Estados Unidos, ao Caribe, escrevendo cartas jamais respondidas, rastejando por amor. Enlouqueceu mendigando a atenção dele. Certo dia, em Barbados, esbarraram na rua. Ele a olhou. Ela, louca de amor por ele, não o reconheceu. Ele havia deixado de ser ele: transformara-se em símbolo sem face nem corpo da paixão e da loucura dela. Não era mais ele: ela amava alguém que não existia mais, objetivamente. Existia somente dentro dela. Adèle morreu no hospício, escrevendo cartas (a ele: "É para você, para você que eu escrevo" - dizia Ana C.) numa língua que, até hoje, ninguém conseguiu decifrar.Andei pensando em Adèle H., em Boy George e em John Hincley Jr. Andei pensando nesses extremos da paixão, quando te amo tanto e tão além do meu ego que - se você não me ama: eu enlouqueço, eu me suicido com heroína ou eu mato o presidente. Me veio um fundo desprezo pela minha/nossa dor mediana, pela minha/nossa rejeição amorosa desempenhando papéis tipo sou-forte-seguro-essa-sou-mais-eu. Que imensa miséria o grande amor - depois do não, depois do fim - reduzir-se a duas ou três frases frias ou sarcásticas. Num bar qualquer, numa esquina da vida. Ai que dor: que dor sentida e portuguesa de Fernando Pessoa - muito mais sábio -, que nunca caiu nessas ciladas. Pois como já dizia Drummond, "o amor car(o,a,) colega esse não consola nunca de núncaras". E apesar de tudo eu penso sim, eu digo sim, eu quero Sins."

Pequenas Epifanias. Caio Fernando Abreu.